
Voltar para a editoria de cultura tem muitas vantagens. Além do horário de trabalho mais humano, que me permite namorar e encontrar os amigos, não preciso mais dormir todos os dias às três da manhã - um péssimo hábito que já estava me transformando numa espécie de mamãe panda, com olheiras que batiam no queixo. Mas o mais importante é voltar a editar um conteúdo familiar: são treze anos dedicados ao jornalismo cultural, sem contar as experiências ainda na universidade, com fanzines, produção de shows e outras presepadas que deixaram saudade. É claro que muito do que considero relevante numa editoria de cultura acaba não sendo publicado, por questões que não cabe discutir aqui. Mas entre mulheres melancias e os três finais da novela das oito, sempre sobra espaço para alguma notícia importante. Não foi o caso hoje, quando me deparei com esse conteúdo sobre os dois filmes que abordam a adorada banda Joy Division. E apesar de já ter visto um dos filmes (thanks, Marcus!), ainda não tive tempo de escrever uma crítica. De qualquer forma, divido os textos da Agência Estado com os leitores do blog.
Beijos e nos vemos por aqui. :)
A morte sob controle
Por Lauro Lisboa Garcia
Agência Estado
Agência Estado
Perder o controle do bem viver é uma ocorrência pontual na trajetória de alguns heróis do rock que partiram jovens e no auge: Kurt Cobain, Jimi Hendrix, Jim Morrisson. As conseqüências da angústia que causou o desaparecimento precoce de Ian Curtis, o misterioso líder do Joy Division, que só conseguiu controlar a morte a seu favor, parecem tão comuns quanto espantosas, como se pode ver em dois filmes complementares sobre ele e sua lendária banda.
"Control", que estréia dia 22 em circuito comercial no Brasil, é uma biografia ficcional de Curtis e marca o début do fotógrafo Anton Corbijn na direção cinematográfica. O segundo, "Joy Division", que entra em cartaz no dia 6, é um documentário sobre a banda, dirigido por Grant Gee. O ideal seria que fossem exibidos em programa duplo para facilitar a montagem do quebra-cabeças. De qualquer maneira, ambos são recomendáveis não apenas para os fãs da banda. Até porque, para estes , não há muita novidade além do que já se explorou em livros, biografias, vídeos e outros documentários.
Mas, em princípio, cada um com sua linguagem, os novos produtos são bons como cinema. O personagem central é fascinante, em qualquer imagem que se pinte dele. A música e as performances são impactantes, seja da banda original ou dos atores que a representam convincentemente em "Control".Grande parte da qualidade desta biografia ficcional, aliás, está na escolha dos atores. Alguns até se parecem fisicamente com os personagens verdadeiros, principalmente o novato Sam Riley, que impressiona na reprodução detalhista dos trejeitos de Curtis no palco, se contorcendo em movimentos de marionete. Mas, sem um profundo conhecimento visual da banda, isto é uma das coisas sobre as quais o espectador comum só vai se dar conta ao comparar com o documentário. Excertos do livro de memórias "Touching from a Distance", da viúva Deborah Curtis, no qual "Control" é baseado, são projetados entre os depoimentos do documentário.
Outra coincidência da "ficção" com a realidade é a casa onde Ian e Deborah moraram e que aparece nos dois filmes. Foi ali que, atormentado pelos efeitos da epilepsia, Curtis se matou no dia 18 de maio de 1980. Tinha apenas 23 anos e o coração dilacerado pelo amor (como diz na célebre canção "Love Will Tear Us Apart") dividido entre duas mulheres.
Antes de se enforcar na casa onde vivia com Deborah (interpretada por Samantha Morton) e a filha pequena, ele colocou para rodar na velha vitrola um LP de Iggy Pop, intitulado "Idiot". A reação imediata que se tem, ao acompanhar essa seqüência em "Control", é que ele realmente bancou o estúpido, mas armou o desfecho com senso de humor negro. Tinha pedido para ficar só, bebeu muito, fumou tudo o que pôde. Quis morrer sozinho.
Se em "Control" o que ressalta é o jovem infiel, o mentiroso, o egoísta, o irresponsável, no documentário o prodigioso artista se recupera. Quem narra sua história em depoimentos e lembranças detalhadas são os que viveram com ele na outra margem: os demais integrantes da banda - Peter Hook, Bernard Sumner e Stephen Morris, que, como se sabe, viriam a formar o também influente New Order -, sua amante belga, Annik Honoré, o guitarrista Pete Shelley, dos Buzzcocks, o fotógrafo Anton Corbijn, o diretor da antológica Factory Records, Tony Wilson, o designer Peter Saville, criador das capas dos álbuns da banda.
