30/05/2006

Razões para entender por que Madonna domina o mundo


Depois que Michael Jackson caiu no limbo, as boybands sumiram do mapa e o U2 virou farofa, Madonna reina absoluta no trono da música pop. E justiça seja feita: nenhum outro artista conseguiu se reinventar com tanta criatividade nos últimos anos. Imitada nos quatro cantos do nosso planetinha, por nomes que vão de Britney Spears a Joelma, Madonna mais uma vez surpreende e surge crucificada, com direito a coroa de arame farpado, despejando insultos contra o presidente Bush. Marqueteira? Pode até ser, mas incoerente, nunca! Pensando no estardalhaço que a blondie girl ainda provoca por aí, resolvi elaborar uma listinha (eba!) com os dez motivos para se amar a Madonna:

1) Madonna está em plena forma. Quem já viu um dos novos clipes ficou babando. Fanática por malhação, ela prova que é possível manter um corpitcho de 20 mesmo já beirando os 50. E olha que a bonita já teve dois filhos.

2) 'Confessions on a Dancefloor' é básico para ouvir todos os dias. Não tem como ficar de mau humor depois da seqüência 'Hung Up', 'Get Together' e 'Sorry'. E quando até o seu namorado pós-punk pede para ouvir o CD é um sinal de que Madonna acertou em cheio.

3) Madonna adora uma polêmica. Desde 'Like a Prayer', em que ela escandalizou meio mundo ao beijar um Cristo negro, a moça não cansa de dar bafão. E de vez em quando faz da jaca a sua pantufa.

4) Madonna ajudou os gays a saírem do armário. Mesmo com todo o preconceito que existe por aí, o movimento homossexual cresce a cada dia. E não existe boate ou parada gay que não tenha a material girl como trilha sonora. Para os gays, Madonna é basicamente tu-do!

5) Madonna vive mudando a cor dos cabelos. Sim, porque não há nada mais chato do que ter a mesma cara a vida inteira. Por isso ela já foi ruiva, cultivou cachos, fez chapinha, cortou estilo Joãozinho e agora está como as Panteras dos anos 70. Sempre muito estilosa.

6) Madonna foi mãe solteira por opção. Sem essa de armar casamento para justificar o apelo uterino. E Lourdes Maria, hoje pré-adolescente, não tem do que se queixar. Só do assédio nas reuniões de pais e mestres.

7) Madonna tem crises por ser mãe e artista. Mesmo que possa pagar 15 babás e dez motoristas, ela queria mesmo era ter mais tempo para estar com os filhotes. Como toda mulher pós-moderna, assume o quanto é difícil conciliar as agendas e ser mãe, cantora, atriz, bailarina, escritora, dona-de-casa, esposa, amante...

8) Madonna popularizou o vogue. E todo mundo fazia aquelas coreografias superlegais nas festas. Dava até para inventar farras em casa só com a desculpa de promover um concurso de vogue entre os amigos, todos com o abdômen sarado, lógico.

9) Madonna lança moda a cada empreitada. Ela já imitou a Marilyn Monroe, a Evita Perón, foi country, hindu, sadomasoquista, espanhola e agora ataca de diva da dance music. Sem nunca se repetir.

10) 'Like a Virgin' é uma das maiores declarações de amor da música pop. E que Tarantino dissecou com muita propriedade no início do filme 'Cães de Aluguel'. Uma pesquisa entre namorados do mundo inteiro comprovou: não existe nada mais romântico do que ouvir 'You’re so fine and you’re mine...'.

(Publicado originalmente em 25 de maio de 2006)

Uma cerimônia para Ian Curtis


Vinte e cinco anos depois de sua morte, Ian Curtis, vocalista da banda inglesa Joy Division, volta ao cenário pop. Já está em produção o filme “Control”, baseado no livro “Touching from a Distance”, da viúva Deborah Curtis. Na direção, o holandês Anton Corbijn, um dos maiores fotógrafos de rock do mundo, famoso pelo seu trabalho com o U2 e que decidiu se mudar para a Inglaterra em 1979 para fotografar a sua banda favorita: o Joy Division. Deborah assina a produção do filme ao lado de Tony Wilson (“A Festa Nunca Termina”). Para o papel principal estão cotados Jude Law e Sean Harris, que já encarnou Curtis no filme de Wilson. “Control” começa a ser rodado em julho.

O lançamento do filme inclui duas trilhas sonoras, uma coletânea do Joy e outra com regravações assinadas por U2, Morrissey, Marilyn Manson e Moby. Dizendo-se incapazes de mexer com a obra do Joy Division, os alemães do Kraftverk se negaram a participar do projeto. Na Inglaterra, as homenagens incluem o documentário “Transmission”, produzido pela BBC, sobre a vida e a obra de Ian Curtis, assim como o seu legado para o rock, incluindo cenas raríssimas de shows gravados em 1979 e 1980 e entrevistas com Bernard Sumner, Peter Hook e Steve Morris, companheiros de banda e que depois da morte de Ian reinventariam o rock britânico com o New Order. “Transmission” será exibido amanhã em uma praça de Manchester, cidade onde surgiu a banda.

Enquanto isso, o novíssimo rock reverbera Joy Division. Do vocal de Paul Banks do Interpol à bateria do Bloc Party, passando pela estética do Franz Ferdinand. De volta à cena, o New Order arranca elogios da crítica com o álbum “Waiting for the Sirens Call” (http://www.neworderonline.com/). Na edição com a lista dos 100 melhores singles dos últimos 50 anos, a New Musical Express (NME) elegeu “Love Will Tear Us Apart” em primeiro lugar. A escolha não se baseou em vendas, mas na emoção que esses singles causaram nos editores da revista e que deixaram uma “marca indelével em suas almas”. A música também foi merecidamente escolhida como uma das melhores dos últimos 25 anos no Brit Awards.

Assim como os fãs dos Smiths se agarraram aos discos do Belle & Sebastian, os órfãos do Joy Division elegeram o Interpol. Criado em Nova York há sete anos por quatro rapazes engravatados - Carlos D no baixo, Daniel Kessler na guitarra, Samuel Fogarino na bateria e Banks no vocal e na guitarra - o Interpol lançou recentemente no Brasil (Trama) o impecável álbum “Antics”. E mostra que conseguiu superar o desafio do segundo disco - de fato, “Antics” cria uma atmosfera que captura os ouvidos desde os primeiros acordes da tortuosa balada “Next Evil”. Cansados da comparação com o Joy Division, os músicos do Interpol reagem: “Sermos comparados incansavelmente a algo é incômodo quando você está tentando estabelecer uma identidade. Nós soamos como o Interpol e não há comparação que possa ser uma boa comparação”, disse Banks ao jornal “Independent”.

De fato, restringir o som do Interpol a um clone do Joy Division seria uma ignorância. Se nas músicas da banda nova-iorquina estão sopros de Echo & The Bunnymen, Cure e REM isso só comprova que eles conseguiram reinventar com urgência e originalidade a sonoridade e a angústia típicas do pós-punk. E isso não é pouca coisa.

Origens
Manchester, Inglaterra, 1976, auge do punk. Ian responde a um anúncio que pede um vocalista, postado pelo guitarrista Bernard Sumner e pelo baixista Peter Hook. Assim nasceu o Joy Division, que gravou seu primeiro álbum, “Unknown Pleasures”, em 1978. Na época, o som do grupo se distinguia da produção punk rock por utilizar sintetizadores em suas canções introspectivas e viajantes que serviam de base para as letras sofridas de Curtis.
Autodidatas, os integrantes do Joy Division se inspiravam em Iggy Pop e Velvet Underground.


Mas o célebre lado sombrio estava fincado nas experiências pessoais dos músicos. À medida que o sucesso da banda crescia, a saúde de Curtis piorava. Epilético, seus ataques eram cada vez mais constantes, misturados a crises se depressão. Às vésperas de uma turnê pelos Estados Unidos, depois de um ensaio, Curtis voltou pra casa e assistiu “Stroszek”, de Werner Herzog. Depois de uma briga com Deborah, de quem estava se divorciando, Curtis ouviu “The Idiot” e se enforcou com os lençóis da cama. Ele tinha 23 anos. Semanas após sua morte, chegou às lojas “Closer” (1980).

(Publicado originalmente em 17 de maio de 2005)

A morte ou outras carícias distantes


“A vida mesma, não o suicídio, a vida mesma descoberta na imensa liberdade da morte. Ah! Mais vasta a história dessas folhagens em nossos muros, e a água mais que a dos sonhos, graças, graças lhe sejam dadas por não ser um sonho! A minha alma está cheia de mentira, como o mar ágil e forte sobe a vocação de eloqüência! O possante odor me rodeia. E a dúvida ergue-se a realidade das coisas. Mas se um homem se agrada da tristeza, exponham-no a público! E meu juízo é que o matem, senão haverá uma sedição.”
(Saint-John Perse)

* Marcelo Azevedo
Suponha que Hölderlin, ou J.G. Ballard, tenha 20 anos e que em vez de estudar literatura e filosofia, ele passasse, depois do trabalho duro da semana, os fins de semana pogando em shows punks e tendo suas próprias idéias sobre como dar um passo à frente da cena já claudicante, para integrá-la a novos contextos, novas ambiências. Entretanto, o sentido de descontinuidade, de fratura, está disperso pelos seus discos.

Convulsões são pop. Rock feito por corvos do alto de suas indiferenças sobre humanas. Ou por jovens proletários desajustados. Os terremotos da alma a abastecer a juventude de som e de fúria: a capa de “Unknown Pleasures”. A epilepsia mostra seus dotes musicais. Sonoridade - invasão dos domínios turvos e revoltos da vida. Fruto de negociações com o irreparável, sem caridade ou redenção. Uma linha frontal de contrabaixo suspensa sobre o abismo, tangenciando nossos desastres, mortíferos, em sua aparência costumeira. O amor. A atmosfera. A morte.

É preciso celebrar o alcance da destruição: o pogo, a insólita alegria de esmagar a cabeça contra o céu ou contra o chefe, ou ainda contra o público. Contra o escapismo hippie/hype de boates que parecem comercial da Azaléia, o suplemento sempre renovado de insolência primitiva. Joy Division.

Mas, muita calma. O calor é o nosso forte e, afinal de contas, não há pecado abaixo do Equador. Então, como aceitamos esse presente de grego, a onda gelada do punk? Como os ecos do tempo 80’s acabaram por disseminar seus eclipses no coração da Amazônia? É possível integrar algum senso regional a uma expressão musical que não é nativa deste contexto? Como nós, os índios, fomos afetados e nos deixamos absorver por mais esta lenda?

Hoje estamos ao mesmo tempo longe demais e perto demais dos acontecimentos 75/78. De nada adianta fingir objetividade sobre o seu composto indefinível. Interpretações dadas à sociologia ou psicologizantes ou sobre aonde pode levar tanto vazio não cabem aqui. São apelos, não explicam nada, assim como os artistas e intelectuais que se formam a partir de restos de cerveja jogados fora no Bar do Parque.

Para cada expressão digna de arte, um sem número de duplicatas, derivativos e diluidores, darks e góticos (sic), nos quais algumas gerações ainda estão condenadas a se mascarar destinadas ao ridículo. Qualquer contato confiável com estas referências aspira a perder o orgulho de um nome próprio, Ian Curtis, pois o som é vazio, quebrado, sem rosto. “Closer”. Divertir-se aqui é ilimitar-se na escuridão, confiante de seu avanço pela cidade, como o fez Goeldi. É a terrível simetria que os une na música, abismo e alma.

Muito mais do que aderir à época da hora, importa sacar que nos 80’s se tomou o desvio soturno, não foi para inibir o perigo; foi para assegurar o combate; pois busca a intimidade perdida com as forças hostis do desespero, do abandono; quer de volta as carícias distantes, desconfiadas e frias que a morte pode oferecer.

* Marcelo Azevedo é editor da revista literária Polichinello
(Publicado originalmente em 17 de maio de 2005)

Belle and Sebastian para dias ensolarados


A Trama acaba de lançar no Brasil o novo disco da banda escocesa Belle & Sebastian. Trata-se do maravilhoso 'The Life Pursuit', a trilha sonora ideal para dias ensolarados - ou chuvosos mesmo - pois traz um punhado de canções capazes de fazer você esquecer da chatice que é viver procurando a última grande banda da semana.

O disco abre com bela balada 'Act of Apostle', em que o refrão diz 'Oh, se eu pudesse dar sentido a tudo isso, eu poderia cantar'. Esse parece ser o ensinamento de todo o álbum, afinal, naqueles momentos em que tudo é totalmente sem noção, bom mesmo é ter melodias que embalem os sonhos. Na seqüência, 'Another Sunny Day', que soa como se fosse herdeira direta dos Smiths, mas com uma pegada mais country.

Todo o álbum segue num equilíbrio perfeito entre melodias agridoces e boas pedidas para uma festinha reunindo velhos amigos. Dá até para dizer que 'The Life Pursuit' é bem mais alegre do que os discos anteriores. Uma prova disso é 'We Are The Sleepyheads', que traz o mesmo clima de 'Legal Man', um dos singles mais coloridos já lançados pela banda.

Em seu sétimo álbum - contando com a trilha sonora do filme 'Storytelling' (Histórias Proibidas), do diretor americano Todd Solondz, fora os vários EPs e singles, o Belle and Sebastian teve a produção de Tony Hoffer, o mesmo de bandas como Granddaddy, Air, Beck, Supergrass e Mercury Rev. O resultado não poderia ter sido melhor. Some-se a isso o fato de que a banda resolveu flertar mais ainda com o soul (ouça 'Song For Sunshine', 'For The Price of a Cup Of Tea'), mantendo a sonoridade nos anos 60 de Beach Boys, The Kinks e Burt Bacharach (ouça 'Funny Little Frog', escolhida como o single do disco e que fala de um amor pra lá de platônico).

Cultuada no circuito indie europeu, a banda surgiu em Glasgow, quando Stuart Murdoch convidou o amigo Stuart David para gravar algumas canções e assim compor um trabalho para a faculdade. Entraram em seguida Isobel Campbell, que saiu em 2002 para formar a banda The Gentle Waves, Chris Geddes, Stuart Jackson e Richard Colburn. E lá se vão dez anos desde o impecável álbum de estréia 'Tigermilk', um clássico para se ouvir pelo resto da vida.

