20/10/2007

Björk está chegando


Todos os dias ouvimos música composta para não ser ouvida. Mas isso jamais acontece quando se está diante de um álbum de Björk. Poucas pessoas no universo pop fazem da arte algo tão verdadeiro quanto ela. A islandesa que todos nós amamos desde a época do Sugarcubes - e mais ainda depois do filme "Dançando no Escuro" -, chega ao Brasil pela terceira vez na próxima semana, agora como uma das principais atrações do Tim Festival. O show faz parte da turnê do maravilhoso álbum Volta, que traz participação de artistas como o produtor de hip hop Timbaland em duas faixas e vários instrumentos pouco conhecidos, como a harpa africana kora e o alaúde chinês pipa. Nesta entrevista, realizada em Nova Iorque com jornalistas brasileiros, Björk fala da cultura islandesa e de temas controversos como política e globalização.
A música ainda não tem um aspecto espiritual para você?
Acredito que os dois extremos se encontram. Quando você vai para a escola, principalmente as crianças que gostam de matemática e física, elas geralmente são muito boas em música. E quando você vai à escola de música, onde todas as crianças são muito boas em matemática, você repara que elas são muito ruins em idiomas. É como ter dois grupos. Você tem a ciência e a música, e também um grupo mais atento à sociologia, à psicologia e aos idiomas. Quando estava na escola, eu não gostava de nenhum desses grupos. Achava que tudo parecia como uma sessão de fofocas, muito bla bla blá. Preferia jogar xadrez.
Então você tem uma mente mais matemática para a música?
Sim, acho que música é mais similar às emoções. É claro que você não pode calcular o amor, mas parece bem mais fácil aplicar as emoções a um mundo matemático. Música é muito parecida com matemática.
Uma das atrações de seu show é a participação do músico Antony Hegarty, do Antony and the Johnsons. Você admira o trabalho dele por ele não ser nada contido?
Acho que as palavras emocionais e as palavras matemáticas são a mesma coisa. Acredito que o Antony e eu fazemos parte da mesma caixa. A outra caixa é mais teatral. Muito freqüentemente, as pessoas que gostam de teatro costumam não gostar muito de música, e vice-versa. É uma grande generalização e não estou muito certa do porquê. Acho que música é uma coisa muito humana. De alguma forma, música é muito mais humana que a sociologia e a psicologia, onde você está tentando analisar o comportamento humano e fazendo do comportamento humano uma ciência, o que é uma grande contradição. Enquanto que, com a matemática de uma canção, seu abstracionismo, dá espaço para a emoção humana. Espero que esteja fazendo algum sentido (risos).
Você descreveria sua música como algo cinemático?
Tento fazer uma música que é parte da vida. Não vejo a música pop como uma experiência isolada dentro de um estúdio. Acho que música tem que ser como andar pela rua e mostrar a seus amigos a emoção que você tem. Ela deve ser casada com sua vida. Ela não deve ser uma experiência isolada que acontece dentro de uma bolha musical.
Como é seu processo de seleção de suas músicas?
Às vezes tendo a deixar as canções que são mais pessoais e que dizem mais respeito à minha vida, e não à vida de outras pessoas, de fora de meus CDs. As canções que eu acho que pertencem mais a todo mundo, reúno no CD. Como, por exemplo, Declare Independence, que às vezes você pode aplicar a um homem que está tratando a esposa tão mal e eu estou dizendo: “declare sua independência, mande ele se f...”. Ou podem ser músicas sobre a Islândia ou as Ilhas Faroe, que são uma colônia da Dinamarca. Às vezes eu não penso conscientemente sobre isso.
Você acha que a música brasileira influenciou de alguma forma seu trabalho no CD Volta?
Sempre fui muito fissurada por ritmos. Estava tentando sugerir que os ritmos neste álbum são muito globais, mas as pessoas têm idéias negativas sobre a globalização, de que é tudo a respeito de supermercados, McDonald’s e que as pessoas nos Estados Unidos estão se transformando nos senhores do universo. Mas acho que tem o outro lado disso, de que a gente é o que queremos fazer. Por que deixar tudo por conta do Bush? Nós somos 6 bilhões. E só tem um dele. Para mim, o álbum foi uma maneira de sugerir que estou cheia do nacionalismo, das pessoas dizendo isso ou aquilo, de controvérsias.
Então você se vê como uma pessoa de todos os lugares e também de nenhum ao mesmo tempo?
Estava tentando ir por aí. Estava tentando dizer que a globalização nem sempre tem que sacrificar sua conexão com a natureza. Nós ainda podemos estar conectados com a natureza e todas as nações podem se unir porque, nos próximos 100 anos, vai ser mais e mais como uma grande nação e isso é uma coisa boa. Não é necessariamente o mal.
