03/10/2007

Morte e Vida Lirinha

Há dois anos, ao conversar com o cineasta Cláudio Assis, dos fundamentais "Amarelo Manga" e "Baixio das Bestas", pedi que ele explicasse a recente euforia do cinema pernambucano num Estado que não possui sequer uma faculdade de cinema. " É porque lá nossas mães nos dão coentro; não tem salsinha", respondeu o diretor. Rimos e continuamos o bate-papo. Ao ver o show da banda Cordel do Fogo Encantado, percebo o quanto Cláudio Assis estava falando sério.

Aos 30 anos, o vocalista Lirinha é uma espécie de Glauber Rocha do novo rock brasileiro. Intenso, explosivo, navalha na carne do público. No curtíssimo intervalo entre as músicas, parece louvar aos Céus pelo dom que lhe foi repassado. "Falo trechos de poesias; converso com seres encantados", revela ele, após a apresentação em Belém, quando o público, ainda em êxtase, tentava em vão racionalizar o que tinha sido aquela experiência.

Porque goste ou não da banda (e olha que eu não sou fã), um show do Cordel é uma experiência. Esqueça as coreografias cuidadosamente elaboradas, as regras da indústria fonográfica, o mundo do show business, os refrões pegajosos. Nada disso parece importar quando Lirinha entra no palco e assume seus poderes de mestre xamânico. Entre letras proféticas e percussão tribal acelerada, o que se vê é a entrega total de um artista no sentido pleno da palavra.

"Transfiguração" é o apropriado nome do show. Na terra onde a chuva nunca para de cantar, Lirinha encarna o "palhaço do circo sem futuro" e dedica as músicas "às famílias nordestinas que vieram para a Amazônia atraídas pelos grandes projetos do governo federal. Vieram para ser feliz e vão ser. Sabem por que? Porque sabiá quanto canta no sertão me comove".

Quanto tempo será que ele leva para voltar ao normal? "A gente fica de qualquer forma mexido, e procura isso com a música que faz. Desde o começo a constituição do nosso som é uma música que mexe com os nossos sentidos, daí a relação com a música africana. E após o show há sempre um tempo de ligação com o que aconteceu." Visivelmente ainda "abalado", Lirinha conta que chega a perder até três quilos cada vez que sobe ao palco.

Para um grupo que surgiu a partir de um espetáculo de poesia, não é de se estranhar a intensa relação com a palavra durante as apresentações. Lirinha diz que essa relação é radical, inclusive para o público. "Recito João Cabral de Melo Neto e as pessoas recitam junto". É arrepiante.

Aos doze anos de idade, Lirinha ganhava a vida como "declamador" em recitais de poesia, uma tradição que se manteve viva no Nordeste graças a nomes como Patativa do Assaré. "Aprendi cedo a recitar poesias longas, com estrutura e cordel, e também a fazer improvisos".

Unir ritmo e poesia não é novidade – e o rap está aí para comprovar essa teoria. Tanto que Lirinha uniu-se ao rapper B Negão para compor a bela canção "Pedra e Bala", que bem poderia fazer o contraponto ao polêmico "Tropa de Elite". Três discos e um DVD integram o registro dessa trajetória ainda recente, mas cheia de experiências ricas, que acabam se refletindo nas novas composições da banda.

E como é impossível quantificar quanto de cada linguagem existe na obra do Cordel, já que "a poesia entra na música e a música é feita de poesia", resta ao público mergulhar nessa experiência, em que a vida parece estar no seu limite.

4 comentários:

Tyara de La-Rocque disse...

Realmente o show deles é uma experiência. Perguntei a algumas pessoas oq acharam do show e elas naum sabiam qual adjetivo usar para descrevê-lo, incrível! Eu adorei, e olha q tb naum sou tããão fã, mas cara, pelo amor de Deus foi um momento único!
A presença de palco do Lirinha,o delírio do público, o calor humano, iluminação do palco, som...enfim! Bcn pra caramba! =]
Adorei o texto! =]]
Ah, senti falta do seu artigo essa semana...

Beijos.

Orlando disse...

Olá, companheira de virada

Mardock disse...

Esse foi o terceiro espetáculo que presenciei do Cordel...foi mais um presente.
Muita saúde para os amigos de Pernambuco, e um grande beijo procê Marcia.

Marcia Carvalho disse...

Eu te vi lá meio da galera. Beijos também.