Depois vieram 'If You’re Feeling Sinister', que projetou a banda no cenário internacional, e ainda 'The Boy With The Arab Strap', 'Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant', o último antes da saída de Stuart David, substituído por Bob Kildea. O quinto trabalho, 'Dear Catastrophe Waitress', saiu no final de 2003, mas não teve muita repercussão.

Só para fãs
Em 2004 e 2005 os fãs de carteirinha ganharam dois DVDs: 'Fans Only', que traz todos os clipes da banda, mais entrevistas e até cenas da passagem pelo Brasil, em 2001, quando tocaram no Free Jazz Festival; e ainda um DVD com os vídeos de 'Step into My Office Baby', 'I’m a Cuckoo' e 'Wrapped Up in Books', esse mais fraquinho, só justificado pela febre da banda por aqui.

Mas bom mesmo é ter na estante a coletânea dupla 'Put the Book Back on the Shelf: A Belle & Sebastian Anthology', que traz no encarte 25 histórias ilustradas, contadas a partir de músicas da banda.

A verdade é que o Belle and Sebastian, que acabou se tornando conhecido por sua baladas tristonhas, ganhou novo fôlego com 'The Life Pursuit'. Mas se algum fã sentir saudade dos velhos tempos, é só colocar 'Mornington Cresent', a última faixa do disco: é melancolia em estado puro. Afinal, como já diria Wander Wildner, ninguém consegue ser alegre o tempo inteiro.

(Publicado originalmente em 25 de abril de 2006)

DJ Patife solta alma black


De cara ele vai logo mandando um abraço pra galera do Pará. 'Tô devendo uma visita pro meu avô, que mora em Marabá', diz Wagner Borges Ribeiro de Souza, o DJ Patife, que acaba de lançar 'Na Estrada', com selo da Trama. O avô Otacílio, de 78 anos, é lembrado antes do início da entrevista - 'Manda um beijo pra ele', diz o DJ, com a promessa de que a visita deve acontecer ainda neste semestre. E claro, com direito a uma apresentação por aqui.

Filho de pais baianos - assim como o avô, que migrou para essas bandas para ser garimpeiro em Serra Pelada - DJ Patife tem sotaque paulistano carregado, mas pode se considerar cidadão do mundo. Já tocou em mais de 50 países desde que embarcou para Londres, em 1997, junto com o amigo Marky Mark para conhecer os DJs e produtores da terra natal do drum’n’bass.

A batida quebrada desse gênero da música eletrônica é sua grande paixão. É por ela que navegam ritmos como jazz, funk, bossa nova e muita black music. Em 'Na Estrada', o mais brasileiro de seus trabalhos, estão músicas de Max Vianna ('Enigma'), Nando Reis ('Diariamente', já gravada por Marisa Monte) e Jorge Ben ('Que Pena'). E vale a pena curtir 'Overjoyed', a releitura de um clássico de Stevie Wonder que já é sucesso no Japão antes mesmo do disco ser lançado por lá. Foi sobre suas viagens musicais que DJ Patife conversou:

Você colocou o primeiro single, 'Na Estrada', disponível em MP3. A internet é o melhor meio para se divulgar música hoje em dia?
A internet é hoje uma realidade e a gente não pode lutar contra isso. Uma realidade que ajuda todos nós, né? A gente não é contra o download, mas a idéia de colocar uma música disponível valoriza o meu fã. Enquanto o disco não sai, ele pode ter um gostinho do que está vindo por aí. Também é uma forma de trabalhar algo que basicamente vai ser o futuro da comercialização da música, com certeza. É difícil colocar na cabeça de um menino de 14 anos que ele tem que ir na loja comprar um CD de 30 reais quando gosta de uma ou duas músicas. Está dentro de casa, tem internet, CD-R, e faz um CD com as 20 músicas que ele gosta a R$ 1. Como é que você vai explicar que existe toda uma essência, o encarte do CD... Eles fazem parte da próxima geração, que vai comprar música on-line e montar o próprio CD.

O que você acha da pirataria?
A pirataria é um desrespeito. Agora senti isso na pele, pois foi a primeira vez que produzi um disco. Você gasta horas de estúdio, envolve uma gama de pessoas... e de repente, por R$ 3, o cara queima seu CD na praça. Se existe o lado positivo é o da divulgação, mas não acredito nisso. Acho que não se acaba com a pirataria porque não se quer. Na semana passada eu estava na Vila Olímpia e vi uma banca lotada de DVDs e CDs piratas. Passou uma viatura e cumprimentou os caras, tipo 'depois eu passo aí'. Entra política, polícia e a gente não sabe a verdadeira verdade. E além de ser falta de respeito, a pirataria é crime.

Você é considerado um dos melhores DJs de drum’n’bass do Brasil. Como surgiu o seu interesse por esse tipo de música eletrônica e qual o peso da black music nessa escolha?
Tudo começou em 1988, 89, quando eu me identifiquei com cultura do DJ. Minha primeira escola foi o hip hop, o black, o sambão, James Brown. Depois de absorver tudo isso, fiz muito aniversário de 15 anos, casamentos. Toquei 'Carruagens de Fogo', Cely Campelo, Genival Lacerda, Ray Conniff, carimbó, valsa. Quando me deparei com o d&b, em 1993, foi amor à primeira vista, porque soou como uma música nova, que eu nunca tinha escutado, uma música quebrada (imita a batida do d&b com a boca), tinha jazz em cima, ragga, rap, tudo que eu já tinha escutado em algum momento. Pensei: 'É isso que eu quero da minha vida'.

Depois de dois projetos ('Sounds of Drum’n’Bass' e 'Cool Steps - Drum’n’bass Grooves'), você embarcou na idéia de um álbum só com produções suas. Como foi esse desafio?
Sempre fui influenciado por produtores como Mad Zoo, que foi parceiro em todos os meus discos. Ele ficou quatro anos falando: 'Patife, você tem que produzir sua própria música'. Mas eu não queria nem passar na frente do estúdio. Sei da história desse álbum desde 1999, quando entrei na Trama, só que o Patife existia apenas na periferia onde moro, na boate em Interlagos. Eu era meio desconhecido, então decidimos montar um projeto artístico, mas eu sabia que teria que fazer um disco de produção. Quando chegou a hora, pensei: 'É agora que eu vou trazer para o meu povo um pouco mais de mim'. Porque o d&b é um dos poucos estilos na música eletrônica que consegue englobar vários estilos dentro dele mesmo.

Como você escolheu o repertório do disco?
Nas 13 faixas é a voz do coração falando mais alto, Ave Maria (risos). Graças a Deus sou abençoado, meu time é muito bom, desde o empresário ate a rádio que eu trabalho. Quando chamei o Cleveland (Watkiss, produtor que já trabalhou, entre outros nomes, com Stevie Wonder) para o Brasil, a gente não tinha uma idéia formada. Tô eu na mesa batucando e começo a cantar 'Overjoyed'. Ele começou a batucar junto e disse: 'É isso que vamos gravar no estúdio!'. Então algumas coisa eu vinha trazendo de muitos anos e outras refletem o momento que estou vivendo.

Você percorreu vários países em 2005. Qual a receptividade para DJs brasileiros lá fora?
O gringo é o seguinte: de cara ele tem amor pelo Brasil por causa da mulher bonita, do Pelé e do futebol e da beleza do brasileiro, do calor, da receptividade do povo. Quando chego lá fora e sou brasileiro, tem um monte de coisas ajudando. Eu pego a cultura dele, que é a música eletrônica, e misturo com o que ele já gosta, que é a música brasileira. E tem também a forma como eu discoteco, dançando e batendo palma. Os caras lá tocam como um robô. Você pega todos esses temperos e vê o que dá. A recepção é fantástica, estive em mais de 50 países de 1999 pra cá. Eu não sabia nem onde a Eslovênia ficava no mapa e já estive lá mais de seis vezes. No Japão, 'Overjoyed' está em oitavo lugar na rádio nacional. Eu estava em Hiroshima e o povo pedindo autógrafo. E isso porque a gente vive num circuito alternativo.

Depois do boom no início dos anos 00, quais caminhos você apontaria para a música eletrônica feita no Brasil?
A música eletrônica cresceu demais, eu jamais imaginei vê-la como hoje. A gente está bem na foto - e muito bem. Passamos a dominar mais a técnica do estúdio, como tirar o som, a freqüência certa. Hoje temos produtores renomados, como Mad Zoo, Xerxes, Felipe Venâncio, Memê. Somos citados como um dos pólos de música eletrônica no planeta.


(Publicado orginalmente em 02 de abril de 2006)

29/05/2006

Dentro do circuito


Belém viveu uma quinzena atípica com o Circuito Cultural Banco do Brasil, programação que reuniu cinema, dança, música, teatro, artes plásticas e debates sobre fotografia, dramaturgia, crônica e jornalismo em vários espaços da cidade. Nos últimos quinze dias, quem não saiu de casa para curtir uma dessas opções perdeu a oportunidade de apreciar trabalhos inéditos por aqui, produções culturais que primam pelo profissionalismo e a renovação do fazer artístico. Sem falar de Picasso, uma exposição imperdível.

Tive a satisfação de ser convidada para fazer a mediação de dois debates dentro do projeto Cronicamente Viável, integrante do circuito. O primeiro deles, sobre o tema "Crônica e Jornalismo", reuniu os jornalistas e escritores Ivan Ângelo e Nirlando Beirão. No segundo dia, o jornalista e escritor Zuenir Ventura e a escritora Ana Miranda falaram sobre Machado de Assis e sua influência sobre os grandes cronistas do século 20.

Entre tantas boas opções diárias, confesso que me surpreendeu o interesse da platéia paraense em participar do evento. Centenas de pessoas foram ao Teatro Maria Sylvia Nunes, na Estação das Docas, não apenas para tietar os ilustres convidados, mas sobretudo para participar dos debates, dialogar com quem entende do assunto.

No primeiro dia do evento, a poucas horas do início da programação, comecei a sentir um estranho tremor nas pernas. "Será que está muito em cima da hora para cancelar?". Mas que desculpa caberia em tamanha desfeita? Nenhuma. Então o jeito foi encarar a timidez de falar em público. Logo eu que sou uma jovem cronista e nunca mediei debates nem no tempo da escola.

Primeira situação inusitada: eu e Nirlando estávamos com roupas idênticas. Calça jeans desbotada, camisa preta de mangas compridas. Ele mal chegou e foi logo falando: "Ah, estamos compondo uma dupla! Que tal um número de sapateado no final?". Soltei uma risada nervosa. Beatriz Gonçalves, jornalista que assina a curadoria do evento, não parava de elogiar a cidade. "Nossa, aqui tudo é bárbaro!", dizia com sotaque paulistano carregado. Suspirei aliviada: "Ah, eu não vou morrer hoje, que bom...".

Lá de cima do palco o público poderia ser de qualquer outra cidade. Comecei a apresentação gaguejando, tropeçando nas palavras... Mal sinal. É quando Ivan e Nirlando começam a falar sobre a crônica dentro do jornalismo. O papo foi tão interessante que nem senti as duas horas passando. E quando acabou eu ainda queria mais.

No dia seguinte não foi diferente. Quer dizer, foi. Zuenir Ventura foi logo avisando que depois do debate tinha um jantar especial e que fazia questão que eu participasse. Como assim? Eu não contava com tamanho acolhimento. Ana Miranda, com aquele ar nobre, não poupou sorrisos e ainda elogiou o meu texto! "Ai, o mundo está mesmo perdido", pensei.

E se ainda sobrou alguma timidez no final do evento, ela se dissipou totalmente durante o jantar. Entre as muitas brincadeiras e comentários espirituosos, Nirlando deixou escapar que tem um filha ex-gótica, que mora nos Estados Unidos, onde toca numa banda indie. E o mais grave: ela tem um autógrafo do Jesus and Mary Chain! Claro que combinamos de ir juntos ao show do Sisters of Mercy.

Já Zuenir me fez jurar que vamos organizar o lançamento de seu novo livro em Belém. Ivan trocou várias idéias comigo sobre o mundo dos blogs (prometemos lançar os nossos em breve), Luís Nunes, o ótimo ator que fez as leituras das crônicas, agora é meu amigo de msn, e Beatriz, bom, vai ter que me aturar quando eu for a São Paulo. Além de aprender lições sobre as delícias e tormentos de ser cronista (sim, todos sofrem da síndrome da página branca), tive uma semana inesquecível. Tudo porque respirei fundo e segui em frente. Do jeito que tem que ser.


(Publicado originalmente em 08 de maio de 2006)



O lixo e a fúria


Uma lista com os cinco maiores fracassos sentimentais, aqueles que ficarão para sempre na história dos foras que um sujeito já levou na vida. É assim que começa a saga do ex-DJ Robert Flemming, dono da Championship Vynil, um loja especializada em vinis de punk, blues, soul, r&b, pop dos anos 60 e 'tudo para o colecionador de discos', como bem indica a frase na vitrine.

No último final de semana, Rob Flemming esteve entre nós. Trata-se na verdade o personagem de 'Alta Fidelidade', do escritor inglês Nick Hornby - livro que rendeu uma adaptação para o cinema com John Cusak no papel principal. Flemming e sua hilária fixação por listas - as cinco melhores faixas de abertura em lados A dos discos, as cinco melhores músicas para se tocar num enterro, e por aí vai – estiveram muito bem representados no espetáculo 'A Vida é Cheia de Som e Fúria', da Sutil Companhia de Teatro, levado ao Theatro da Paz, dentro do Circuito Cultural Banco do Brasil.

Sábado à noite, casa cheia. Patricinhas, punks de boutique, madames com aquele penteado estilo Beth dos Flinstones, empresários, DJs e jornalistas. Nada mal para um espetáculo recheado de referências da cultura pop e que, pelo menos aparentemente, só chamaria a atenção dos mais jovens. No palco, o ator Guilherme Weber, que atualmente está no elenco de 'Belíssima', mostrando versatilidade e fôlego numa convincente demonstração de talento.

