14/06/2009

Uma noite com o Rei

Gentem, não consegui pegar nenhuma rosa! Ahazada!
São exatamente 22h36 quando as luzes se apagam e gritos ecoam pelo Hangar. Nos dois telões à esquerda e à direita do palco, cenas de especiais da TV, trechos de reportagens, imagens raras: Roberto Carlos vestido de palhaço, dividindo o palco com Caetano Veloso, dirigindo ao lado de Ayrton Senna, caminhando num bosque com Tom Jobim. Sim, ele está entre nós, e a simples expectativa de vê-lo surgir deixa a platéia no tênue limite entre a ansiedade e a histeria.

O terno bege bem alinhado, o cabelo grisalho, o sorriso franco. É ele. E já chega com um clássico absoluto da música brasileira, a nossa “Je ne regrette rien”, a nossa “My Way”. “Que prazer rever vocês”, diz, ao som dos primeiros acordes de “Emoções”.“Que maravilha, está tudo perfeito. Obrigado por esse amor, obrigado pelo carinho desde que nasci. Eu gostaria de dizer muita coisa, mas digo melhor cantando”, são as primeiras palavras de Roberto Carlos no show em Belém. Ainda não se passaram cinco minutos e a plateia inteira já está entregue. Aliás, o que se vê a partir daí é uma sequência perfeita de hits, músicas que embalaram sonhos, viagens, romances, perdas,mudanças, enfim, experiências de vida de milhares de pessoas. O coro é unânime em “Eu te amo, te amo, te amo”, e segue afinado em “Além do horizonte” e “Amor perfeito”. Roberto pega o violão e canta “Detalhes” e “Outra vez”.

Ouvidas assim, num clima de intimidade, quase cara a cara com ele, essas canções soam como verdades quase absolutas, belas confissões de amores mal-sucedidos. “Em situações como essa ninguém está sozinho. Então vamos cantar juntos”, diz ele, como se fosse um velho amigo. Mas nem tudo são amores perdidos. Logo em seguida, ela brinca e faz a plateia gargalhar.“Tomei um susto quando me disseram que eu estava fazendo 50 anos de carreira. Mas como, se eu ainda não tenho 50 anos?”. E olhando assim de perto, Roberto é muito mais jovem do que na TV ou nas capas de revista. Sua voz soa límpida e poderosa, sem errar uma nota jamais. Que mistérios guarda esse homem, jamais saberemos.

A data, no entanto, serve para que ele reveja sua trajetória de vida e traga de volta músicas como “Aquela casa simples”, “Meu querido, meu velho, meu amigo” e “Lady Laura”. Mas é em “Nossa Senhora”, que já se tornou uma das canções oficiais do Círio de Nazaré, que o Hangar se converte em pura emoção. E o que sentiria Roberto Carlos se visse em outubro aquela multidão de fiéis cantando sua música em devoção à Virgem? Não é difícil imaginar.

A fase dedicada às baixinhas, gordinhas, coroas, etc, felizmente é representada por apenas uma música, “Mulher pequena”, que ele canta com uma boa dose de malícia. E para justificar “Caminhoneiro”, ele conta uma história. “Aos dez anos eu era fascinado pelas histórias de caminhoneiro, em Cachoeiro de Itapemirim. Se eu não fosse cantor, seria caminhoneiro”, diz. Roberto volta aos corações dilacerados em “Do fundo do meu coração” e diz que gostaria de ter feito apenas canções de amores que deram certo, mas que quando compôs essa música – na verdade uma parceria com Erasmo Carlos – “tava complicado, tava brabo”.E continua: “Mas ainda bem que a vida tem outros momentos, de propostas incríveis, como essa que eu fiz...”. E começa a cantar “Eu te proponho/ Nós nos amarmos/ Nos entregarmos...”. E então vem o momento apoteótico do show, com “Cavalgada”, em que a interpretação, a banda, os efeitos de luz, tudo é puro espetáculo para os olhos e os ouvidos.

Roberto apresenta com orgulho os músicos que o acompanham na turnê; alguns há mais de 30 anos; outros ainda “meninos maestros”, como ele ressalta. Presta a devida reverência ao maestro Eduardo Lages, seu fiel escudeiro há 40 anos. E inicia, então, o momento Jovem Guarda do show, com “É proibido fumar”, “Namoradinha de um amigo meu”, “Quando”, “E por isso estou aqui” e “Jovens tardes de domingo”.O público sente que o show se aproxima do fim quando Roberto canta “É preciso saber viver”, tema que abriu a noite. E as fãs correm para a frente do palco, na esperança de levar pra casa uma das muitas rosas brancas e vermelhas que ele distribui religiosamente.

O show termina com “Jesus Cristo” e, enquanto uma senhora de meia idade tenta a todo custo exibir para o ídolo um poster dos anos 70, penso que é quase impossível mensurar o que as canções de Roberto representaram durante esses 50 anos de carreira. Dramas, romances, comédias, ilusões - está tudo ali, dito de uma forma simples, mas ao mesmo tempo rica. E como ele lembra, “sem saber se é pra rir ou pra chorar”, o importante é não perder o trem. Esse é um dos segredos do amor. E da vida.

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