Contam os amigos que Curtis nunca se drogava, era a música que o deixava em transe. Em "Control" nem se nota que eles se divertiam muito o tempo todo, como conta Hook no documentário. O único problema eram os ataques de epilepsia de Curtis, cuja descoberta o deixou irrecuperavelmente arrasado.
No início da carreira, quando se dividia entre a música, como compositor e cantor do Joy Division, e o trabalho burocrático de atendimento num hospital, Curtis ficara sensibilizado ao ver uma mulher em situação que ele próprio viveria e escreveu a canção "She’s Lost Control" sobre isso.
Como "Control" parte da versão da viúva Deborah, que também é co-produtora do filme, as lentes se voltam mais para o ambiente familiar. Deborah é um pouco o protótipo da dona de casa recatada, às vezes bancando a sofredora, sempre à espera do marido que vive em estúdio, no palco e na estrada, no meio de uma gente estranha (como ele) e de futuro incerto. Piora muito a situação quando ela descobre que o marido estava amarrado em Annik, tratada com superficialidade no filme, por motivos evidentes, mas que dá depoimentos esclarecedores no documentário. Ela sabia com qual intensidade Curtis se tornava outra pessoa no palco, ao mesmo tempo frágil e forte.
Mas como seus outros amigos, ela não se deu conta a tempo de que toda a angústia das letras de Curtis era reflexo de profundos dilemas reais. Não era apenas arte com referências cultas de Kafka, Shakespeare ou Dostoievski. Da mesma maneira como não se decidia a abandonar ou continuar com a banda, o cantor tentou em vão terminar a relação paralela para salvar o casamento, para o qual não estava preparado. Aliança de ouro na mão esquerda não combina mesmo com rock nem poesia punk. Sem conseguir sustentar a farsa por muito tempo, deprimido pelo efeito dos vários remédios que tomava para controlar a epilepsia, fechado em sua caverna sombria e impenetrável, ele perdeu o controle da situação.
O documentário vai mais fundo na influência do cenário apocalíptico da Manchester, em meados do século passado, sobre o moral de seus habitantes. Na industrial, feia, fria e suja cidade britânica, que o Joy Division ajudou a colocar no mapa-múndi musical, uma criança pobre poderia demorar até nove anos para ver uma árvore. Isto é o que diz um dos entrevistados e explica por que não dava mesmo pra fazer música muito feliz ali. Os conterrâneos Morrissey e Johnny Marr, que formaram The Smiths dois anos depois da morte de Curtis, que o digam.
CRÍTICA
A vida dilacerada do poeta pós-punk
Por Lauro Lisboa Garcia
A vida dilacerada do poeta pós-punk
Por Lauro Lisboa Garcia
É claro que "Control" e "Joy Division" deveriam ser lançados juntos. Afinal, ambos têm por personagem o mitológico Ian Curtis, vocalista e compositor de uma das bandas cult dos anos 70. "Control" é uma recriação ficcional da vida breve do roqueiro; "Joy Division" é um documentário, baseado principalmente em depoimentos dos integrantes da banda sobre a formação do conjunto, a música que queriam fazer, a cidade onde viviam e, sobretudo, Ian e sua personalidade atormentada e enigmática. Complementam-se. No entanto, "Control" estréia dia 22 e "Joy Division" - o documentário que leva o nome da banda - fica para 6 de junho. Quem vir o primeiro ficará com vontade de assistir ao outro.
Em "Control", o estreante holandês Anton Corbijn, fotógrafo de origem, faz sua estréia no cinema. Escolhe uma magnífica fotografia em preto-e-branco para recriar o clima de Manchester City, onde nasce a banda. Há também uma razão prática. Nos anos 70, quando chegou à Inglaterra, Corbijn fizera várias tomadas em P&B do grupo. Esse fato contribui para a escolha monocromática do projeto. Mas não se trata apenas disso. Quem a acompanhar verá que a vida de Ian Curtis parece mesmo pedir o preto-e-branco, com todas as nuances de cinza entre os dois extremos.
É uma vida de artista maldito, que lembra a de um Rimbaud do rock. Ian (interpretado por Sam Riley) tem cara de anjo, mente complexa e personalidade dividida. Para completar o quadro, sofre de epilepsia. Tentando controlar a doença, o médico lhe recomenda distância de agitação, sexo demais, drogas e álcool. Não é coisa que se peça a um roqueiro, na casa dos 20 anos. Há mais: Ian é casado, mas acaba se envolvendo com uma insinuante jornalista belga, e esta passa a acompanhar o grupo em suas turnês. Surpreendentemente, levando-se em conta o estilo de vida que se atribui a um artista pós-punk, Ian mostra-se incapaz de administrar um até que convencional triângulo amoroso. Esse é o aspecto pessoal.
Como artista, Ian sai bem mais do que valorizado dos dois filmes. Mesmo quem pouco o conhece, ou não aprecia sua música, passa a entender parte do seu processo de criação, que envolvia uma visão um tanto desesperada do mundo e a recriação poética dessa sensação, que não raro dialogava com a grande arte. Por exemplo, em certo momento, ele diz ter assistido a "Apocalypse Now", de Francis Ford Coppola, e ficado impressionado com Marlon Brando recitando o seu horror, tirado de T.S. Eliot. Essa, a impressão do poeta pós-punk - a de um mundo em decomposição, uma terra devastada, na qual a palavra horror era a única ainda a fazer sentido.
Por isso também seria interessante ver o documentário em conjunto com "Control". Nele, Manchester é vista não como um lugar onde tudo acontece, mas como um personagem a mais - acaso o protagonista do filme. Na maneira como é apresentada a cidade industrial, árida, cruel, seca, cinza, um pouco como São Paulo, onde os sobreviventes têm de se enfurnar em garagens, espaços pequenos e esfumaçados, clubes sórdidos depois tornados românticos pelo tempo - tudo em busca de uma respiração e sobrevivência em hábitat claramente não adequado para seres humanos normais. Ian acaba se tornando a figura emblemática desse ambiente.
Esse clima de estranheza percorre os dois únicos LPs do grupo, "Unknown Pleasures - Prazeres Desconhecidos" e "Closer - Mais Perto". Seus sons e letras estranhas, uma espécie de lamento por uma civilização moribunda, fizeram com que a banda fosse cercada até hoje por uma relação de culto e mitologia. Ian, meio caoticamente, ou de forma intuitiva, tocava em coisas que ele próprio talvez não compreendesse. E muito do que fez talvez não passasse de um humano pedido de socorro, como hoje seus colegas de banda parecem admitir.
É espantoso como, com apenas dois álbuns de estúdio - "Unknown Pleasures" (1979), e "Closer" (1980) -, o grupo inglês Joy Division se tornou um mito gigantesco para suas intenções discretas, em processo acelerado pelo suicídio de Ian Curtis (1956- 1980), antes do lançamento do segundo disco. Para quem não sabe, o documentário "Joy Division", de Grant Gee, reafirma a originalidade da banda, por ter sido a primeira a usar a simplicidade do punk para tratar de assuntos mais complexos. Com isso, passou a influenciar profundamente uma legião de outros roqueiros até hoje.Ao mesmo tempo o filme reconhece os antecessores que inspiraram a banda - Sex Pistols, Velvet Underground, David Bowie, Iggy Pop - e estão na trilha de "Control", lançada em CD agora no Brasil pela WEA, com temas que escapam do óbvio.
Se para justificar o Interpol é preciso recorrer a Joy Division, no contexto do rock-arte eles também se fortificaram com referências insuspeitas. Nesse ponto, o CD dá uma boa panorâmica, conectando raízes e frutos, tendo o JD como mediador de uma cadeia de influências - de Kraftwerk ("Autobahn"), Roxy Music ("13.2HB"), Supersister ("She Was Naked") e Buzzcocks ("Boredom") a New Order e The Killers, além dos citados acima. O New Order comparece com três bons temas incidentais feitos para o documentário de Grant Gee. "Warszawa", gravada por Bowie no álbum Low, de 1977, tem relação com o nome anterior da banda de Curtis, Warsaw, que lançou "Shadowplay" e "Transmission", ambas recriadas satisfatoriamente por The Killers e pelo elenco de "Control", respectivamente. As outras três originais do JD são "Love Will Tear Us Apart", "Atmosphere" e "Dead Souls". Nesta, Curtis aproveitava o tempo da longa introdução instrumental para "sentir" o clima do público, percorrendo o ambiente com o olhar atento e penetrante, para então se entregar ao ritual.Como lembra um dos entrevistados do documentário, esta foi talvez a última história verdadeira do mundo pop.
Autor da controvertida capa de "Closer", que ganhou contornos ainda mais sinistros depois do suicídio do cantor, Peter Saville diz uma das frases mais marcantes do filme, cujo fundamento é a música, afinal. Para ele, o que importa da arte da banda se resume àqueles dois álbuns: "Todo o resto é merchandising da memória." Control não deixa de sê-lo, ao explorar mais a tragédia do que o êxito artístico, como, aliás, outros filmes sobre astros da música pop - Jim Morrison, Ray Charles, Johnny Cash, Edith Piaf, etc. Bem, mas se eles fossem "normais" não seriam artistas de fato. No máximo dariam canja em xaroposas novelas com finais felizes.

0 comentários:
Postar um comentário