Como descreve sua passagem pelo Brasil?
Foi extraordinário. Foi muito especial para mim. Fui à Bahia porque meu namorado estava fazendo um projeto por lá. Mas sou da Islândia e sou bastante consciente de que as pessoas dos EUA e da Inglaterra me acham exótica, o que é uma coisa totalmente esquisita, pois 90% do mundo é exótico. Por ser ciente e bastante defensiva sobre isso, não achei que poderia ir ao Brasil, comprar uma camiseta local, pegar um tamborim e sair cantando como uma turista. Não fiz isso quando estava lá. Às vezes sinto que tenho muito respeito.
O que você acha de especial sobre a nacionalidade brasileira?
A Islândia teve sua independência declarada em 1944, e meus pais nasceram em 45 e 46, então eles foram a primeira geração a nascer num país independente. Quando eu era adolescente na Islândia, eu era uma punk e existia essa grande coisa na Islândia de tentar encontrar a voz do país, afirmar que não éramos apenas uma colônia da Dinamarca. A gente não era escandinavo e era muito importante para nós não sermos considerados como tal. E porque eles são diferentes de nós? A Islândia é um país que leu muitos livros, e eu acho que nós estamos no livro Guiness dos Recordes como o país que mais publica livros e o que mais lê a maior quantidade de livros anualmente. E os livros da América do Sul sempre estavam no topo de nossas listas.
E por que isso?
Tenho certeza que alguma figura literária vai surgir com uma teoria melhor. No fim das contas, eu sou apenas uma artista que faz música pop. Mas eu, naturalmente, tenho minha própria teoria. É porque nós somos um país do Segundo Mundo. Não somos os EUA, não somos a Inglaterra e não somos Terceiro Mundo, mas nós estamos muito em contato com a natureza. Nós temos tecnologia e somos considerados um país moderno. Meu amigo, que escreveu algumas músicas para mim como Isobel e Bachelorette, é ator e agora está escrevendo livros, que são bastante populares na Escandinávia. Mas alguns outros países acham que o que ele está escrevendo é realismo mágico, o que é uma denominação muito estranha, pois é uma outra maneira de dizerem que você é exótico. Mas acho que muito da literatura da América do Sul é considerada realismo mágico e, por isso, existe uma afinidade entre nós.
Você vê uma afinidade com a música brasileira também?
Escuto muita música de todos os cantos do mundo. Não só a brasileira, mas também da Ásia, Indonésia, Camboja, África, Sibéria. Gosto de música de todos os cantos. Admiro muito a música da América do Sul. A música brasileira tem em comum com o Japão, e talvez com a França e Espanha, a idéia de que música pop não precisa ser estúpida. É uma grande generalização. Descubro isso quando vou para a Islândia e as pessoas estão ouvindo músicas cujas letras são mais próximas à poesia. Nós temos uma grande tradição de poetas e todo mundo na Islândia lança um livro de poesia quando adolescente. E nós ainda sabemos dançar. Nossos ritmos não são estúpidos. Eu acho que a maioria dos povos, tirando as culturas de brancos arianos, colocam o ritmo da música lá em cima, no pedestal. Você entra num transe e é muito mais prazeroso do que ser intelectual. E assim tem sido com a maioria das culturas mundiais por muitos anos.
Quais os artistas que te empolgam hoje em dia?
Eu gosto muito do Santo Gold, da M.I.A. e da Joanna Newsom. Gosto de muita coisa. Eu acho que estamos vivendo uma nova época, na qual mais pessoas, cujo inglês não é seu idioma natal, estão formando a maior comunidade do mundo. E acho que vai existir mais espaço para essas pessoas no mundo.
A grande notícia musical deste mês foi a decisão do Radiohead disponibilizar o novo álbum deles na internet em esquema “pague o quanto quiser para baixar”. O que você achou disso? Seria o futuro?
Talvez não completamente, mas achei uma decisão muito honesta. Acho a indústria da música bastante difícil de se lidar hoje em dia, porque é uma grande máquina, um dinossauro. Eu finalizo um álbum, entrego-o para a gravadora e eles precisam de um período de seis meses, às vezes um ano, para lançá-lo, pois eles têm que mandar para os jornalistas espalhados pelo mundo, você tem que fazer sessões fotográficas... Você já gasta oito meses para gravar um álbum e depois tem que esperar ainda mais um ano por esse ridículo processo. Talvez esse tipo de esquema tenha feito sentido 10 anos atrás, mas agora, quando você pode compor uma música e colocá-la na rede via MySpace, me parece uma coisa totalmente obsoleta. E os músicos, os fãs, ninguém quer fazer isso, só os dinossauros, que às vezes estão muito atrasados. Não acho que a ação do Radiohead seja a solução final, mas acredito que é uma boa coisa. E se vai vazar mesmo na Internet, acho legal que os fãs decidam quanto eles podem ou querem pagar. É incrível a força da Internet. Hoje eu passo muito mais tempo na frente do computador e sempre descubro novas bandas. Você pode escutar música, pode assistir ao YouTube. É muito bom que isso esteja acontecendo, pois é legal para a música, porque a gente não tem mais aquela coisa de andar pela rua, como eu, e ter esse caso de amor com uma lojinha de discos em cada cidade. Antes eu passava três horas por semana numa lojinha de discos para escutar tudo o que eu queria. Agora essa coisa física com a música foi embora.