Não há como não se identificar com a história, afinal, quem nunca gravou uma fita para conquistar alguém? Ou deixou de sentir as pernas ao ser abandonado pela garota dos sonhos? Com eterno espírito adolescente, Rob Flemming decide rever sua trajetória sentimental para, quem sabe assim, entender porque, aos 36 anos, acabou sendo abandonado pela doce Laura, que o trocou por Ian, o vizinho do andar de cima.

Uma das cenas mais hilárias - tanto no livro, no filme ou no espetáculo - é a que mostra os amigos de Rob, que trabalham com ele na Championship Vynil, massacrando os clientes desavisados que 'sem querer' acabaram pedindo um disco da Britney Spears ou coisa que o valha. O próprio Rob abandona uma pretê quando dá de cara com a moça vestindo uma camisa do (blargh!) Sting.

Sim, eles são radicais, intransigentes, punks de espírito. E pense bem: escolher um amigo pelo tipo de música que ele escuta não é tão péssimo assim. Afinal, como conviver com alguém que curte Alanis Morrissete? (Tá, vamos lá, a moça tem umas músicas legais). Mas namorar ao som de Bryan Adams? É um pouco forte, não?

Para além do sarcasmo, debochar de quem já nasceu vendido para a indústria cultural é uma virtude. O que dizer de bandas que já despontam com cara de refrigerante? Ou de artistas que se especializam anos a fio em copiar meticulosamente seus ídolos, só mudando um acorde aqui e outro ali? São os chamados genéricos - e olha que os originais nem são tão bons assim.

É por essas e muitas outras que o punk e seu autêntico marketing negativo fazem tanta falta. Arrebentar identidades, detonar os esquemas da indústria cultural, perfurar a cara do 'sistema' com grandes alfinetes foi a grande lição de Sex Pistols, dos Ramones, do Clash, aliado ao mandamento 'faça você mesmo', hoje onipresente no mundo transformado pelas tecnologias, em que qualquer garoto pode criar música dentro do seu próprio quarto, em qualquer muquifo do planeta.

Numa cidade com opções culturais tão restritas ao regionalismo, receber um espetáculo rico em citações da cultura pop foi mesmo um grande presente. Para completar a noite, só faltou mesmo avistar na platéia Jaime Catarro - um dos poucos roqueiros da cidade avesso a concessões - rindo das peripécias de Rob e sua turma.

(Publicado originalmente em 01 de maio de 2006)

Cansei de ser pobre



Uma das bandas mais legais que surgiram no cenário pop em 2005 foi a Cansei de Ser Sexy. Com quase todas as letras em inglês, produção descolada e mistura de rock e eletrônico, a banda conquistou uma legião de fiéis seguidores no circuito alternativo de São Paulo e agora embarca para uma turnê pelos EUA. Isso depois de figurar em praticamente todos os jornais e revistas do Brasil e ainda ganhar elogios de jornalistas gringos. Acordou de mau humor? Tá chateado no trabalho? Quer animar uma festinha? Tasca o Cansei de Ser Sexy e tudo se resolve.

De tanto ouvir os CDs acabei pensando em criar uma banda cover: Cansei de Ser Pobre. Mesmo sem saber tocar bulhufas, acho que poderia compor umas letras interessantes a partir das crônicas do dia-a-dia. Tempo pra isso eu tenho de sobra. Basta levar um caderninho à mão no ônibus cada vez que desabar um toró em Belém.

No último engarrafamento, me arrependi de ainda não ter colocado essa idéia em prática. Foram inacreditáveis 45 minutos para percorrer o trecho entre o Bosque Rodrigues Alves e a Tuna Luso, ou seja, uns quatro ou cinco quarteirões. Dentro do ônibus, o que mais se via era gente dormindo com a cara na vidraça da janela, mas uns poucos heróis da resistência ainda tentavam falar abobrinhas e contar piadas, na esperança de matar o tédio. E todos iam ficando com cara de pupunha.

Uma boa idéia para melhorar a qualidade de vida dos paraenses em dias chuvosos seria a distribuição gratuita de um pequeno kit de sobrevivência: um discman ou radinho a pilha, umas palavras cruzadas, uns exemplares de Caras, além do colete salva-vidas. Aposto que ninguém ia notar que hoje se perde duas horas para chegar a qualquer lugar, seja de ônibus ou mesmo de carro.

No noticiário é comum ver as autoridades justificando o caos gerado pelos alagamentos com uma teoria interessante: Belém não está preparada para toda essa chuvarada. Ou seja: no primeiro semestre do ano, deveríamos mudar o lugar da cidade no mapa, já que a nossa região sempre estará fadada a altos índices pluviométricos. Outra solução seria recorrer à literatura fantástica, criando personagens que se transformariam em criaturas meio humanas, meio anfíbias, com guelras, escamas e nadadeiras.

Passar horas presa num engarrafamento para percorrer um trecho que, em condições normais, seria feito em 20 minutos, não é tão ruim. Dá até para pensar que Belém a cada dia se assemelha mais às grandes metrópoles, se não nas opções culturais, mas pelo menos nos problemas. Pense bem: até serial killer nós já temos. E tal qual nos filmes de aventura, nossos bandidos não se intimidam em agir em locais movimentados, como estacionamentos de grandes supermercados bem no centro da cidade. E bastam dois assaltos simultâneos para termos a sensação de que a violência é generalizada e é melhor fazer serão no trabalho do que arriscar uma ida para casa.

Com a lei seca, vai se dar bem quem abrir botecos ao lado das empresas, já que as pessoas têm que começar a beber mais cedo e não podem perder tempo em engarrafamentos gigantescos. O problema é que todos estarão fadados a dar de cara com o chefe bem no meio da farra.

Do jeito que as coisas estão, não temos muita opção mesmo. Pelo menos eu tive a idéia de criar uma banda cover, que com sorte ainda será escolhida para tocar em algum festival. E você? Já deu uma olhada na previsão do tempo para hoje?

(Publicado originalmente em 22 de abril)

Cometi Orkuticídio


Há mais ou menos uns dez dias resolvi me desorkutar. Com tanta coisa pra fazer e sem computador em casa desde que o meu HD foi para o espaço, ficou difícil responder a todos os scraps. Sem contar que fui tomada por uma incômoda sensação de superexposição num momento em que minha família está de luto. Mandei uma mensagem a todos os meus amigos - eram uns 200, eu acho: 'Estou me desorkutando. Obrigada pela companhia'. E só.

O que eu não esperava era a reação do povo. Fora os e-mails de pêsames, teve gente que não entendeu mesmo o que se passou. Foi como se eu tivesse cometido um pecado imperdoável ou vendido minha mãe pela internet.

Nada contra quem não consegue mais viver sem Orkut, mas para mim, já deu o que tinha que dar. Reencontrei amigos, refiz bons contatos profissionais, matei a saudade de um povo que eu nunca mais veria não fosse a tal rede de amizades. Foi legal ver os filhos dos meus amigos dos tempos da universidade (ê Nós da Praça!) e saber notícias de quem agora vive longe. Mas também vi de um tudo. É gente querendo ser hype o tempo inteiro, gente reclamando da vida por bobagem, gente que se acha o máximo, gente que passa a vida só fazendo farra e ainda se gaba por isso... E uma carência absurda, uma necessidade gritante de se auto-afirmar: 'Eeei, olha como eu sou legal, descolado, o último biscoito do pacote...'.

As comunidades, então, servem para muito pouco. No início, você acha que encontrou sua tribo no mundo. 'Nossa, Jesus and Mary Chain Brasil. Que legal!' ou então 'Caraca! Love and Rockets! Adoooro!'. Mas aí os meses passam e você não recebe uma mensagem que se aproveite. Com exceção de algumas raras, que te dão links interessantes, o que se ganha é uma caixa sempre abarrotada de textos inúteis que você nem vai se dar ao trabalho de ler antes de apagar. E vai só deletando, deletando...

A falta de privacidade é outro inconveniente. Isso porque no Orkut todo mundo acaba sabendo que programa você vai fazer no fim de semana, mesmo que você tenha combinado isso com apenas um amigo. Mas aí coloca o scrap lá e já viu.

Na verdade o Orkut é apenas o termômetro do quanto a internet se tornou terra de ninguém. Se na rede de amizades a regra é aparecer sempre muito bem na foto e participar de comunidades absurdas, na internet cresce o número de malucos. Nem vamos falar dos crimes de pedofilia e racismo.

Essa semana, entre as muitas notícias absurdas que recebo todos os dias, uma em especial me chamou a atenção: 'Chinês tenta vender sua alma na internet'. Sim, foi em Xangai. Um rapaz de 24 anos tentou vender sua alma no mais popular site de leilões da China e, pasmem, conseguiu obter 58 lances. Isso antes dos operadores excluírem sua oferta da página. 'Foi apenas um impulso', explicou o rapaz, que não quis se identificar.

Na seqüência, outro doido resolveu colocar a sogra à venda no eBay. O britânico Steve Owen, farto da senhora Caroline Allen, publicou uma foto dela na seção de 'Colecionáveis e Coisas Estranhas', descrevendo-a como 'usada'. Uma libra britânica foi a base de licitação. Tudo porque a pobre mulher mudou-se para o mesmo bairro do genro e da filha. E ele ainda disse que não foi uma brincadeira de mau gosto.

Sei de gente que tentou se desorkutar e ficou meses sofrendo por isso. Aí finalmente criou coragem, mas bastou uma semana e logo estava lá, de volta. No dia em que me desorkutei, a sensação foi uma só: alívio. Quem sabe um dia eu volto. E quanto aos meus amigos, bom, eles sabem onde me encontrar.

(Publicado originalmente em 8 de abril de 2006)

Mãe, quero ser astronauta!


Que inveja do Marcos Pontes. O primeiro astronauta brasileiro a fazer uma pequena temporada no espaço deve estar feliz da vida. E com razão. A essa altura ele já está na Estação Espacial Internacional. Com a companhia de apenas dois outros astronautas, dá para curtir um pouco de sossego na Soyuz TMA-8, lançada no Cazaquistão. E até se a nave russa tivesse enguiçado na hora do lançamento, se eu fosse o Marcos Pontes, ficaria por lá mesmo.

Permanecer imóvel dentro do veículo espacial não é nada. Só de ficar longe do trânsito nesses dias de chuva e do DVD da banda Calypso, o alívio já seria imediato. Aposto que lá no espaço não chegou a notícia de que o depoimento de Antonio Palocci à Polícia Federal foi adiado porque o ex-ministro está... estressado. Ou então que a França aprovou uma lei para demitir os jovens sem justificativa e indenização, apesar dos protestos que reuniram mais de um milhão de pessoas. Com certeza nosso astronauta ainda não sabe que o cantor Belo, preso por envolvimento com o tráfico, ganhou da Justiça o direito de progressão do regime fechado para o semi-aberto e daqui a pouco vai estar charlando por aí num carrão importado.

Sem nunca ter participado de um reality show, Marcos Pontes ainda se tornou herói de Bauru, no interior de São Paulo, sua terra natal. A cena que mostrou a subida da nave espacial deve ter matado de inveja a galera do Big Brother: centenas de pessoas chorando, rezando e aplaudindo todas as vezes em que o astronauta aparecia no telão, que tinha transmissão direta da TV Nasa. Por lá não se falou em outro assunto: os jornais fizeram contagem regressiva e publicaram até pôster dele; ônibus circulavam com a mensagem 'Boa viagem, Marcos Pontes' e a família passou o dia dando entrevistas. Até o Astronauta da 'Turma da Mônica' enviou-lhe uma mensagem.

Infelizmente, para o brasileiro, o sossego vai durar apenas dez dias. E como nada é perfeito, nesse período ele terá que abrir sua caixa de e-mails e fazer três contatos com a Terra, o primeiro deles justamente com o presidente Lula.

Para um País que investe tão pouco em produção de conhecimento e estímulo à leitura - o próprio presidente já disse que 'ler é uma chatice' - gastar US$ 10 milhões para mandar um astronauta ao espaço é algo no mínimo curioso. Parece golpe de marketing, mas quem sabe o governo não decide manter um programa espacial e abre inscrições para voluntários?

Se for isso mesmo, pode ter certeza de que vou me candidatar para a próxima missão. Treinamento de sobrevivência eu já faço todos os dias. Comida de astronauta, tudo bem - deve existir uma versão sabor capuccino ou chocolate com castanha de caju. E já fiz até uma listinha do que não poderá faltar na mochila: meu discman com toda a coleção do Sigur Rós e do Belle and Sebastian, os livros da Clarice Lispector, os almanaques da 02 Neurônio, o show do REM na Alemanha, os episódios do Jack Bouer e uma câmera polaroid, para aproveitar a ausência de gravidade e fazer umas fotos bem legais.

Se não fosse a saudade das minhas meninas superpoderosas, seria duro me convencer a voltar à Terra, ainda mais em ano de eleição e Copa do Mundo, quando seremos soterrados 24 horas por todo tipo de informação sobre os bastidores da política e os treinos da seleção. Bom mesmo seria ficar um tempo por lá e ver que a Terra, além de azul, é mesmo pequenina, e que os problemas, que às vezes parecem intransponíveis, são apenas um grãozinho de areia, só isso.

(Publicado originalmente em 01 de abril de 2006)





O mundo é gay

Falta pouco para o Oscar, quando todos os olhares estarão voltados para "O Segredo de Brokeback Mountain", o comentado filme de Ang Lee que chega à festa hollywoodiana com nada menos do que oito indicações. Finalmente temos a oportunidade de vê-lo, bem depois da estréia em outras capitais brasileiras com filas de virar o quarteirão. Ainda não tive tempo de correr para o cinema, mas acredito que as sessões em Belém hoje e amanhã devem estar bem concorridas.

Tanto burburinho tem sua razão de ser. "O Segredo de Brokeback Mountain" é o filme que está fazendo Hollywood sair do armário. Com a repercussão da história de amor entre dois homens, uma penca de artistas já se pronunciou, oferecendo o nome para uma próxima produção de temática homossexual. E pouco importa que o filme seja ou não o melhor do ano. Só o fato de ter levantado a bandeira do amor entre iguais já é suficiente: se fosse integrante da Academia de Artes Cênicas, meu voto já estava decidido.

