03/10/2011

O papo aqui é música



O gaúcho Carlos Eduardo Miranda é uma daquelas figuras lendárias da música pop brasileira. Músico, jornalista, produtor, traz na bagagem o lançamento de nomes como Raimundos, Mundo Livre S/A, O Rappa e Skank, bandas fundamentais do pop rock nos anos 90. Ao lado de João Marcelo Bôscoli, da gravadora Trama, coordenou o projeto Trama Virtual, espécie de gravadora on-line responsável por descobrir e lançar boa parte dos artistas independentes nos anos 2000. Foi nessa época que lançou o Cansei de Ser Sexy, uma das bandas brasileiras com maior projeção no exterior.
Mas como todo mundo que trabalha nos bastidores, Miranda não era conhecido do grande público, uma realidade que mudou quando passou a integrar o júri de shows de talentos na tevê aberta. Atualmente jurado do programa “Qual é o Seu Talento?” (SBT), ele se divide entre vários projetos e mantém uma relação estreita com a música paraense contemporânea. Diretor artístico do show Terruá Pará, desde a primeira edição do projeto, em 2006, Miranda também assina a direção artística do esperado disco de estreia de Gaby Amarantos e está sempre ligado no que acontece por essas bandas. “Acho o Pará um lugar muito especial na área da cultura, o lugar onde a gente encontra uma riqueza musical, uma diversidade muito grande”, diz ele.
Envolvido com os preparativos do próximo Video Music Brasil, maior premiação da MTV brasileira, Miranda lamenta não estar em Belém para conferir a reapresentação do Terruá Pará no próximo dia 5, no Píer das Onze Janelas, na semana que a cidade estará fervilhando por conta do Círio. Ele bateu um papo sobre música paraense, produção e mercado musical no Brasil. Com a palavra, Miranda.

De jornalista a produtor musical. Como foi essa mudança em sua carreira?
No final dos anos 80 eu era jornalista, escrevia na Bizz e colaborava com a Folha e o Estadão. Nesse meio tempo comecei a trabalhar com o Sepultura, ajudei a banda a chegar numa gravadora, então percebi que era hora de começar meu negócio. Junto com o pessoal dos Titãs montei o selo Banguela, que lançou os Raimundos e uma série de artistas. No final dos anos 90, me juntei ao João Marcelo Bôscoli na gravadora Trama, onde eu tinha um selo, e depois me dediquei a cuidar de um projeto muito interessante, o Trama Virtual, uma comunidade que funcionava como gravadora on-line, uma experiência inédita numa época em que as bandas ainda não tinham MySpace. Dentro desse site apareceu um grupo muito especial, o Cansei de Ser Sexy, que surgiu dentro desse processo digital.

Você já trabalha há muitos anos como produtor musical. O que é mais difícil nesse tipo de trabalho? E o que é mais prazeroso?
O mais difícil é o tempo que ocupa o trabalho de produção. As empreitadas geralmente são muito longas, a produção pode ser muito complexa. De uma forma geral, o dinheiro disponível nunca é proporcional ao tempo a ser gasto. Mas o prazer de ver o resultado é tão grande que compensa qualquer coisa. 

Nos anos 90 você lançou bandas como Raimundos e Mundo Livre S/A, que estão entre as mais importantes do pop rock brasileiro. Qual a principal diferença entre o mecanismo de produção e lançamento de artistas brasileiros nos anos 90 e nos dias de hoje? A internet realmente facilitou as coisas?
Tudo ficou muito diferente. Como diz o Pena Schmidt, o filtro mudou de lugar. Antes estava nas gravadoras, na mídia, mas hoje o artista está muito mais independente para tocar sua carreira. Por outro lado, está muito mais dependente dele mesmo. Aumentaram as possibilidades, mas também a responsabilidade. Não diria que está mais difícil, mas sim que exige mais. 

Apesar de sua respeitável trajetória no mercado musical, você tornou-se conhecido do grande público como jurado de shows de talentos na TV. Isso o incomoda?
Nem um pouco, porque encaro muito naturalmente, me divirto. É um trabalho que me dá oportunidade de estar pronto para outras atividades. Se não fosse isso, dificilmente eu poderia fazer o Terruá, por exemplo, um projeto muito trabalhoso, que eu faço muito mais por amor do que por qualquer coisa, assim como os discos independentes, projetos que eu amo tanto.

Como você lida com a fama?
Minha rotina mudou muito, tive que aprender a lidar com isso, mas eu estava preparado, por ter vivido nos bastidores observando o que acontecia com os artistas. Sempre tive uma postura muito crítica. Não me iludo, mas tenho um grande carinho pelas pessoas que vêm falar comigo, pois sinto que faço alguma diferença na vida delas. Vejo no sorriso da pessoa o quanto a fiz feliz em algum momento da vida. Isso é muito bonito, e tão grande quanto a arte, mas para ser feliz preciso muito mais do trabalho artístico do que da fama. 

O que leva você a embarcar num projeto?
A primeira coisa é acreditar no projeto, achar que ele tem relevância cultural, mas também que tenho algo a acrescentar, porque às vezes tem coisa legal que não precisa de mim, então posso usar o meu tempo livre para outro projeto. O que importa é que os trabalhos se concretizem, e não que seja eu a produzi-los.

