
Fiquei feliz ao ler no encarte da revista Veja o depoimento da jornalista Flávia Maruoka Dupont, minha amiga dos tempos de universidade, sobre o Círio de Nazaré. Flávia mudou-se para a França em 1998 e, conta ela, que o primeiro Natal longe da família foi difícil, mas o primeiro Círio foi pior ainda. Para matar a saudade, acostumou-se a assistir a romaria, todos os anos, pela internet. Em 2004, Flávia e o marido, que é francês, vieram a Belém para acompanhar a procissão, e claro que ele ficou emocionado. Agora o sonho dela é trazer os filhos para conhecer de perto a devoção dos paraenses à padroeira. "Quero que eles vejam a fé do nosso povo, conheçam a nossa história, provem o pato no tucupi, que parece até ter outro gosto quando é feito para o almoço do Círio", diz ela.
Histórias como as de Flávia sempre revelam um pouco mais sobre o significado do Círio para todos nós. Mesmo quem não é católico não consegue ficar imune a todo o ritual que antecede as romarias, o clima de festa que invade a cidade, a expectativa pela chegada dos parentes e amigos que moram longe, as manifestações de fé dos mais humildes. São tantas cenas, tantas cores, tantos sabores, que tornam Belém realmente única, inesquecível. Cenas como a peregrinação dos romeiros pela BR-316, no meio da madrugada, um dia antes da procissão de domingo. Ou a preparação dos anjinhos que pagarão as promessas feitas por seus pais. Ou o choro de agradecimento de quem conseguiu o primeiro emprego, a primeira casa, de quem viu o filho ficar curado. O que não faltam são histórias de fé.
Durante muitos anos tive o privilégio de acompanhar o Círio fazendo reportagem. Um desafio enorme: tentar traduzir em palavras o que emana da multidão. Para um jornalista, não se trata simplesmente de dizer "Meninos, eu vi", mas sim "Meninos, eis como vi o que vi". Uma oportunidade ímpar de exercitar o olhar objetivo e ao mesmo tempo pessoal. E a cada Círio era uma emoção diferente, que não se repetia, tampouco se esgotava.
Paradoxalmente, esse também é o momento em que a cidade expõe o seu lado mais frágil: a falta de estrutura para realizar um evento em que praticamente dobra o seu número de habitantes. Problemas que já se tornaram crônicos, como a precariedade de transporte urbano, a falta de segurança e o débil sistema de atendimento à saúde, infelizmente são elevados à enésima potência na quadra nazarena. Quem já viu as brigas de gangue em pleno Arraial de Nazaré durante a queima de fogos sabe que não se trata de exagero.
Atrair os olhares do mundo inteiro para Belém enche o paraense de orgulho. E muito mais orgulho se teria se a cidade fosse bem tratada e devidamente preparada para acolher tanta gente. A satisfação que sentimos ao ver a casa arrumada para receber um amigo querido – é isso que me falta durante o Círio. Quem dera a devoção à Virgem fizesse com que os homens de terno, aqueles que vivem em gabinetes e têm o poder de interferir na vida de milhares de pessoas, tomassem decisões em benefício de uma cidade limpa, organizada, onde o acesso a serviços básicos, como sala de aula, atendimento médico e água encanada, fosse um direito de cada cidadão, de cada romeiro, de cada um de nós.

2 comentários:
Adorei o artigo, Marcinha. Coloquei um link pra ele no meu post de hoje.
Fui ver a chegada da Romaria Fluvial e foi muito divertido...
Gente!! Eu tô no Velho do Farol! Quanta honra! Beijos mils.
Postar um comentário