Todo mundo sabe como é difícil para um gay sair do armário. E isso até mesmo em Hollywood, terra das celebridades e dos modernosos de plantão. Vale tudo nos bastidores, mas a imagem de fachada ainda pesa muito na hora de manter a carreira. Não é difícil listar nomes de astros e estrelas que foram obrigados a esconder - ou pelo menos camuflar - sua opção sexual. De Greta Garbo a James Dean, muita água rolou até que Elton John pudesse se casar com seu companheiro.

E se é assim no mundo dos espetáculos, o que dizer na vida real, em que o preconceito ainda dá as cartas. E como se não bastasse, ainda tem o Vaticano lançando uma ofensiva contra a cultura gay no mundo, organizando conferências com teólogos e psicanalistas para frear a legalização do casamento entre homossexuais e a adoção de crianças por casais do mesmo sexo. A Igreja rejeita toda possibilidade de "equiparar" o casal heterossexual com o casal homossexual e considera a homossexualidade um "pecado grave", imoral e contrário à lei natural. Ninguém merece.

Nos Estados Unidos, o governo Bush só fez com que a questão regredisse ainda mais. Com a desculpa de valorizar a família tradicional, o presidente americano se opõe abertamente aos projetos de união entre gays, agradando em cheio às comunidades conservadoras do interior, sua base eleitoral. Tudo bem que a filha do vice dele é lésbica, mas nesse assunto ninguém toca...

Representantes de um grupo social com bom poder aquisitivo, os gays estão marcando presença em vários setores. Num mundo capitalista, respeitar a escolha sexual é uma questão de mercado, tanto que proliferam pacotes turísticos, canais de TV por assinatura, revistas e outros produtos voltados a esse público.

É certo que há um maior grau de tolerância no mundo, mas ainda falta muito para que os gays não sejam alvo de preconceito, olhares carregados de ódio e comentários maldosos. Mas imagine o que seria do mundo sem eles. Não se trata de dizer que todo gay é bacana - seria uma besteira tão grande quanto afirmar que todo gordo é feliz e toda mulher baixinha é espevitada - mas, pelo menos pra mim, os gays sempre foram uma ótima companhia. Meus amigos gays são basicamente tudo: divertidos, inteligentes e donos de um vocabulário singular - que no final todo mundo acaba adotando.

Se não fossem os gays, a Madonna já teria se aposentado, os concursos de quadrilha junina seriam chatérrimos e até o Rainha das Rainhas não teria tanta graça. E se Tom Hanks foi melhor ator por seu papel de gay em "Filadélfia" e Hilary Swank e Charlize Theron foram melhores atrizes por encarnarem lésbicas em "Meninos não Choram" e "Monstro", vai ser um luxo ver Heath Ledger levantar a estatueta.

(Publicado originalmente em 25 de março de 2006)

Um dia de fúria (uterina)


Quem viu "Um Dia de Fúria" se identificou de cara com as situações estressantes que Michael Douglas enfrenta. É o trânsito que não anda, o supermercado lotado, o sanduíche que sai totalmente diferente do pôster na lanchonete... Então imagine o que é viver tudo isso no mesmo dia, em seqüência, mas sem ter uma arma na mão.

Assim foi o meu Dia Internacional da Mulher. Escrito desse jeito, com as iniciais maiúsculas, até parece grande coisa. Mas além das matérias nos jornais, algum debate promovido pelas entidades de gênero e aquela flor já meio murcha que a gente recebe dos recursos humanos, esse dia só serve para mostrar o quanto a mulher ainda sofre preconceito, mesmo que já tenha provado que consegue se duplicar em vários seres e enfrentar todo tipo de adversidade.

Mas voltemos à minha saga particular. Depois de uma madrugada velando o sono do namorado que sofria os sintomas de uma virose - dor de cabeça e febre - levanto às seis para arrumar a molecada para a escola. Entre toddynhos e mochilas, dois penteados diferentes para produzir em tempo recorde - sim, porque mãe de meninas tem que ser meio personal stylist e saber improvisar até mesmo em cima do básico, no caso o uniforme escolar. Crianças na van, é hora de checar os e-mails e tentar adiantar as tarefas do dia. É quando ligo meu PC e descubro que... Deu bug. Legal, justo no dia em que tinha quatro "frilas" para entregar. Na maior frieza, o técnico diz que o problema é no HD e que o conserto não sai por menos de R$ 300.

Já pronta para encarar o dia, parto rumo ao cyber mais próximo. É lá querecebo a convocação, por e-mail, de uma entrevista para um projeto em que fui selecionada. Mas preciso apresentar também um portfólio básico, que claro, não está na minha bolsa. Volto para casa e descubro que a caçulinha vomitou na escola, mas o pediatra só pode nos atender no meio da tarde. Além de cuidar da ingestão de líquidos, não há nada que eu possa fazer. É quando vejo que meu celular novinho queimou. Peço o celular da babá emprestado e ligo a cobrar para a minha mãe. "Mãe, liga para o jornal e diz que não vai dar para ir hoje, porque parece que o mundo tá desabando...".

Na pressa rumo à entrevista, tomo um ônibus errado. Depois de andar alguns quarteirões que pareciam quilômetros, aparece um táxi. Chego pontualmente. Tudo corre bem, apesar do nervosismo. Preciso voltar correndo. Ué, mas cadê o meu dinheiro? Percebo que saí de casa com apenas alguns trocados, já gastos na corrida do táxi. É quando aparece uma carona amiga, que me deixa na porta do shopping. Lá, a atendente da Oi diz que meu chip faz parte da uma leva que veio com defeito, mas que no momento não pode efetuar a troca. Subo nas tamancas, faço um pequeno escândalo e uma hora depois recebo um novo chip. É claro que o pediatra não esperou todo esse tempo e foi embora.

Como nenhum caixa eletrônico do mundo funcionava, tenho que encarar um ônibus lotado. É quando chego em casa e me deparo com uma pilha de DVDs esperando a devolução. Saio de novo, tomo a maior chuva e, na volta pra casa, decido comprar uma garrafa de vinho. O namorado, felizmente já recuperado do mal-estar, ouve o relato da odisséia e divide a taça de vinho. É quando concluímos que, um dia na vida de uma mulher normal não é para qualquer um. E se Darwin estiver certo na sua teoria da evolução, o nível de aperfeiçoamento feminino será tão grande, que em breve os homens vão acabar sumindo do mapa.

(Publicado originalmente em 11 de março de 2006)

Seria Bono o Papai Noel?


Ele nunca subiu num trio elétrico, não regravou nenhum axé e não sabe por onde passa a boquinha da garrafa, mas já é a principal atração do Carnaval de Salvador. Sim, estamos falando de Bono, o vocalista do U2, que está se esbaldando na folia da capital baiana. Nem o show dos Stones de graça em Copacabana atraiu tantos olhares quanto a inusitada aparição de Bono no camarote 2222, de Gilberto Gil.

Feliz que nem pinto no lixo, Bono ainda arriscou o refrão “chupa toda”, levado por Ivete Sangalo, depois de dividir o microfone com o anfitrião em “No Woman no Cry”, de Bob Marley. E ainda sapecou: “Everybody is a little irish/And I am a lot brazilian” (Todo mundo é um pouco irlandês/E eu sou muito brasileiro). Com fôlego de sobra depois de tocar para mais de 140 mil pessoas nos dois shows em São Paulo - teve fã que ficou a pão e água marcando lugar na fila - a banda chegou a Salvador causando muito burburinho, claro. Jantou com o ministro - e ainda Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Carlinhos Brown, Paulo Souto, governador do Estado, e João Henrique, prefeito da cidade.

A festa teve mais penetra do que celebridade e nas fotos lá está Bono, pequenininho, no meio da multidão que não se intimida em tirar uma casquinha.Vendo as imagens a impressão que dá é que Bono está muito à vontade entre tantos holofotes. Só anda por aí com as janelas do carro abertas, com metade do corpo para fora, acenando para o povo. Cada aparição dele mais parece a chegada do Papai Noel no Mangueirão.

Não é exagero dizer que essa passagem do U2 pelo Brasil já entrou para a história. Não só pelos shows que levaram muitos marmanjos às lágrimas - um amigo confidenciou que não conseguiu ver quase nada por conta da visão “embaçada” durante a apresentação - mas principalmente porque Bono tem atacado em todas as frentes. Almoçou churrasco com o presidente na Granja do Torto (e comeu pudim de tapioca na sobremesa), prometeu doar sua guitarra ao Fome Zero, elogiou a arquitetura de Brasília e ainda teve que aturar Lula defendendo o projeto do biodiesel.

No show transmitido pela TV, falou do hexa na Copa do Mundo, de direitos humanos e deu boas-vindas até para o povo do Amapá. Isso é que é showman.Do jeito que a coisa vai, periga Bono ganhar o Nobel da Paz 2006. Isso porque ele já foi indicado e concorre com outros 190 candidatos. Mas que bom seria se as ótimas intenções do músico ajudassem a resolver os problemas, pelo menos no Brasil. Seca no Nordeste? Tráfico de drogas no Rio? Violência em São Paulo? Chama o Bono e está tudo bem.

Num País que adora cultuar celebridades, Bono tem a platéia ideal para suas peripécias. E segue fazendo escola. Eleita pelo roqueiro para dançar “With or Without You” no palco, Katilce tornou-se a maior celebridade do Orkut em tempo recorde. Durante toda a semana, milhares de scraps por segundo anunciavam desde a venda de carros usados até comunidades indicando a bancária para presidente.

Menor fama ganhou Desiré, que conseguiu a façanha de mudar o repertório da banda ganhando uma palhinha da música “Desire” no segundo show. E até teve paraense agarrando o Bono, só que isso já é uma outra história.

(Publicado originalmente em 25 de fevereiro de 2006)

Why does my heart feel so bad?


A despedida do Olímpia foi mais uma etapa no processo de decadência cultural da Belém da Belle Epoque. Símbolo de uma época de riqueza e glamour, quando ir ao cinema era muito mais do que uma simples diversão, o Olímpia recebeu, em seu último dia de funcionamento, uma homenagem simples, mas que disse muito acerca da atual condição cultural da metrópole da Amazônia.

Um grupo de jovens, inicialmente conectados através do Orkut, se dispôs a assistir a última sessão vestindo traje de gala. As moças de longo, os rapazes de terno e gravata. Mesmo que não fossem roupas de época, o simples de ato de comparecer ao cinema com uma vestimenta especial já provocou uma reflexão. E foi assim que presenciamos o fechamento do mais antigo cinema do País em atividade.

Não se tratou de um protesto, mas sim da vontade de prestar uma homenagem à época áurea das salas de cinema no Pará, quando até sessões à meia-noite eram bastante freqüentadas. No início dos anos 20, Belém tinha doze salas de cinema; hoje são 15, a maioria exibindo produções do cinema comercial.

Como informa Pedro Veriano no livro “Cinema no Tucupi”, que serviu de base para uma pesquisa sobre a história do cinema paraense que realizei no final dos anos 90, o Olympia (ainda como “y”) era freqüentado tanto pela elite que ia ao Theatro da Paz, ao Palace Theatre e ao Grande Hotel quanto pelas “cortesãs amazônicas”.

Hoje, totalmente descaracterizado de seus traços arquitetônicos originais, o Olímpia transformou-se num caixote de concreto cercado de ambulantes, carrinhos de cachorro-quente e pedintes. Sinal dos tempos, foi perdendo público progressivamente, restando aos proprietários a decisão do fechamento. Uma decisão que, de certa forma, já vinha sendo anunciada. Esvaziado de seu sentido histórico e sem configurar-se num legítimo espaço de fomentação e troca de idéias, o Olímpia transformou-se numa espécie de elefante branco da empresa exibidora. Culpar a concorrência das salas dos shoppings é uma forma de tentar ocultar a inexistência de um projeto que garantisse o sentido de renovação e recobrasse o interesse do público.

Nos anos 20, para ir ao Olympia era preciso estar bem vestido. E na noite de quinta-feira, estar ali para assistir a última sessão vestindo um traje de gala foi algo singular. O que antes foi vivenciado como história, hoje só é possível através do fingimento, mas um fingimento que não se ressente da perda do passado.

Da mesma forma, prestar essa homenagem ao Olímpia em seu derradeiro suspiro foi uma maneira de transformar um dia triste num momento que deixasse boas lembranças. Nada mais do que um encontro de amigos, sem lágrimas pelo que se foi, mas com muitas interrogações sobre o que virá.

Vivemos numa cidade em que respiramos saudosismo. Saudade do que não se viveu, nostalgia do que não se testemunhou. A constante evocação de memórias que parecem perdidas numa época distante, pontuadas por fotografias desbotadas que se perderam no fundo de algum baú, cartas amareladas cuja escrita revelaria cenários oníricos, cenas em flashback protagonizadas por rostos anônimos e desfigurados. Gostosa Belém de outrora, Belém da memória, Belém da saudade, Belém do já teve, Belém que não vi.

Apesar dos esforços, hoje é difícil reconhecer Belém nessas imagens. Resgatar o passado apenas para usá-lo como objeto de culto não impulsiona a cidade a olhar para frente. O Olímpia fechou suas portas, encerrando mais um capítulo importante da nossa história, mas o que virá no lugar dele?

(Publicado originalmente em 18 de fevereiro de 2006)


Ah, eu tô moluscha!

Com chapéu de cowboy, óculos coloridos e barba por fazer, Bono Vox mostrou para meio mundo (a outra metade estava dormindo) que o U2 ainda dá as cartas na indústria fonográfica. A banda irlandesa abocanhou cinco troféus - inclusive o de disco do ano, por "How to Dismantle an Atomic Bomb" - na festa do Grammy, que aconteceu na última quarta-feira, em Los Angeles. Mesmo que seja enfadonho, cheio de caras e bocas e com premiações totalmente sem noção, o Grammy é um radar do que os EUA nos empurram goela abaixo quando o assunto é música.

E Bono Vox que me perdoe, mas já faz tempo que o U2 tornou-se apenas mais uma peça dessa engrenagem. Hoje tudo que a banda faz é megalômano, do telão de última geração que acompanha as turnês à performance populista de Bono no palco. Ele foi o cara que chegou aqui e disse: "Ganhem a Copa por nós!", provocando comoção na platéia. E uma semana depois, lá estava Bono na Argentina dizendo a mesma coisa. Por isso, quando vi o tamanho das filas para ver a banda no Brasil cheguei à triste conclusão: o U2 virou mesmo farofa.

Lembro da primeira aparição dos irlandeses por aqui: os engarrafamentos quilométricos e o caos no trânsito obrigaram os cariocas a abandonar seus carros no meio da rua e correr em direção ao local do show, perdendo metade da apresentação. É que o Rio de Janeiro não estava preparado para o U2. Para "pedir desculpas" pelo transtorno, a banda retornou ao Brasil pouco tempo depois, mas dessa vez apenas para gravar uma participação no Fantástico.

Passaram-se sete anos e... mais confusão. Os ingressos, vendidos por telefone, esgotaram-se em apenas sete horas. Fico pensando nos milhares de fãs que passaram o dia pendurados no telefone e não conseguiram nada.

Não é exagero dizer que o U2 representou para a geração dos anos 80 o mesmo que Led Zeppelin e Pink Floyd foram para os hippies dos anos 70. Com discos impecáveis, como "Boy", "War" e "The Joshua Tree" (este de 1987, quando a banda foi capa da "Time"), Bono e sua turma mostraram que era possível unir o vigor do punk com letras contundentes e melodias arrebatadoras. E ainda tinha a guitarra do The Edge, que ainda hoje é imitada por bandas que despontam no cenário hype.

Em Belém era quase impossível não tropeçar em fãs do U2 a cada esquina. Foi por causa de músicas como "New Years Day", "With or Without You" e "Sunday Bloody Sunday" que muita gente quis aprender a tocar violão, mesmo que isso não fosse dar em nada. Eu mesma tive uma festa surpresa de aniversário animada por um cover do U2, formado por amigos que se deram ao trabalho de ensaiar várias músicas da banda e, com o figurino devidamente copiado de um pôster gigante, fizeram uma apresentação no terraço da minha casa. Esse dia está entre os dez mais legais da minha vida.

Acontece que o tempo passou e o U2, inacreditavelmente, conseguiu diluir a própria obra. Como toda fã, relutei bastante antes de reconhecer isso. Cada disco que chegava era saudado por uma resenha festiva, mas depois não sobrevivia a uma audição mais atenta. Na verdade, tudo não passava de uma sombra do que a banda fez nos seus áureos tempos.

Cheio de boas intenções, Bono hoje me chama mais atenção pelo seu ativismo ao redor do mundo. Pai de família dedicado, marido fiel, ele é um exemplo perfeito do tal übersexual e não tem nada a ver com a imagem do roqueiro que se mete em confusão a cada esquina.

Mas apesar de tudo isso, acho que não iria resistir se visse a banda tocando ao vivo músicas como "Beautiful Day" (a mais vibrante entre as composições recentes), "Pride" e "Where The Streets Have No Name". Aliás, se algum amigo conseguir ir ao show, já me sentirei bem representada.

(Publicado originalmente em 11 de fevereiro de 2006)




Eu não quero ter um milhão de amigos


Durante um bom tempo achei que o Orkut era coisa de gente idiota. Talvez seja mesmo, afinal, é pura perda de tempo ficar fuçando a vida alheia lendo perfis cuidadosamente elaborados para causar a impressão de que se é super interessante.

No mundo virtual todo mundo parece extremamente feliz, colorido, cheio de projetos originais e referências impronunciáveis (basta dar uma olhada nas comunidades selecionadas por cada um). Ou, ao contrário, há quem prefira fazer a linha “a vida não presta” e publicar fotos P&B com um jeitão desleixado e aquele olhar perdido no horizonte. Tudo muito fake, tudo proposta.

E isso sem falar da estranha contagem de amigos. Parece até uma competição de pessoas carentes, querendo somar um milhão de amigos a todo custo.

Acontece que a realidade é bem diferente. A rotina de 99% da humanidade (a Paris Hilton está fora dessa estatística) é feita de coisas prosaicas. Que graça tem acordar, tomar café com pão, seguir para o trabalho - ou a escola - enfrentar o trânsito, fazer uma prova, ouvir música, fritar um ovo? Mas, graças à internet, todos podem ter (ou pelo menos aparentar que têm) uma vida super divertida, emocionante mesmo. Caramba.

Um belo dia, durante as férias, resolvi entrar na tal rede de relacionamentos. Para minha surpresa, em menos de meia hora diante do computador, dei de cara com vários amigos que há anos vivem fora de Belém. Pessoas de quem eu havia perdido contato, endereço, e-mail. Aí foi uma festa, para não dizer um vício. Trocamos fotos, mensagens carinhosas, fizemos mil planos de reencontro. Segui diariamente procurando outros amigos, virei rato do Orkut.
E rapidinho minha rede chegou a mais de 150 pessoas. É claro que no meio de todo esse povo existem os amigos, os colegas, os conhecidos. Mas no Orkut fica tudo misturado assim mesmo.

As festas de fim de ano estão trazendo a Belém algumas dessas pessoas que eu não via há um tempão. Claro que elas viriam rever suas famílias, mas se não fosse o Orkut, provavelmente nossas chances de reencontro seriam quase zero. Dia desses, quando estava caminhando para o trabalho (existe algo mais trivial?), me toquei do quanto me sentia feliz pela oportunidade de vê-las de novo. E isso depois de anos e anos de silêncio e distância.

Muitos pesquisadores já tentaram explicar sentimentos como amizade, carinho, ternura. Mas eles ainda estão engatinhando. E ainda mais no Brasil, onde todo mundo tem a mania de chamar de amigo quem mal conhece - seja o garçom ou o flanelinha. Com essa história toda de Orkut, percebi que as amizades longas são as que contam. E que isso está além das explicações racionais.

Decifrar a química da amizade é algo complexo. Você não precisa ser idêntico ao amigo: é importante que haja o confronto, mas sem criar abismos intransponíveis. Amigo é quem pode falar aquilo que não gostamos de ouvir. E mesmo assim conseguimos superar a mágoa. Amigo pede grana emprestada, dá vexame quando toma um porre, liga no meio da madrugada quando está mal e pode até não te dar presente nenhum de aniversário. Ou seja: amigo dá um trabalhão. Mas aí 15 anos depois você ainda se diverte lembrando de alguma cena que ele involuntariamente protagonizou.

Na amizade verdadeira, o tempo é contingência. Não afasta, apenas vai adiando as coisas. Não, não quero ter um milhão de amigos. Quero apenas sentir que, de alguma forma muito especial, ainda é possível manter vínculos de verdade. E quanto aos milhões de quilômetros do mapa, o Orkut está aí pra isso mesmo.

(Publicado originalmente em 17 de dezembro de 2005)

The Gang of Love


Essa semana esteve em Belém uma das coordenadoras da Federação Brasileira de Amor Exigente. Sem procurar saber o que significa o trabalho do grupo, comecei a imaginar o que seria do mundo se todos resolvessem instaurar esse critério nos seus relacionamentos íntimos, ou seja, apenas exigir.

Parece loucura, e é mesmo. Isso porque namorar, cortejar, desejar muito alguém, encantar-se pelo outro, é uma das coisas mais legais dessa vida. E os solteiros e mal-amados que me perdoem, mas esse papo de solidão é uma chatice. Para provar minha teoria, elaborei uma pequena lista, com a colaboração da minha amiga Carol, das coisas mais bacanas que se pode fazer quando se está namorando. Enjoy.

Alugar filmes para assistir terça à tarde em casa;

Comprar uma caixa de chocolates, sentar na cama, contar até cinco e então cada um pega o que puder. Depois brincar de fazer as trocas. Algo como uma serenata de amor por dois beijos;

Ter um plug de walkman e ligar dois fones ao mesmo tempo para ouvir os CDs juntos;

Trocar um milhão de mensagens pelo celular até a caixa postal explodir;

Ver o show da sua banda favorita e dançar coladinho, mesmo que a música seja o maior rock’n’roll;

Esperar a chuva cair e sair correndo pelas ruas de mãos dadas, trocando beijos;

Trocar a camisola por uma camisa dele para dormir;

Comprar calcinhas comestíveis e fazer uma surpresa num dia qualquer, sem data para comemorar;

Pedir que ele abotoe o sutiã;

Deixar que ele desabotoe o sutiã;

Aprender a cozinhar juntos;

Levar café na cama;

Lavar a louça juntos;

Ter uma foto dele bebezinho;

Ligar às três da manhã para dizer que a cama parece um deserto sem ele;

Publicar uma foto bem meiga dos dois juntos no Orkut, no msn, no blog e no fotolog;

Aprender escondido a fazer um striptease e revelar o segredo numa noite especial;

Tomar vinho e conversar até altas horas;

Ir à praia e ficar tostando no sol porque, entre um beijo e outro, não deu tempo de passar protetor solar;

Conquistar a mãe dele a ponto de ela amar você;

Falar que nem bebexinho;

Deixar que ele escolha o vestido que você vai usar;

Fazer massagem antes de dormir,

Delirar imaginando o que fariam se ganhassem na loto;

Deitar junto na rede;

Escolher os apelidos fofinhos que só vocês vão entender;

Ver o pôr-do-sol em qualquer beira de rio;

Elaborar fugas infalíveis para ir ao cinema no horário do trabalho;

Perder o final do filme porque estavam se beijando;

Ensinar coisas que ele não sabe e aprender outras tantas;

Não ter vergonha de pedir uma boneca Moranguinho de presente de Natal;

Ficar de molho juntos na banheira;

Dar amassos em locais improváveis;

Escrever cartas de amor do tamanho de uma cartolina;

Fazer mil planos. De dividir um aluguel ao roteiro da lua-de-mel;

Combinar os tênis all star;

Raspar a cabeça juntos e fazer a mesma tatuagem;

Tomar uma cerveja e fingir que está bêbada só para fazer declarações de amor absurdas;

E quando você ficar bêbada de verdade, saber que ele vai ficar cuidando de você, mesmo que esteja vomitando de cinco em cinco minutos;

Aprender a fumar cachimbo só para fazer companhia para ele;

Pedir para ele pintar o seu cabelo - e ir com a testa toda manchada de tinta para o trabalho, mas feliz da vida;

Ganhar um abraço quando está triste, chateada com o mundo ou simplesmente de TPM;

Vê-lo apresentar você como a mulher da vida dele numa roda de amigos;

Admitir que o Michael Stipe não é mais o homem da sua vida.

(Publicado originalmente em 04 de fevereiro de 2006)

Eu quero ser o Snuppy


O primeiro cão clonado do mundo, chamado Snuppy, foi considerado a invenção “mais espetacular de 2005”, de acordo com a revista norte-americana “Time”. No site da revista dá para ver uma imagem do tal cachorrinho: um filhote de Afghan Hound, de cinco meses. Snuppy foi clonado na Universidade Nacional de Seul, na Coréia do Sul, por uma equipe de 45 pessoas. Seus gens foram retirados de uma única célula da orelha de um cachorro adulto.

A técnica, a mesma utilizada pelos pesquisadores britânicos que criaram a ovelha Dolly, bem que poderia já estar sendo aplicada em seres humanos. Vamos deixar de lado os questinamentos morais, éticos, religiosos, etc. Quem não gostaria de ter um clone à disposição para dar uma forcinha na rotina amalucada de hoje em dia? Imagine ficar em casa vendo os DVDs que você sempre aluga, mas nunca tem tempo de assistir (e pelos quais acaba pagando), enquanto o clone vai ao banco, passa no supermercado, participa da reunião de pais na escola, faz umas horinhas extras na empresa? Aí, sim, finalmente você teria tempo de ler aquele livro que está há semanas encostado num canto da estante, daria um bom trato no visual, responderia a todos os e-mails...

Eu mesma já adotei, pelo menos mentalmente, a estratégia de ter um clone. Naqueles dias em que tudo parece dar errado, não sou eu quem está ali vivendo as situações de estresse. Simplesmente imagino que sou o meu clone e que eu mesma (a verdadeira, não a cópia) estou na praia com as crianças ou vendo algum show bacana. Parece loucura. Mas pelo menos por enquanto tem funcionado. Tenho 15 textos para escrever e mais uns trocentos para revisar? Chamo o clone e passo a bola. A semana ainda nem começou e minha lista de coisas a fazer já está interminável? Tudo bem, o clone resolve.

Outra possibilidade é ter oito braços. Tal qual aquela clássica imagem criada por Leonardo da Vinci, teríamos oito membros superiores: um para atender o celular, dois para navegar na internet, dois para dirigir, mais um para mudar a faixa do CD... Mas como ninguém ia querer ficar com uma aparência monstruosa, acho que a opção do clone é a mais viável.

Só que aí temos outro problema: quem garante que o clone não acabaria se rebelando? Afinal, ele só seria convocado para o trabalho pesado, enquanto nós, as versões originais, ficaríamos lindas, leves e soltas no bem bom. Não são poucos os filmes de ficção científica que mostram esse enredo nada tranqüilizante. De “Blade Runner” a “Inteligência Artificial”, os clones (ou andróides), sem nenhuma maturidade emocional, acabam ultrapassando os limites, desobedecendo ordens e tornando a vida bem mais complicada.

No Orkut proliferam comunidades reunindo pessoas que desejam desesperadamente ter um clone. É o celular que não pára de tocar, são as mil opções de balada no final de semana, é o acúmulo de obrigações em conflito com os ponteiros do relógio. A verdade é que todo mundo reclama da falta de tempo. E as revistas de comportamento não cansam de exibir entrevistas com pessoas que, já com uma certa estabilidade financeira, trocam sem culpa a correria do dia-a-dia por uma rotina com mais qualidade de vida. É aquela clássica história da figura que largou o escritório no centro de São Paulo por uma pousada em Itacaré.

Maravilhoso, não? O problema é que, na vida real, ninguém consegue chegar a esse nível de estabilidade antes dos 50. E até lá é preciso, sim, ser maratonista. Ou então implorar aos cientistas para ser clonado.


(Publicado originalmente em 03 de dezembro de 2005)

A mulher ensangüentada


Hematomas e perfurações. Marcas de queimadura na cabeça e na parte interna das coxas. Uma das orelhas dilacerada. Essa é a descrição do corpo da pequena Marielma, de apenas onze anos, violentada e espancada até a morte há exatamente uma semana em Belém. O crime que tem ocupado as manchetes dos jornais, sobrepondo-se em alguns momentos à atual crise política na qual o país está atolado até o pescoço, é mais um exemplo da violência sintomática que se espalha pela cidade. E que faz dos pequenos suas piores vítimas.

A memória não dá conta de enumerar todos os casos mais recentes. Que tal achar no lixo do supermercado o corpo de Bruna, que cometeu o erro fatal de se encontrar com alguém que conheceu pela internet? Ou viver em Goianésia do Pará, uma cidade totalmente destruída pela revolta popular, depois do assassinato de Taynifin Caroline, de cinco anos, cujo corpo foi encontrado em decomposição sete dias depois de seu desaparecimento?

Nesse clima de terror ouvi o relato de uma mãe que descobriu que seus filhos estavam sendo maltratados pela babá. Além de negar-lhes o direito de brincar, ela se dirigia às crianças sempre gritando e obrigava-as a arrumar o apartamento. Caso contrário, seriam entregues a uma “mulher ensangüentada”, que estaria escondida dentro do quarto pronta para atacá-los ao menor sinal de desobediência.

Fiquei pensando no pânico provocado na mente daquelas crianças, com oito e três anos de idade, ao imaginarem uma mulher mutilada, se esvaindo em sangue, à espreita atrás da porta. Eu mesma não consigo suportar tal idéia. É mesmo que isso não se compare à violência contra as crianças que ocupa as páginas dos jornais, é uma situação revoltante para quem ama seus filhos.

Contrariando as campanhas politicamente corretas, a mãe das meninas não fez nenhuma denúncia. Apenas dispensou a babá, com a esperança de não vê-la nunca mais. Para ela, o pior é a sensação de impotência, de não ter a quem recorrer. Afinal, quem vai se ocupar de punir uma babá que oprime crianças com gritos e histórias de terror enquanto centenas de meninos e meninas estão sendo amarrados, violentados, espancados até a morte? Já virou lugar-comum nas salas das delegacias: quem registra casos de violência contra a criança se depara diariamente com a total falta de estrutura e sensibilidade.

E de que adiantam patrulhas, programas de combate à violência, reabilitação de presos, helicópteros ou carros, se casas podem se transformar em sinistros cativeiros com a omissão da vizinhança, ou seja, de tantos outros pais; se a exploração do trabalho infantil persiste na região como prática remanescente da escravidão no país; se o lado obscuro de uma família comum pode envolver tranquilamente crianças em uma ciranda de horrores?

De que adiantou Marielma vir ao mundo para ver sua própria vida entregue ao acaso, sem que ninguém se importasse com as marcas de violência que apareciam pelo seu corpo? A quem pedir socorro enquanto era atingida por um banco de madeira até esvair-se em sangue e perder a consciência? Que experiência de infância ela poderia ter ao ser obrigada a atear fogo à própria vagina? Ou ser estuprada por um homem que tem dez vezes o seu tamanho?

Na escuridão da noite, no barulho das festas, no caos do trânsito, a cidade segue seu ritmo. Figurões tomam seu uísque num boteco chique, artistas jogam conversa fora, um mendigo cata lixo na esquina. Enquanto isso, Marielma está sozinha. Se pudesse olhar a si mesma, seria a própria imagem do terror. Era ela a mulher ensangüentada.

(Publicado originalmente em 19 de novembro de 2005)

Meninas Superpoderosas


Um novo conceito de homem chegou ao Brasil esta semana depois de uma pesquisa em São Paulo: é o übersexual. Espécie de príncipe encantando do mundo pós-moderno, o cara é quase perfeito: bem cuidado, sensível, fiel a seus princípios e às companheiras, sofisticado e amoroso. E quem pensava que o grande lance agora era ser metrossexual...

Na verdade os metrossexuais, de tão vaidosos, acabaram se tornando uma espécie de melhor amiga da gente - mesmo que não sejam necessariamente gays. Alguém com quem conversar sobre o último lançamento em esfoliação, as novas técnicas do pilates, a chapinha ultradefinitiva. É que entrar no salão e dar de cara com seu pretenso futuro pretê tirando a sobrancelha ou depilando os pêlos do peito é um pouco forte demais, não acham?

O curioso é que, na contramão de toda essa vaidade masculina, se multiplicam por aí exemplos de garotas que cansaram de ser sexies o tempo inteiro, nem sonham em colocar silicone, defendem o direito de ter barriguinha de cerveja e preferem um milhão de vezes sair com um amigo gay do que aturar aquele cara de ego e peito inflados que simplesmente se acha o máximo. São garotas que não dão bola para esse papo de príncipe encantado - ou pelo menos percebem muito rápido a porção sapo que existe em cada um. E logo, logo caem fora.

Não tenho estatísticas do IBGE, mas quase todas as minhas amigas já passaram por esse processo: namoraram, casaram, algumas até tiveram bebês, mas todas se separaram muito rápido. São mães solteiras ou “pai e mãe de família”, como algumas costumam dizer - e sem trauma nenhum por assumirem essa opção. Na verdade, pelas minhas estatísticas, um casamento moderno hoje em dia não dura mais do que três anos, em média. Bem diferente do tempo de nossas avós.

O que vai acontecer depois? Impossível saber. A conseqüência mais imediata e visível é a formação de famílias nada convencionais, em que as crianças convivem com os pais, os namorados dos pais, os pais dos namorados dos pais... E a árvore genealógica, que já era uma coisa meio complicada de se entender desde os tempos da escola, se multiplica numa velocidade incrível, de uma hora para outra.

A essa altura, com as garotas empunhando a bandeira das mudanças (sim, elas trabalham, cuidam da casa, dos filhos e ainda conseguem namorar e se divertir sem culpa), tem muito cara sem saber mesmo como se comportar. Dividir as tarefas domésticas é bacana, mas isso é apenas o primeiro passo. Dar uma de emo-boy, aquele carinha descolado, que faz o tipo indefeso só para ganhar colinho das mulheres, também não está com nada. É que logo a gente percebe que se trata de um golpe. E ninguém quer arrumar mais um filho para cuidar.

Voltando ao tal übersexual, topar com um cara desses na rua pode levar um tempão, até porque é uma espécie, digamos que ainda em formação, talvez criada em cativeiros secretos lá pelas bandas da Groelândia. Quem já descobriu o seu, me faça o favor de guardar segredo, para evitar a concorrência.

Preocupados com a repercussão do assunto entre as mulheres, alguns amigos meus criaram até um outro conceito, o entressexual, aquele que está se esforçando para ser über, não chega a ser metro e quer se livrar dos resquícios da herança ogrossexual. Enquanto isso, descoladas e independentes, as garotas não páram de aumentar o nível de exigência. E o que dizer do ogro?

Na velocidade de tantas mudanças, o velho machão bem que poderia estar com os dias contados.

(Publicado originalmente em 5 de novembro de 2005)



No front da cultura pop


O relógio marcava meia-noite em São Paulo quando os Strokes iniciaram os primeiros acordes de “What Ever Happened”, anunciando que o show mais esperado do Tim Festival estava apenas começando. Quem estava disperso, ainda viajando ao som do Kings of Leon, rapidamente se juntou à gigantesca parede humana que a essa altura já acompanhava a banda nova-iorquina com toda a força dos pulmões.

Chegamos cedo à Arena Skol Anhembi para acompanhar de perto a movimentação do público. E os Strokes já estavam ali, nos comentários ansiosos dos fãs, nas camisetas com o nome da banda, no visual de dezenas de meninos vestidos como Julian Casablancas - jeans surrado, all star já meio gasto, terninho e o cabelo cuidadosamente despenteado. A impressão é que havia vários sósias dos caras andando de um lado para o outro. Entre as meninas, versões modernas de Cindy Lauper, patricinhas, punks de boutique... Todos com uma excitação difícil de disfarçar.

E mesmo que o Arcade Fire tenha surpreendido, a noite foi mesmo dos Strokes. Do início ao fim do show, o que se viu ali foi uma seqüência impecável de hits, detonados sem pausa para o descanso. Cerca de 24 mil pessoas entraram numa espécie de transe, seguindo os acordes de “12:51”, “New York City Cops”, “Soma”, “Automatic Stop” e “Last Nite”, só para citar alguns. Ao final do show, que teve direito a “Hard to Explain”, “The Modern Age” e “Reptilia” no bis, além de uma despedida do brasileiro Fabrizio Moreti - “Boa noite, meus irmãos brasileiros” - pouca gente deu bola para os DJs que ainda faziam parte da programação. O estado de êxtase era absoluto.

Não é exagero dizer que a aparição dos Strokes no Brasil foi a mais desejada do calendário pop nos últimos anos. Tudo bem, em 2005 tivemos Weezer (na esteira de um disco fraquinho) e vêm por aí Pearl Jam (com uns dez anos de atraso), Iggy Pop (ou o que restou dele) e bandas com menos carisma, como Nine Inch Nails. Mas quem estava no Tim Festival teve a rara oportunidade - pelo menos no Brasil - de presenciar a força de uma banda no auge de uma carreira vertiginosa, dona de dois álbuns sem concessões e apontada como a redenção do rock nos anos 00. Isso não é pouca coisa.

A primeira vez que ouvi Strokes foi há uns quatro anos, quando um amigo inglês trouxe de Londres um CD com umas cinco músicas dos caras. Não deu pra ficar imune. Um tempo depois e era lançado no Brasil “Is This It”, um dos álbuns mais perfeitos de todos os tempos. Graças à ele, Julian, Nikolai, Nick, Fabrizio e Albert abriram caminho para nomes como Franz Ferdinand, Libertines, Interpol, The Kills, The Killers e outra pá de bandas que tomaram de assalto os ouvidos de mundo underground e a MTV.

Nada daquela chatice megalomaníaca do Oasis, fora com a autopiedade do Coldplay, sem essa de baú sem fundo do Nirvana. O papo aqui é outro. Punk, pós-punk, guitarras sujas e aquele vocal que parece sair arrancando o coração. E quem dizia que o rock estava morto ou que a música eletrônica era a grande tábua de salvação voltou a dançar tocando guitarra imaginária nos inferninhos da vida.

No dia seguinte, ainda sob o “efeito strokeano”, demos uma volta pela lendária Galeria do Rock. Enquanto escolhia um CD, ouvi o atendente da loja contar que aquele foi o melhor show de sua vida. Entre bottons do Sex Pistols, pôsters do Morrissey e camisetas do Jesus and Mary Chain, tivemos a certeza de que o rock continua sendo, como diria o veterano jornalista Tony Parsons, uma segunda infância para a maioria de nós. Uma desculpa para sermos livres e nos comportarmos mal enquanto sonhamos com um mundo melhor.

(Publicado originalmente em 29 de outubro de 2005)


The Kills, armados e perigosos


Quem já deu uma olhada no clipe de “The Good Ones” sacou tudo de primeira: The Kills é uma banda sexy, cheia de segundas intenções e com uma pegada rock difícil de ignorar. Esse climão percorre todo o disco “No Wow”, que chega até o Brasil pela Trama. Botas pretas, calças de couro costuradas no corpo, aquele fumacê saindo pelos poros e uma guitarra suja, mas tão suja, que faz o Franz Ferdinand e outras bandinhas da hora parecem trilha sonora de playground.

Não por acaso, no quesito performance ao vivo, o The Kills vem sendo apontado como uma das novidades mais incríveis da atualidade. Parece muito? Essa história começou em 1999, quando Alison Mosshart encontrou Jamie Hince pela primeira vez. Faíscas soltas pelo ar, hecatombes... rolou uma química. Dezenas de cartas, fitas e idéias foram trocadas durante um ano, até que Alison trocou seu nome para VV e voou para Londres para encontrar Hotel, sim, o novo nome de Jamie.

O que veio depois parece roteiro de filme: os dois alugaram um carro com apenas guitarra, amplificador e bateria eletrônica no porta-malas e partiram em turnê pelos EUA. De volta a Londres, gravaram “Keep On The Mean Side”, o disco de estréia, com produção de Liam Watson, o mesmo do maravilhoso “Elephant”, do White Stripes. Vieram turnês pela Europa, Japão e EUA - e logo a banda entrou na lista das grandes revelações de 2003. Não demorou muito e veio o segundo disco.

“As pessoas dizem que o nosso primeiro álbum não tem gordura, é apenas pele e ossos”, diz Hotel. “Neste, resolvemos tirar até a pele, os ossos e deixar apenas o coração... Cada música é um pequeno coração pulsante”.

Junte o clima da Nova York decadente dos anos 60, Andy Warhol, Velvet Underground e Jesus And Mary Chain. Bom, assim já dá para começar a ter uma idéia do se trata. “No Wow” é sujo, não tem meio-termo e vai direto ao ponto. Algo como andar no limite entre CBGB e o Studio 54.

Não dá para ignorar que os dois também beberam na fonte de “To Bring You My Love”, excêntrico disco da não menos excêntrica PJ Harvey, a ex-senhora Nick Cave. Mas aí você ouve os dois discos na seqüência e depois toma uma boa garrafa de vinho para comemorar que o rock, mais uma vez, está salvo.

(Publicado originalmente em 13 de setembro de 2005)

Tesouros dos Libertines para os fãs


Uma pequena multidão de fãs se espreme no gargarejo. Os cabelos coloridos dão o tom rebelde ao muitas vezes comportado visual nipônico. No palco, dois caras empunham suas guitarras e mandam ver um rock sem firulas, pequenos golpes mortais que vão direto na moleira. O mais alto é o vocalista Pete Doherty, que com um indisfarçável ar de trêbado, entra em sintonia com a platéia. Lê bilhetinhos, troca cigarros com os fãs, faz a alegria da galera. Ao lado dele está Carl Barat, também vocalista, só que com uma postura muito mais contida.

Esses são os primeiros minutos do dvd “The Libertines”, que acaba de sair no Brasil pela Trama. O show ao vivo na Factory (Japão) traz apenas cinco músicas - “What a Waster”, “Death on The Stairs”, “Up The Bracket” (que leva os japoneses ao delírio), “I Get Along” e “The Boy Looked at Johnny”, com direito a coro de lá-lá-lás - mas é uma oportunidade para conferir a performance ao vivo da banda inglesa formada em 2001. A primeira impressão: as músicas do Libertines funcionam muito bem ao vivo. A segunda: os dois caras tinham uma química perfeita no palco. Algo entre a cumplicidade, a raiva e o nervosismo. Talvez porque as apresentações tenham acontecido num momento em que Pete protagonizava vários escândalos em seqüência - como ter roubado a casa de Carl para sustentar seu vício em heroína. Ah, a banda é formada ainda pelo baixista John Hassall e o baterista Garry - mas, sinceramente, eles parecem figurantes.

O disco homônimo, que chegou por aqui no final do ano passado, já comprovava essa teoria. Eleita pelas maiores autoridades da música pop na Inglaterra, como o semanário NME, a rádio BBC 1 e a gravadora Rough Trade (que descobriu os Smiths e os Strokes), a banda passou pelo lendário teste de fogo do segundo álbum, depois de estourar com “Up The Bracket”, produzido pelo guitarrista Mick Jones, do The Clash. Canções como “Can’t Stand Me Now” (Você Não Me Suporta Agora) e “What Became of the Likely Lads?” (O Que Aconteceu Com os Sonhos que Tínhamos?) revelam o clima que rolou no estúdio, explicitando a relação de amor e ódio entre Doherty e Barat, amigos de muito tempo.

Ainda sobre o DVD: além do show no Japão, o disco traz entrevista e making of gravados em momentos distintos, todos antes da demissão definitiva de Doherty, no final do ano passado, praticamente às vésperas da passagem da banda pelo Brasil. Tem uma pequena apresentação no clube espanhol Moby Dick - onde a banda fica literalmente cara a cara com o público e tem o palco invadido pelos fãs; uma aparição pra lá de intimista chamada “Busking for Beer”, no pequeno pub Filthy MacNasty, onde aparecem apenas Carl e Pete com uma guitarra e um violão filmados por algum fã inveterado e acompanhados por outro grupo de fãs inveterados.

O making of do videoclipe de “Can’t Stand Me Now” (o único do dvd) é um dos momentos mais bacanas do disquinho e mostra os bastidores do show em que o clipe foi filmado. “Scenes From The Forum” revela a expectativa dos fãs fazendo fila e também o nervosismo do grupo antes da apresentação, que teve um final inusitado. Depois de se acabar na festa no backstage, Pete surge sem camisa, cambaleando, até se jogar no chão, cantarolando “What Became of the Likely Lads?”.

Completam o DVD uma galeria de fotos, uma entrevista com os músicos e imagens da banda recebendo o NME Awards 2004, com direito a discurso de Pete - chapadão, lógico, só para não perder o costume. Divertido e fiel ao espírito “nada pode parar o rock’n’roll”, o dvd do Libertines só tem uma coisa chata: mostra que a banda nunca mais vai ser tão legal depois da saída de Pete.


(Publicado orinalmente em 24 de maio de 2005)

A batida perfeita tem sotaque paraense


A aparelhagem paraense está ganhando o mundo. Pelas mãos do DJ Dolores, pernambucano registrado Helder Aragão, o som das guitarradas já fez gringo dançar nos clubes descolados da Europa e dos Estados Unidos. Garimpador das manifestações de gueto ao redor do planeta, Dolores lança agora seu segundo disco, não por acaso batizado de “Aparelhagem”, que traz duas músicas inspiradas nas criações de Vieira, Aldo e Curica. “O nome do CD é totalmente uma citação daí”, explica o DJ, em entrevista exclusiva e muito bem humorada.

Para ele, aparelhagem não é nada mais do que o abrasileiramento do sound system que agrega artistas de todas as etnias musicais. Música do interior, da cidade, dos coletivos, das comunidades. Sem rótulos e amarras, DJ Dolores sente-se livre para criar e instigar os ouvidos com sua produção eletrônica que subverte os padrões, que foge das convenções.

O resultado chega no ritmo acelerado dos blips e tóins que movimentam os neurônios. Dolores tem sido premiado pelo público e pela crítica - recentemente abocanhou o BBC Awards 2004 na categoria Club Global - e agora vive com os pés fora do Brasil, em turnês que vão de Nova York à Eslovênia. Para dar conta de tudo isso, “Aparelhagem” tem lançamento mundial, através do selo belga Crammed Discs/Ziriguiboom. Conectado às mídias que disseminam sua criatividade, DJ Dolores agora tem a palavra:

"Aparelhagem" vem sendo apontado pela imprensa como porta-voz do que você chama de “eletrônica de pobre”. O que seria esse conceito?
(Risos). Falo do jeito que os territórios de periferia se apossam das novas tecnologias. Aí no Pará tem o tecnobrega, os caras fazendo música de bailes que reúnem milhares de pessoas, produzindo com quase nenhum recurso, tudo basicamente digital, com um programa, um PC. Paralelos a esse movimento tem o pessoal de Angola, os imigrantes indianos na Inglaterra, que fazem um estilo chamado banghra. O acid house e o hip hop também são eletrônica de pobre, música feita com tecnologia bem barata. É isso que me interessa, muito mais do que o medalhão de d&b. São os caras que se apropriam daquela máquina de um jeito diferente e deixam ali um pouco do seu rastro cultural.


Foram várias turnês na Europa nos últimos meses. Como essas viagens contribuíram para a sua sonoridade?
Quando se conhece pessoas de culturas diferentes, quando dá para ir a clubes diferentes, você acaba convivendo com outros pontos de vista sobre o modo de produzir música, não dá para sair impune de um encontro desse. Obviamente isso me afeta profundamente. Um parte significativa desse disco é resultado de uma viagem para Belém, quando conheci Aldo Sena e Mestre Vieira.

Como você conheceu o tecnobrega?
Conheci através do Hermano Vianna, que me apresentou algumas coisas. Adoro essa cultura do Pará há muito tempo. Desde pequeno ouço as guitarradas, ainda hoje toca na AM. Acho incrível como esse tipo de música ainda é associada à idéia de brega, de fuleiragem, porque é uma música muito fina, muito sofisticada. Já toquei guitarradas em Chicago, uma faixa de Aldo Sena, o “Melô do Tibúrcio”, acelerando o peach, para todo aquele público que já viu os melhores DJs do mundo. O Aldo Sena é um cara sofisticado, um guitarrista sensível. Acho incrível como o preconceito cega, mas essa é uma forma conflito de classe social, da alta cultura, que divide o que é som de pobre do que é som de rico.

Você tem discos de tecnobrega em casa?
Tenho essas compilações de camelô. Toda vez que um amigo viaja para Belém peço que ele compre pra mim. Estou produzindo um show com o Beto Metralha, vamos fazer um dia no Sesc Pompéia, será no dia 13 de maio, com tecnobrega e mais um DJ de Nova York descendente de indiano.

Em maio você estará no megafestival inglês Glastonbury. Como vê o potencial para a nova música brasileira na Europa?
Dizer que é a bola da vez é um estereótipo, mas é verdade que o europeu está receptivo a qualquer música bacana bem feita. A música brasileira tem uma coisa sofisticada, quase um selo de qualidade. Por um lado isso é ruim, quando se concentra somente no estereótipo do samba, da bossa nova e das mulheres gostosas, mas a princípio acaba sendo muito mais positivo.

Em entrevista à Folha de São Paulo, o diretor do selo belga Crammed, responsável pelo lançamento mundial do seu disco, disse que essa percepção começou com a turnê de Chico Science na Europa, há dez anos. Você concorda?
Sem dúvida nenhuma a grande turnê de Chico Science foi fundamental para criar uma nova referência da música feita no Brasil. Em 2003, fizemos uma turnê com a Santa Massa, foram 37 cidades de uma tacada só, tocando quase que diariamente. Gente como o Marcelo D2 também ajuda a quebrar um pouquinho esse estereótipo. Quando toco influenciado pela música de Belém do Pará, nego se espanta e pergunta: “Mas isso aí é no Brasil? Parece africano, caribenho”. E eu digo: “Não, isso não é guitarrinha africana; é guitarrinha paraense” (risos).

Você acabou de tocar no encerramento do Abril Pro Rock e também subiu no trio elétrico no Skol Beats. Como tem sido as apresentações ao vivo do novo repertório, já que você também está acompanhado por uma nova trupe?
O show foi basicamente esse disco, música eletrônica, sampler e voz, música do Pará, do México. Aparelhagem é o nome do projeto, demorei um ano para montar essa banda, para chegar a essa formação e levar o disco para o palco. Não tenho muita preocupação que soe igual, porque o disco, quanto mais sutileza tiver, talvez demore mais a vida útil dele. Já o show é mais objetivo, é mais porrada, para fazer as pessoas dançarem. Eu tenho algumas composições, mas não sou musicista, não toco nada, não canto e chamo as pessoas para executarem as idéias, dou um trato na sonoridade geral. Esse é um disco bastante autoral, tem mais de 20 músicos participando, enquanto na banda somos apenas seis pessoas.

Por que você deixou a Orquestra Santa Massa?
Como não sou músico, fazer um disco é que nem fazer um filme, é como um diretor que monta um elenco em função de um conceito. A Santa Massa foi uma banda inventada em função de um conceito. Os meninos são músicos maravilhosos, todos têm trabalhos individuais, fizeram contatos no exterior, estão viajando.

E a relação com Isaar França?
Isaar era do Comadre Florzinha e largou o grupo para vir trabalhar comigo. A gente tem uma empatia grande, uma relação muito forte, ela é minha principal parceira nesse disco. Estamos trabalhando realmente juntos, ela é a crooner, é a cara da banda.

Além da experiência como produtor, você disse que pela primeira vez teve grana para chamar os músicos que quisesse...
Juntei dinheiro da turnê de 2003 e consegui algum apoio por fora, mas foi basicamente tudo pago do meu bolso. Pela primeira vez pude trabalhar pagando estúdio legal, todos os músicos e técnicos foram pagos, nada foi na brodagem, então eu podia exigir muito dos caras porque estava pagando (risos). É um trabalho artístico, mas também uma empreitada, um trabalho empresarial, profissional. Essa é a minha profissão, tenho que me concentrar, saber se estou fazendo uma coisa que expressa uma cultura, uma identidade, mas não posso tirar o pé do chão. Sei que aquilo é só um produto, não me ofende quando a pessoa diz que não gosta.

Quais seriam os principais pontos de convergência entre o trabalho atual e “Contraditório”, o disco anterior?
Tem um monte de coisa consciente e um monte inconsciente. Quando você vê o resultado final descobre uma marca, uma identidade. O que mudou basicamente foi o foco, que era a Zona da Mata de Pernambuco, e nesse disco é muito mais amplo, tem uma forte influência da música da tua região.

Você já trabalhou com o Pio Lobato, guitarrista do Cravo Carbono...
Grande Pio Lobato, foi meu parceiro no disco anterior. É um dos guitarristas mais finos, mais sofisticados do País, fez um disco solo que apresento para as pessoas, copio e dou de presente. O La Pupunha virou uma das minhas bandas favoritas, tenho tocado bastante do meu set e quero colocar em compilações também.

Você é adepto do sistema Samplig Plus, planejou o lançamento do novo disco simultaneamente no Brasil, na América do Norte e na Europa. Você se considera um guerrilheiro da música independente?
(Risos). Guerrilheiro, não. Só quero viver num mundo melhorzinho, isso é puro egoísmo. Acho incrível como uma coisa tão bacana como compartilhar livros, documentos, fotos e filmes para o dia-a-dia da gente possa ser ilegal, ilegítimo. É um jeito de dividir informação com outras pessoas, é uma característica do mundo em que a gente está vivendo. Isso não vai parar só para agradar executivo engessado de grande coporação. Mesmo esses caras tops não se importam que um moleque copie MP3, pois ele não está ganhando dinheiro com isso. Gente como eu, B Negão e Mombojó depende dessas ferramentas para divulgar o trabalho.

Você recebeu recentemente o prêmio BBC Awards na categoria club global. O que ela representa?
Esse é mais um rótulo da música eletrônica não ortodoxa. A BBC é um dos maiores conglomerados de informação do mundo, então essa premiação representa reconhecimento dos profissionais para um trabalho bastante profissional. Passar 40 dias dentro de uma van tocando quase que diariamente é um trabalho muito duro, não é pra todo mundo, não.

Você sempre fala da admiração que tem pela música paraense. Afinal, quando virá a Belém?
Tenho convite para tocar como DJ e fazer um workshop e uma palestra. O problema é que desde fevereiro não consigo passar cinco dias na minha casa...


(Publicado originalmente em 24 de abril de 2005)

Arte popular na estratosfera




Muita calma nesse momento. Você está diante do novo CD de Tom Zé, “Estudando o Pagode - Segrega Mulher e Amor”, uma opereta que traz uma série infindável de referências, que vão de Beatles à tragédia grega. Tudo, desde o encarte-libreto cuidadosamente preparado, até a sonoridade criada com uma orquestra de folha de fícus, coloca os ouvidos diante de algo absolutamente criativo, inusitado. Talvez por isso Tom Zé tenha optado por enviar à maioria das redações um CD com uma entrevista de quase 50 minutos, em que muitas dessas referências, sugestões, inovações são explicadas de forma detalhada. Na coletiva que concedeu esta semana em São Paulo, ele e seus músicos apareceram vestidos de mendigos, trajando farrapos. Esse é o Tom Zé.

A figura do indigente, o homem na miséria que está mendigando o amor da mulher, é o ponto de partida do CD. Mas aí é que está. Você pode até simplificar e dizer que o disco é um manifesto feminista, mas Tom reage: “Isso não é um disco feminista, como vai parecer pra muita gente. É um disco masculinista. Eu mesmo, com minha experiência, vi o quanto estava difícil conquistar a verdadeira confiança da mulher, já que a situação dela se realizar sexualmente envolve abrir os véus, não só o véu da nudez, mas também o véu da alma, do coração, das suas aspirações, das suas vibrações mais íntimas. Acho que os homens precisam prestar atenção e começar a respeitar as mulheres, porque se isso se perder definitivamente, nós vamos ficar nesse diabo desse planeta com quem? Vamos voltar àquela infância do interior, que nego comia jegue, égua, matava galinha, o diabo?”, diz ele, divertido.