Você é diretor artístico do Terruá Pará, ao lado da Cyz Zamorano. O que vê de especial ou diferente na música paraense?
Acho o Pará um lugar muito especial na área da cultura, o lugar em que a gente encontra uma riqueza musical, uma diversidade muito grande, mas sempre achei tudo muito disperso. O que a gente tentou fazer, além de mostrar para o Brasil essa riqueza, foi mostrar para o próprio Pará uma possível unidade da música paraense, um ponto em comum que esses artistas poderiam explorar, falar uma linguagem de comunicação interna que enriqueça a música paraense. Sempre amei a música paraense, e quando cheguei aí vi cada um por si. Se unirem esforços e talentos, muita coisa legal vai aparecer. E quando a gente fala em unidade, fala também em diversidade, na mesma medida. O mote do Terruá sempre foi diversidade mais unidade.

O Terruá foi indicado ao Prêmio Bravo! de Cultura, concorrendo com Pato Fu e Criolo. Quais as nossas chances de conquistar esse prêmio?
Não sei julgar as chances do Terruá, mas sei que é muito especial ser finalista desse prêmio, pois são apenas três shows, e três shows muito bem comentados, escolhidos como shows do ano. Um deles é de um artista revelação, o grande hype do momento; o outro criou um negócio novo, que foi super bem recebido, envolve a família inteira. A Bravo! é uma referência para todo mundo interessado em cultura nacional, e a indicação já é um prêmio. Estou muito orgulhoso de ter recebido esse convite, conheço as pessoas que integram o júri, são pessoas criteriosas, que nunca me facilitaram a vida em nada do que fiz, então é algo realmente merecedor.

A Gang do Eletro tem sido apontada como uma das revelações desse novíssimo cenário, mas até mesmo no Pará muita gente torce o nariz para o tipo de música que eles produzem. O que você acha disso?
A música deles é muito específica, focada na aparelhagem. A Gang causa muito impacto, mas isso não vai garantir que faça um grande sucesso. Tem possibilidade de vir a ser uma revelação, uma descoberta, mas isso só dá para saber com o tempo. Talento não falta, eles são realmente incríveis, mas talvez o trabalho não seja compreendido por ser muito específico. O estranhamento é natural, não somente em Belém, mas quem gosta de novidade, quem tem a mente aberta, vai adorar. É assim que o mundo funciona.

A Gaby Amarantos também passou por esse processo, e hoje está em toda parte.
No centro do país ela é de um tamanho que não imaginas. Acompanhei a Gaby em gravadoras, e a receptividade é de cair o queixo, e isso entre pessoas que nunca demonstram estar empolgadas com as coisas, porque já viram de tudo. Hoje ela recebe constantemente convites da Globo, vai cantar no VMB, e não porque sou diretor musical desse evento, mas por mérito mesmo. Entre os artistas do Terruá, outro nome que vejo despontando e recebendo muitos elogios é a Lia Sophia. Isso tudo está acontecendo em função de muitas coisas, mas também existe uma relação com o Terruá. Uma das intenções do projeto é essa, ajudar o artista paraense a achar uma cara que seja vendável para o País.

Como será o esperado disco de estreia da Gaby?
O disco já está pronto, mixado. É um disco despretensioso, popular, mas sem apelar para o populismo. Não é um trabalho para gringo ver. A ideia é que qualquer pessoa que já gostou dela, goste muito mais; é dar satisfação aos anseios do público em relação a Gaby. E não tem nada de hype, é um disco completamente inovador, com música para tocar em qualquer rádio, mas com elementos riquíssimos da cultura paraense. Eu fiz a direção artística do disco, que teve produção do Luiz Félix Robatto, com Waldo Squash e Cyz Zamorano. Foi uma grande sacada ter o Waldo junto, ele é um gênio. Eu escutava tudo, dava sugestões, e eles iam mais ou menos seguindo as instruções. Já mostrei para alguns jornalistas, e todo mundo se impressiona muito pela franqueza, pelo impacto do trabalho. É algo legítimo, e totalmente feito no Pará. Só gravamos a voz no Rio de Janeiro por conta da gravidez da Cyz, e mixei em São Paulo por causa do meu tempo curto. Esse disco vem abrilhantar a história da música paraense e levar adiante essa música. Vai tocar em rádio, vai aparecer na TV, e jornalista vai gostar, por mais exigente que seja, pois tem algo a descobrir. Tem elementos de música pop, de música eletrônica. Tenho muito orgulho de ter participado desse trabalho, é uma honra e está ao lado dos grandes momentos da minha carreira.

Quais os seus projetos atuais? 
Estou fazendo um disco em Goiânia com um grupo de rock pesado chamado Hellbenders, um trabalho com pretensão internacional, e terminando de mixar o disco do Saulo Duarte, nascido no Pará e criado em Fortaleza. Também tem o novo disco da Nina Becker com o Marcelo Callado, baterista da banda Do Amor, que está sendo feito aos poucos, gravado mais em casa, em momentos especiais. São elementos da vida que terão seu resultado no disco. Além disso, sou diretor musical do VMB, o que no momento está me absorvendo muito.

Quando será o VMB?
Dia 20 de outubro, e sugiro que a galera veja, pois vai ter grandes surpresas, coisas inusitadas, vamos chutar o balde (risos).

(Entrevista publicada no jornal Diário do Pará na edição do dia 02/10/2011) 

Errata: após a publicação da matéria, Miranda corrigiu uma informação que estava errada. A banda que ele ajudou a conseguir uma gravadora foi o Skank, e não o Sepultura. "O Sepultura ajudei a consolidar a imagem no Brasil antes de uma temporada de quase dois anos fora, logo após o RiR2, também ajudando como empresário estepe aqui no país uns poucos meses de muita diversão", explicou ele, na comunidade da Bizz no Facebook. Falou, Miranda! :)

0 comentários: