15/05/2010

Nietzsche e Deleuze dentro da vida real




Belém não possui um âmbito de debate ou abordagem de questões filosóficas fora do domínio de instituições. Quem afirma é Roberto Barros, Doutor pela Universidade Técnica de Berlim, professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará e professor colaborador do Instituto de Ciência da Arte da UFPA (ICA/UFPA). Autor de “Kunst und Wissenschaft bei Nietzsche” (Arte e Ciência em Nietzsche, Parerga, 2006, Berlim), Barros é um dos coordenadores locais do X Simpósio Internacional de Filosofia Nietzsche/Deleuze, que este ano será realizado em Belém, entre os próximos dias 25 e 27, reunindo pensadores do Brasil e do exterior ao redor do tema “Natureza/ Cultura”.
Para Roberto Barros, circunscrever o debate filosófico à esfera das instituições influencia diretamente no estabelecimento e na manutenção de um isolamento do pensamento filosófico, do desconhecimento de suas possibilidades e do estranhamento diante de sua complexidade. “Neste sentido, o Simpósio de Filosofia busca atenuar esta condição”, diz ele, que divide a organização do evento em Belém com o escritor Nilson Oliveira, editor da revista literária Polichinello. Sobre os desdobramentos do tema “Natureza/ Cultura” e a relevância do pensamento de Nietzsche e Deleuze no mundo atual, Barros concedeu a seguinte entrevista:  

Fale um pouco sobre o tema do simpósio este ano, "Natureza/Cultura".
Trata-se não apenas de um tema, mas, pelas implicações históricas, de uma problemática. A sua abordagem se remete a um questionamento da possibilidade de uma separação de ambas as noções e de suas implicações. Com o simpósio desejamos, sob múltiplos pontos de vista, problematizar os efeitos desta separação em nossa relação com o próprio mundo no qual nos inserimos.

Como se configuram, a partir desse tema, as reflexões sobre o homem no planeta Terra?
Simplificando bastante esta questão, pode-se dizer que a nossa relação cultural com a natureza é marcada por três noções capitais: a) a segundo a qual nós somos donos e senhores da natureza; b) de que toda natureza se justifica e alcança a sua forma mais elevada no homem; c) de que a natureza pode ser um ponto de refúgio, em contraposição à superficialidade e vaidade humanas. As duas primeiras noções se aproximam, ao passo que tendem a estabelecer uma tensão com a terceira. As filosofias de Nietzsche e de Deleuze consistem nos referenciais teóricos prioritários do evento porque, cada uma a seu modo, recusam qualquer tipo de pressuposição e mesmo buscam atuar nos âmbitos em que esta prática não está determinantemente estabelecida. A problemática da relação homem – planeta Terra é hoje central em de primeira ordem. Buscar ocupar-se com ela por meio do Simpósio significa buscar fomentar o surgimento de espaços onde a intelectualidade atuante possa mostrar-se participativa e relevante não apenas acadêmica, mas social e culturalmente.


Qual a importância, em linhas gerais, do pensamento de Nietzsche e Deleuze para a intelectualidade contemporânea?
Se tomarmos a afirmação de Jürgen Habermas, que, diga-se, não é um grande simpatizante da filosofia de Nietzsche, este consiste no ponto de mudança do pensamento ocidental contemporâneo. Isto se deve a uma mudança acentuada de perspectiva, que partindo dos próprios princípios fundamentais do pensamento ocidental, os leva às últimas conseqüências. Isto significa: Nietzsche afirma acentuadamente o desejo de verdade e então compreende que a busca pela compreensão desta não poderia ser respondida por definições ou conceitos, mas que é necessário compreendê-la como valor criado pelo homem e não como algo absoluto. Este posicionamento teve um impacto muito grande em todo o pensamento posterior e, conjuntamente com movimentos semelhantes iniciados por outros autores – tais como Marx e Freud –, foi responsável pela criação de novos direcionamentos para a problematização e abordagem de temas centrais da cultura ocidental. Deleuze, com efeito, foi um daqueles que interpretaram uma grande possibilidade de novos rumos no pensamento de Nietzsche e mobiliza o seu pensamento tendo em vista um pensamento que não se deixa prender em esquemas pré-determinados, mas se pauta na incessante criação conceitual possibilitada e justificada pela amplitude imanente da própria vida.
  
Por que realizar o evento em Belém? O tema do evento este ano foi pensado também em função do local onde será realizado?
A Amazônia consiste, sem dúvida alguma, em um dos temas centrais do debate científico, econômico e ecológico na atualidade. Mas isso não é determinado por uma tendência, mas por dados extremamente práticos e que se refletem e refletirão na vida de todos os habitantes deste planeta. Associado a ela surgem então as questões insuperáveis da relação homem – natureza, cultura. Mas, ao mesmo tempo que temos o interesse mundial voltado à Amazônia, aqui, no seu interior, o debate público a seu respeito é periférico ou restrito a pesquisadores. Realizar o simpósio Nietzsche/Deleuze em Belém significa para nós buscar minimizar esta carência, todavia em um nível elevado, livre – uma característica do simpósio – e apartado de todo e qualquer “ismo”. 

Para muitas pessoas, a filosofia ainda é vista como algo distante, separado da vida real. Como torná-la mais próximo do cotidiano? Como fazer com que as pessoas percam o medo da filosofia?
Devido à colonização, o pensamento filosófico no Brasil apresenta algumas características que justifica esta imagem. Aqui ainda produzimos prioritariamente análises, comentários sobre o pensamento de determinado autor ou escola, em muitos casos quase que abdicando da criação de conceitos ou pressupostos, do que a filosofia efetivamente se mantém. Mas há uma tendência mundial que também lentamente chega ao Brasil, e eu espero que em algum tempo nós possamos vir a compreender a importância da filosofia pensar problemas, e não apenas autores. Com efeito, novos conceitos são necessidades de uma filosofia ativa, atuante em sua relação necessária com o mundo. Por outro lado, o Brasil é um país onde há um interesse crescente pela filosofia, e isso pode ser interpretado como um atenuante da imagem de acessibilidade restrita que a cerca. A maior dificuldade que o interesse e o estudo da filosofia trazem consigo decorre da nossa atual falta de tempo para desfrutar de sua beleza e utilidade.

SAIBA MAIS
Realizado há dez anos em Fortaleza, pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas da Subjetividade, da Universidade Federal do Ceará, o Simpósio Internacional de Filosofia é coordenado por Daniel Lins, pós-doutor em Filosofia (UFC- Paris III-Sorbonne) e autor de “Juízo e Verdade em Deleuze” (2004) e “Expressão: Espinosa em Deleuze, Deleuze em Espinosa” (2007), entre outros.  Esta será a primeira vez em que o evento será realizado fora da capital cearense. Textos e mais informações sobre a programação local estão reunidos no blog www.simposionietzschedeleuze.blogspot.com.

P R O G R A M A Ç Ã O
DIA 25/05
09h: Abertura
09h: Homenagem ao Prof. Benedito Nunes
10h30: Ascese e Ressentimento em Deleuze (Prof. Dr. Oswaldo Giacóia Jr./ Unicamp)
16h: Natureza e Cultura: Além do Antropológico (Prof. Dra. Dorothea Voegeli Passetti/ PUC-SP)
17h: La más Temprana Traducción del Hombre en el Lenguaje de la Naturaleza (Prof. Dr. German Meléndez Acuña/ Universidade Nacional de Colômbia)
18h: Trabalho, Prazer e Tédio: Nietzsche contra a Cultura da Máquina (Prof. Dr. Ernani Chaves/ UFPA)

Dia 26/05
09h: Entre Natureza e Cultura: Contribuição Deleuziana para uma Teoria Empirista das Relações e Ontologia Relacional (Prof. Dr. Hélio Rebello Cardoso Jr./ Unesp)
10h: Nietzsche e os Pré-Românticos: Visões do Popular (Prof. Dr. Henry Burnett/ Unifesp)
11h: O Espelho de Nietzsche: Ser e Pensamento, Natureza e Cultura entre Foucault e Deleuze (Prof. Dr. Rodrigo Guimarães Nunes/ University of London)
16h: Que Natureza Queremos? (Prof. Dr. Thilman Borsche/ Hildesheim-Alemanha)
17h: Naturalização da Cultura ou Culturalização da Natureza? (Prof. Dr. Roberto Barros/ UFPA)
Conferência:  

Dia 27/05
09h: Agenciamentos Inumanos e Naturezas Segundas: A Instituição do Mundo na Filosofia de Gilles Deleuze (Prof. Dr. Eduardo Pellejero/ UFRN)
10h: O Silêncio dos Animais (Prof. Dr. Charles Feitosa/ Uni-Rio)
11h: Arqueologia dos Saberes na Amazônia (Nelson Matos de Noronha/ Ufam)
16h: Naturezas do Corpo: Movimento, Órgão, Máquina (Prof. Dra. Frederika Spindler/ Södertörns Högskola -Estocolmo)
17h: O Projeto Moderno e a Impossibilidade do Par Natureza/Cultura (Prof. Prof. Dr. Nelson de Souza Jr./ UFPA)
18h: Encerramento

SERVIÇO: X Simpósio Internacional de Filosofia Nietzsche/ Deleuze: Natureza/ Cultura. De 25 a 27 de maio, na Universidade Federal do Pará / Auditório Setorial Básico II. Inscrições gratuitas através do e-mail simposio.nietzsche.deleuze@gmail.com. Realização: Faculdade de Filosofia / UFPA, Laboratório de Estudos e Pesquisas da Subjetividade e Revista Polichinello. Informações: (91) 3278-4578.


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