13/06/2010

Kid Vinil, herói da nação indie



A nação indie desse Brasil varonil já sabe. Se alguma banda independente vale a pena, certamente ela será indicada por ele, não importa que venha da Islândia ou do Cazaquistão.Num mundo saturado de tanta informação, nada mais importante do que contar com as sábias referências de quem tem uma vida inteira dedicada a ouvir, fuçar, cavucar, descobrir e – o melhor de tudo – compartilhar o rock que faz diferença.
Dono de uma invejável coleção de vinis e CDs, ele é uma verdadeira biblioteca musical – e não só pelo que coleciona, mas também pelo que viveu até aqui. Uma história que começa mais ou menos num show dos Pistols, na Londres de 1978. Por tudo isso, Kid Vinil é o cara.

Eu gostaria de começar esse bate-papo falando um pouco da sua história. Você esteve em Londres no auge do movimento punk e pôde ser um espectador privilegiado do que estava acontecendo naquele momento histórico. Que lembranças você tem dessa viagem? E como você foi parar lá?
Meu sonho sempre foi ir pra Londres conferir de perto o movimento punk. Na época eu trabalhava numa gravadora, e acabei descolando um jeito de ir pra lá passar algum tempo, como correspondente internacional dos caras. Foi uma experiência e tanto. Cheguei até a visitar gravadoras, e lancei em 1980 uma coletânea de punk e new wave pela antiga Philips chamada “New Wave Times”. Foi uma época incrível, vi todos os shows de punk que eu queria: Sex Pistols, The Clash, Ramones, etc.

Existiriam diferenças entre o punk brasileiro e o inglês?
Com certeza. O punk inglês era algo politicamente correto e incorreto ao mesmo tempo. Era um movimento extremamente musical e contestador, porém tinha gente importante da moda, como Vivienne Westwood, que ao lado de Malcolm McLaren criou a estética da moda punk e o Sex Pistols. Existia um grande comércio por trás disso tudo.Apesar do lema “Do It Yourself”, todo mundo estava nessa pra ganhar uma grana. Veja os escândalos do Sex Pistols, tudo pra chegar ao primeiro posto das paradas britânicas e chocar o mundo. Sexo, drogas e rock and roll, esse também era o lema.
No Brasil nem tudo era glamour. Vivíamos uma época pós-ditadura e estávamos em pleno militarismo, com censura e outras privações. Na periferia de São Paulo, alguns grupos começaram a se formar, mas de garotos extremamente pobres e miseráveis, que usaram o elemento contestatório do punk ao extremo. Se na Inglaterra eles iam contra o governo da primeira ministra Margaret Thatcher, aqui a coisa era muito pior. Na Inglaterra, apesar do desemprego, os ingleses têm seguro desemprego por tempo ilimitado, o governo sempre deu assistência aos pobres e desempregados. Eles zombavam a rainha e toda aquela pompa da monarquia, coisa de país rico. Aqui as coisas sempre foram diferentes, e o punk brasileiro virou algo muito mais rebelde e agressivo. Chico Buarque resumiu bem tudo isso dizendo: “Se punk é sinal de miséria, pobreza e fome, o Brasil é a vanguarda desse movimento”.

Na época você foi taxado de “traidor do movimento” por ter dado uma entrevista à revista Veja. Em algum momento você se arrependeu de ter feito aquilo?
Eu era um desbocado, falava o que bem entendia e sempre me dava mal. Com o tempo, aprendi a ficar quieto. Eu vinha de todo um glamour do punk britânico, e achei que as coisas aqui eram diferentes. Depois caí na real, porque eu não passava de um burguês que tinha grana pra ficar viajando pra Londres, comprar roupas e disquinhos para tocar no meu programa de rádio. Claro que os garotos pobres da periferia me odiavam.Eu era muito arrogante e só depois percebi que aqueles que gostavam de punk e ouviam o meu programa eram na maioria garotos da periferia. Daí baixei a bola e resolvi não mais me envolver com eles.

Entre todas as suas atividades em tantos anos de carreira, com qual delas você se identifica mais?
Muita coisa me realizou. Adoro fazer rádio, gostaria muito de voltar a ter um programa diário ou semanal de novidades musicais. Meu herói sempre foi o DJ inglês John Peel, eu sempre sonhei ser um John Peel brasileiro, mas o rádio aqui nunca esteve preparado pra isso. Na TV curti fazer o “Lado B” naquela época, pois tinha toda liberdade para tocar o que eu quisesse. Hoje seria muito difícil, com essa comercialização pela qual a MTVpassou. Adoro também me apresentar ao vivo com minha banda, Kid Vinil Xperience. É uma banda de barzinho, tocamos sem compromisso, fazemos covers de punk e new wave, rock brasileiro dos 80 e naturalmente coisas do Magazine. Acho muito divertido fazer isso sem ter obrigação nenhuma com ninguém.