Você acha que o comportamento das pessoas que experimentam música via computador mudou muito?
Sim, eu acho que as pessoas que ficam sentadas em casa e têm esse relacionamento virtual com a música, estão muito mais famintas por música ao vivo. E é isso o que vem acontecendo nos últimos dois anos. O número de ingressos vendidos para os shows foi dobrado ou triplicado, pois tem muito mais gente indo assistir música ao vivo. No futuro, ou num futuro próximo, quem sabe alguma coisa diferente vai acontecer para os artistas. Antes você fazia um show ao vivo para lançar seu CD. O dinheiro para os artistas vinha da venda dos CDs. Hoje a coisa é diferente: álbuns são feitos para gerar shows ao vivo, de onde sai a maior parte de seu cachê. Para uma pessoa como eu, que começou a se apresentar ao vivo aos 12, 13 anos, isso é uma grande mudança e um grande triunfo. Significa que boa parte dos dividendos da música vai para os artistas em vez de ir parar apenas dentro de um arranha-céu com 500 funcionários.
Você prepara um show bastante cinemático para o Brasil?
Não muito. Acho muito difícil de fazê-los porque a maioria das pessoas tem a visão muito mais desenvolvida que a audição. E eu acho que quando as pessoas são apresentadas a muitas imagens visuais, é como se eles tivessem assistindo TV. Elas não se tornam presentes no momento. Elas se desligam. Geralmente tenho uma ou duas canções no começo do show que acontecem no escuro, assim as pessoas se ligam na audição. O lado visual é geralmente o mais expressivo. No passado eu usei muitos fogos de artifício, hoje eu trabalho mais com laser e confete, então não são mais imagens figurativas a serem contempladas. São mais emoções visuais impressionistas, porque acho que é uma sensação muito importante. Shows que têm muita poluição visual acabam estimulando apenas um hemisfério do cérebro e você não passa a ser mais impulsivo.

Seu show no Brasil vai ser diferente daquele mostrado nos EUA?
É o mesmo show. Mas ele cresceu um pouco, pois fomos ficando melhores e melhores com os instrumentos. Este ano os instrumentos eletrônicos que usamos se tornaram mais impulsivos. Aprendemos a tocá-los melhor. Acho que muitas das canções de Volta foram escritas para performances ao vivo, então a versão em CD não é a melhor maneira de ouvi-las. Acho que elas acabaram crescendo ainda mais no palco.
Por que escolheu o nome Volta para seu álbum?
Gosto do som da palavra porque eu queria que esse álbum fosse sobre energia. Eu já tinha nas letras das músicas palavras como voltagem e vodu, mas eu acho que essas palavras já estavam supersaturadas e eu estava cansada disso. Acidentalmente, eu me deparei, olhando um dicionário, com a palavra volta. Era um rio na África, que mais tarde foi transformado num lago, o Lago Volta, por causa de uma represa. Eu acho que isso acabou me colando no espírito de debater natureza versus criação do homem, e o que é essa diferença. Eu escrevo uma canção, isso quer dizer que ela é artificial ou o que fiz é parte da natureza também? Se um homem constrói uma represa, o lago que vai se originar dela também é considerado natural? É como a arrogância do homem, achando que o que ele cria é separado do mundo. Eu acho que o título é um amálgama dessas questões. Mas eu também gostei do som da palavra. Volta soa como energia. Mais uma vez, por uma coincidência, fui descobrir que Volta também era um tipo de dança na França em 1700, que era muito complicada de se aprender. E é também sobre virar-se, o que eu achei ótimo. E depois comecei a ouvir outras definições sobre a palavra, o que me fez sentir que tinha feito a escolha certa. Na Islândia, onde as pessoas habitam aquele pedaço de terra por quase 1100 anos, as primeiras pessoas que vieram foram os monges. E eles escreviam tudo em latim. Os islandeses escreveram muitas sagas e algumas delas foram traduzidas em latim. Era tudo muito relacionado à Velha Europa e aos tempos medievais, quando o latim tinha uma grande força como é com o inglês hoje em dia. Era um idioma neutro para unir todo mundo. Por essa razão, a da neutralidade, é que tendo a escolher títulos em latim para meus CDs. É como um idioma medicinal, da ciência, o idioma dos médicos. De alguma maneira, Debut, Post e Vespertine são palavras em latim, assim como Volta.