Você tornou-se conhecido por trazer ao público bandas que até então eram pouco conhecidas no Brasil. Antes da internet esse processo de garimpagem era mais fácil?
Antes eram as revistas importadas, os jornais ingleses, tipo Melody Maker e NME,que eu assinava, e as revistas daquela época. Era preciso viajar constantemente para comprar os discos e ficar atualizado. Hoje, com a internet, nem preciso viajar. Se quero um disco, peço em qualquer loja virtual. Não gosto muito de downloads, ainda sou adepto do formato físico, mas ficou muito mais fácil receber os disquinhos em casa, sem precisar viajar, assim como as revistas de música, que existem todas na versão virtual.

Mas como farejar algo interessante no meio de tanta informação?
É preciso ser esperto e saber quem são os bons críticos lá fora, para saber quais os bons discos, pois não adianta sair ouvindo qualquer coisa, como muita gente faz e acha que aquilo é o que tá rolando. A internet veio pra ajudar e pra confundir as pessoas. Então é preciso um glossário dos sites pra quem quer ter uma ideia do que está rolando de bom, tipo: www.pitchfork.com (a bíblia indie americana), www.nme.com (o jornal inglês com mais de 50 anos de história no rock), www.mojo- 4music.com (a revista de rock mais respeitada da Inglaterra), www.uncut.co.uk (outra respeitada revista inglesa), www.roughtrade.com (a loja independe mais importante do mundo) e www.othermusic.com (a loja independente mais importante da América). Esses são alguns endereços do mapa da mina para você ficar sabendo o que rola de novo e manter-se antenado com o rock independente do planeta.

O que você anda ouvindo ultimamente? (cite no máximo 20 bandas) E o que você nunca deixa de ouvir?
Avi Buffalo e Male Bonding (novas bandas da Sub Pop), Dum Dum Girls (banda de garotas americanas), Surfer Blood (banda da Flórida), JJ (dupla sueca), The National (o novo disco “High Violet”), Fang Island, Portugal The Man, The Drums, The Morning Benders (bandas americanas), Peggy Sue (banda inglesa), Broken Social Scene (banda canadense; o disco novo é espetacular), The Hold Steady (banda americana; o novo disco também é muito bom), Foals (ingleses; o disco novo é excelente), Laura Marling (cantora folk inglesa), Two Door Cinema Club (banda nova irlandesa), Ariel Pink’s Haunted Graffiti (são americanos; o disco novo é espetacular), Sleigh Bells (revelação americana), Crystal Castles (duo canadense com disco novo).
O que eu nunca deixo de ouvir: Beatles, Stones, The Who, The Faces, The Kinks, The Stooges, Smiths, The Pixies, Teenage Fanclub, Manic Street Preachers, Radiohead, Strokes, Jimi Hendrix, Pink Floyd, Led Zeppelin, Deep Purple, Grand Funk Railroad, The Allman Brothers Band, Velvet Underground, The Byrds, Beach Boys, Lou Reed, Leonard Cohen, David Bowie, T Rex, Bob Dylan,The Doors, Grateful Dead, Jefferson Airplane, The Band, King Crimson, Yes, Emerson Lake & Palmer, Gentle Giant...

Em seu último livro, Nick Hornby meio que ridiculariza aquele sujeito fanático, que sabe de cor cada detalhe sobre o ídolo - detalhes que para todo o resto da humanidade não passariam de bobagens. Todo fã seria um sujeito meio estúpido?
Tem gente que acha, e às vezes eu até concordo, pois todo fã quer saber tudo da vida do artista. Eu particularmente me preocupo muito mais com a música que o artista faz do que com a sua vida pessoal, ou qualquer outro detalhe irrelevante.

Dá para imaginar o Antônio Carlos sem música? Ou melhor, dá para imaginar a vida sem música?
Nem pensar, eu vivo 24 horas pensando em música.Ela é meu combustível, e olha que agora eu sou flex (risos).

1 comentários:

Malcolm Robinson disse...

se alguém precisa situar-se no meio de tanta informação musical, eis o orientador. mesmo depois da peneragem não consegui identificar uma única das novas banda!