É verdade que o seu filho, Sindri, escreve música?
Não. Mas eu escrevi uma canção do álbum para ele.
Ele é interessado em música?
Não sei. Ele é jovem. Ele está tentando de tudo, como todo mundo faz quando se é jovem. Ele ainda tem tempo para escolher o que quer ser na vida.
Você acha que o lado maternal, depois de você ter dado a luz à sua filha Isadora, influenciou Volta de alguma maneira?
Talvez esse lado tenha influenciado mais Medulla, porque aquele foi um álbum muito físico para mim, pois eu estava amamentando e o fiz a partir do corpo humano, sem nenhum instrumento. É o milagre do corpo humano que faz você não precisar de nenhuma outra coisa. Na verdade, Medulla é um álbum bastante sentimental, repleto de deleite doméstico e sensação maternal. Em Volta, de alguma maneira, eu estava tentando libertar-me desse universo, deixar o casulo, pegar um barco e viajar para a África e para a América do Sul. Então é um trabalho mais exterior.
O que podemos esperar de sua viagem ao Brasil?
Para mim não é só o Brasil, pois estarei visitando cinco países. Talvez quando eu estiver por lá, eu vou dizer: "ah, OK, é o Brasil!" (risos). Mas eu estou visitando o Peru e a Colômbia pela primeira vez. Então, estou bastante empolgada com isso. No Chile eu já estive antes, mas apenas por 2 ou 3 dias. Depois de passar pela Colômbia eu vou pegar um barco e viajar até o México. Terminei uma turnê de cinco meses pela Europa e pelos EUA, então estou muito feliz em viajar para outros lugares. No México, devo me apresentar próximo a um vulcão. Mas é muito difícil viajar assim, com tanta gente, numa turnê. É muito dispendioso e você acaba ficando no zero. Mas pelo menos eu não perco nenhum dinheiro.
Matthew Barney vai te acompanhar nessa viagem?
Em parte dela, sim. Mas não sei, ao certo, a que lugares. Sobre o Brasil não estou certa ainda se ele vai poder ir.
Vocês têm planos de fazer mais filmes juntos?
Não sei. É muito precipitado fazer qualquer plano neste momento. Estamos envolvidos com tantas coisas, que não dá para vislumbrar o futuro. Eu aprecio as outras partes de nossas vidas, de nossos projetos, de que podemos sentar para discutí-los e também sermos amigos. Eu não acho que precisamos literalmente fazer algum projeto juntos sempre.
Você acha que o trabalho dele a influenciou de alguma maneira?
Não, não muito. Eu acho que já éramos mais velhos, mais maduros, quando nos conhecemos e cada um já tinha criado seu universo. Mas eu acho que tudo tem a ver com estar apaixonado. Se você é solteiro e escreve um livro, ele vai ser diferente de um livro que você escreve quando se tem uma pessoa que te ama e você ama essa pessoa também. Você fica muito mais confiante do que já é. Mas não muda o fato de quem você é.
Como anda sua visão sobre a política? Encontra-se otimista?
Eu acho que todo mundo já desistiu de acompanhar política e a gente está fazendo a nossa, por nós mesmos. Políticos são as últimas pessoas que vão mudar qualquer coisa. Para mim, Volta é muito sobre isso também. Criar uma humanidade e mantê-la global não é nada maléfico, pelo contrário. Não é necessariamente mau poder se comunicar com estrangeiros e trocar opiniões com eles. Você viaja para o Japão, faz amigos. Eu acho que tudo hoje em dia depende de nós.
Existe algum político em atividade que te dá um pouco de esperança?
Não.
Mas você procura saber o que está acontecendo à sua volta, não?
Um pouco, pelo fato de minha filha ser metade americana. Mas eu não consegui acreditar quando Bush foi reeleito. Foi um grande choque para mim. Eu pensei: "o queeeeeeeeê?" Mas depois eu superei. Não sei por que tenho tantas expectativas. Talvez pelo fato de eu morar em Nova York, eu não conheço uma pessoa que votou nele. Então todo mundo estava bastante confiante de que ele não seria reeleito. Mas depois daquilo eu estou de volta ao que é mais importante para mim, a música. Prefiro escrever sobre meus sentimentos, sobre minha vida e esperar, esperançosamente, que minha música possa tocar ou ter alguma ressonância nas pessoas ou na vida delas.

1 comentários:

Anônimo disse...

vc esqueceu de colocar o crédito da matéria...rs...