Foram quatro anos de estudo sobre o tema - a arcaica dominação masculina. Uma recente pesquisa da Universidade de São Paulo, que apontava que os jovens não estão satisfeitos sexualmente, foi outra referência importante. “Quase 60% dos rapazes ficam assustados, com medo de falta de ereção ou de orgasmo precoce, enquanto as meninas se queixam de dores, de que não conseguem se excitar porque não há intimidade e não conseguem desfrutar o gozo”, diz o sexólogo Tom Zé, cheio de propriedade. Então ele partiu desse princípio para armar um enredo, “como se fosse um pequeno teatro, em que cada canção vai respondendo a outra”. “A mulher começa sendo duramente agredida, depois ela pisa na cabeça do filho da mãe, depois os dois tentam se encontrar e o assunto fica em aberto quando o disco acaba, porque eu não sei tudo. Estou fazendo o CD justamente porque não tenho resposta”.

Todas as 16 faixas foram feitas para dueto, uma voz masculina e uma feminina. Para estimular essa conciliação entre os sexos, Tom Zé disponibilizou em seu site (
www.tomze.com.br) todas as músicas com letras cifradas para que o interessado chame sua parceira e os dois possam “se distrair cantando junto”.

O título e a capa remetem diretamente a “Estudando o Samba”, gravado em 1976 - “o disco que me salvou e me botou nos Estados Unidos”, diz Tom Zé, referindo-se à “descoberta” de David Byrne feita num sebo. E não custa lembrar que esse álbum foi escolhido entre os dez discos da década pela revista Rolling Stone. Mas e o pagode? Por que estudá-lo? Acontece que a visão dos fundos do prédio de Tom Zé é a churrascaria do prédio vizinho - “um prédio rico”, como ele mesmo destaca. E de tanto ver as festinhas da classe alta regadas ao pagode que domina as FMs, Tom Zé se perguntou: “Mas será realmente que esse povo da alta buguersia só ouve pagode? Fiquei com essa coisa me rodeando, eu dormia toda noite com pagode na cabeça”.

Foi quando ele se propôs um desafio: “Meu Deus, esse gênero tão humilhado, que é do povo, que vem da raiz mais digna da música brasileira, que é a do sambista das escolas, e que foi transformado naturalmente numa coisa de consumo, isso tem uma nobreza. E eu podia mostrar como esses rapazes que não têm escola, não tem acesso a uma música de mais cintura, como é a tradição da música brasileira, como eles comporiam diferente se passassem por uma escola. O negócio é simples: bota o Belo, o Netinho, esse pessoal, numa civilização que não fosse essa cultura de massa tão desastrosa, esse saco de gatos, e veja o tipo de música que eles fariam. Imediatamente seria completamente diferente”. Essa foi a tese pela qual o disco foi feito. E são 16 formas de pagode completamente diferentes uma da outra.

Chegamos ao encarte. Bom esse é outro capítulo. Cada canção traz uma imagem de um teatro onde estaria acontecendo a cena cantada. “Transformei em personagem da opereta todas aquelas cantoras que gravaram músicas minhas no ano passado e ano retrasado”, explica Tom Zé. Enão estão aqui Zélia Duncan, Mônica Salmaso e Jusarra Silveira, entre outras, mas todas com os nomes “ligeiramente deturpados”. E tem ainda os personagens que conduzem o enredo, Maneco Tatit, uma homenagem a Luiz Tatit, e Teresa, a menina segregada. Detalhe: Maneco é um pagodeiro.

O primeiro ato inteiro, “Mulheres de Apenas”, é inspirado na música de Chico Buarque. Depois vem “Latifundiários do Prazer”. Para Tom Zé, se a liberdade sexual dos anos 60 tivesse vingado, hoje seríamos latifundiários do prazer. A terceira parte é o amor estendido ao país, onde o artista trata do problema das estradas de ferro (!).

Então surge outra pergunta: como Tom Zé conseguiu costurar tudo isso - e ainda fazer um link com a moçada mais jovem? Sim, porque o projeto tem dois assessores juvenis, Pedro José, de 17 anos, e Fernanda Dell’Uomo, 15. “Estabeleci um arame farpado em volta de mim como se fosse um cárcere. Os dois são jovens que vi nascer e crescer, e tinham que me dizer se a música era cantável numa festa jovem e se era cantável por um violinista”. Tom Zé levou isso muito a sério. Se a música não agradava os assessores, ia direto para o lixo.

Neusa, companheira inseparável e fiel escudeira, também encabeçou o conselho consultor. “A Neusa entrava com o crivo da qualidade. A música ‘Quero Pensar’, fiz ela cinco vezes. A primeira vez ela disse: ‘Não está digno de você’. No dia seguinte, fiz outra complemente diferente. E ela disse: ‘Agora está muito complicado’. Fiz uma terceira e chamei os meninos, que disseram: ‘Está difícil’. Joguei fora a música, acabou. Fui fazer outra, mostrei para a Neusa e ela disse: ‘Não me meta mais nessa confusão’. A musa inspiradora se cansava de tanto ouvir música. E eu falei: ‘Será que estou ficando doido?’. À tarde fiz outra música e foi essa que ficou”.

Tanto cuidado tem sua razão de ser. Tom Zé revela que o seu sonho é que esse disco seja um “disco escola”. “Sou um grande cantador, canto no mundo todo, e sei que no mundo todo a canção brasileira é admirada, é amada. No Norte, no Sul, no Pará, em São Paulo...Esse lugar amarelo no Sul do mundo é onde bate o coração da inspiração. Eu também quis acrescentar uma referência, além de mostrar como o pagode ou qualquer outro gênero pode ser elevado à estratosfera da sofisticação e ainda ser popular. Isso eu tentei, Deus me perdoe se eu não consegui. Deus e vocês”.

Por um cinema árido e livre de máscaras


Conversar com o cineasta Cláudio Assis provoca o mesmo efeito que assistir “Amarelo Manga”, primeiro longa do diretor pernambucano que sacudiu o cinema brasileiro no ano passado com seu realismo urgente. Cláudio fala olhando no olho, vai direto ao assunto, sem rodeios. “Acham que Pernambuco é só tapioca, maracatu e ciranda, mas o Estado tem problemas contemporâneos iguais aos de todas as cidades do mundo”.

Com sua Parabólica Brasil, ONG sem fins lucrativos que funciona em Recife, numa casa emprestada por sua irmã, Cláudio Assis é um dos diretores do chamado “árido movie”: um cinema que mostra o mundo a partir de sua própria aldeia, sem cair nas armadilhas do regionalismo. Pense na música de Chico Science transposta ao fazer cinematográfico - é mais ou menos por aí.

Conhecido por ter esquentado a cerimônia do Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro, quando chamou Hector Babenco de imbecil - e fez outros xingamentos impublicáveis - Cláudio Assis seguiu afirmando que o Oscar é um “baile dos mascarados”. E para quem ficou chocado com “Amarelo Manga”, ele manda um recado: vai ainda mais fundo em seu próximo projeto para filmar “um pedaço do inferno”. “Vou mostrar nossa própria miséria enquanto seres humanos”.

Cláudio Assis esteve de passagem por Belém participando do projeto “O Cinema Brasileiro Contemporâneo”, promovido pelo Instituto de Artes do Pará (IAP). Exibiu seu “Amarelo Manga” e ainda vários curtas, seus e de outros diretores pernambucanos, quase todos filmados com uma câmera que tem mais de 30 anos. Sobre essa novíssima produção que enche os olhos e muitas vezes nos dá um soco no estômago, ele prefere não arriscar: “A gente só vai saber que cinema é esse daqui a um tempo”.

Depois de toda a repercussão de “Amarelo Manga”, como será seu próximo filme?
O próximo filme é uma coisa que vem da minha infância. Eu tinha uma amiga e o pai dela devia um dinheiro a uma outra pessoa, mas não tinha como pagar. Então pagou com a filha. Isso me chocou muito. Eu era criança, era amigo dela, e ela foi vendida. Eu quero filmar um pedaço do inferno, um pedaço desse latifúndio, dessa escrotidão, dessa miséria. Vamos começar no início de setembro e filmar até outubro.

O cinema pernambucano vive uma fase de efervescência. Até o final de 2005 serão sete novos longas, entre finalizados e rodados, além de cerca de 20 curtas. Isso para um Estado que não tem faculdade de cinema e apenas uma câmera de 35mm. Como você explica isso?
É porque lá nossas mães nos dão coentro, não tem salsinha. A gente trabalha com o barro. Então tem que dizer alguma coisa, tem que lutar, tem que fazer. Essa coisa é fruto dos curtas, do que você viu, da música, do cinema dos anos 30, do movimento do Super-8 nos anos 70. A gente não pode ficar parado, não pode ser dominado. Nem homem nem mulher pode dominar ninguém, a gente tem que amar as pessoas.

A política federal de distribuição de recursos para o cinema além do eixo Rio/SP está fazendo diferença?
O governo federal quer mudar esse negócio desse eixo, não sei se vai conseguir. Por exemplo: o governo deu dinheiro para o Cacá Diegues, para o Guel Arraes, que é da Rio Filme, das majors. Para o “Amarelo Manga” foram R$ 2.700 de três vezes. Mas hoje o governo já me chama pra conversar, sabe? Então essa coisa está mudando, o país está mudando, eu acredito nisso. Todo ano tem um concurso para dois curta-metragens em Recife, o Concurso Ari Severo. E aí toda vez inscrevem mais de 50 filmes, para apenas dois ganharem. Tem muita galera nova que está com tesão, está querendo fazer as coisas. Eu acho que esses curtas, os longas com essa visibilidade, com tudo isso a gente provoca essa vontade nas pessoas.

É muito forte a desigualdade entre os filmes das majors e os independentes. Como mudar isso?
Aprovando a Ancinav. É preciso colocar regras claras para todo mundo, e não privilégios. Abaixo o privilégio, entende? Todo mundo tem que concorrer pela sua obra, defender a sua obra, e não porque o pai é empresário ou banqueiro... Isso é o que está errado. A Ancinav vem fazer isso pra gente.


Mas o debate sobre a Ancinav ainda está muito nebuloso...
Não, não. Quem está queimando a Ancinav são os poderes, a imprensa, a televisão, os empresários. Eles querem mandar na gente. Se tem uma coisa que possa dar uma contribuição cultural, um olhar de cada região, isso é maligno para eles, que querem se dar bem e ganhar dinheiro, só pensam nisso. Não querem cultura.

Quanto custou a produção de “Amarelo Manga”? E quanto faturou?
Custou R$ 800 mil reais, teve 150 mil espectadores e ganhou quase 40 prêmios no Brasil e no exterior.


Walter Carvalho disse que o filme foi “criminosamente tirado de cartaz” para dar lugar a um filme estrangeiro. O que aconteceu?
Aconteceu que o Festival de Cinema de Recife não quis passar o filme, porque se eu ganhasse algum prêmio lá ia parecer marmelada. Como assim? Gaúcho faz o Festival de Gramado e tem inclusive prêmio para filme gaúcho. Brasília faz festival e tem prêmio para o filme de lá. Quando Hollywood faz o Oscar, é para promover o filme dos americanos. Por que eu não posso ser premiado na minha cidade?

Segundo o crítico Inácio Araújo, “Amarelo Manga” foi “um vasto xingamento, um apelo a quebrar as regras da etiqueta e da camaradagem característica, inclusive de categorias profissionais”. Você concorda com isso?
Acho que o filme é verdadeiro. A gente fez o filme acreditando nas pessoas, no que a gente estava querendo fazer. Sem essa coisa de proteger alguém, valorizar. O filme é como tu tirar a roupa, sabe? Simples assim. Desnudar pra vida, desnudar para a realidade, para o amor. Foi isso.

Como você encarou a repercussão da entrega do prêmio TAM, quando você insultou Hector Babenco? Segundo alguns jornalistas que estavam lá, Babenco acabou virando o herói da festa, e você, a unanimidade negativa.
Eu não posso chegar na sua casa, comer a sua comida, beber sua bebida e depois sair falando mal de você. Ninguém pode, ninguém tem esse direito. Ele não é brasileiro, é argentino, falou mal da gente, disse que nós tínhamos elegido um presidente maravilhoso, catedrático, respeitado, que era o Fernando Henrique Cardoso, e hoje elegemos um bêbado, um vagabundo, um metalúrgico desqualificado. Ele faz filme aqui com o dinheiro do povo brasileiro, não pode esculhambar meu país, dizer que isso aqui é uma republiqueta de bananas e que nós somos uns otários. Isso eu falei para alguns jornalistas. Mas jornalista é uma coisa meio burra - desculpa aí - então ninguém quis levar em consideração. Então, na primeira oportunidade que eu tive, falei. Aqui na minha veia corre sangue vermelho e quente. O que eu quero dizer a você eu digo aqui. O que acontreceu é que a imprensa é burra e babaca e entrou no folclore, “ah, o cara é louco, xingou Babenco, não se pode xingar Babenco”. Eu falo o que eu quero. Eu sou senhor de mim mesmo. Na outra semana a Folha publicou essa entrevista dele e ele agrediu a jornalista, a Mônica Bergamo.


Para você, o cinema brasileiro é uma mesmice?
O cinema brasileiro é uma arte burguesa, uma arte dos poderosos. Esses caras têm muito dinheiro, muito poder, e ficam fazendo psicologismo, discutindo os problemas da cabeça deles com o cinema, brincando com o dinheiro do povo, entende? Ou então fazendo uma continuação da novela das oito, dizendo nada. Claro que existem as exceções. Mas estou falando de quem tem poder e está defendendo o seu bolso, o seu apartamento, e não a arte.

Atualmente o Brasil lança uma média de 80 longas por ano. Conquistar público é o maior desafio do cinema nacional?
O maior desafio é fazer com que o povo assista os filmes. Não só conquistar público, mas as pessoas terem acesso ao cinema. Quanto é um salário mínimo hoje?

260 reais.
Você trabalha e ganha esse dinheiro. Aí você tem um namorado, vai pagar um ingresso, é doze, quinze reais. Mais o ônibus, o táxi, a Coca-Cola, a pipoca... Vai para 50 reais, brincando. Você acha que o povo pode pagar isso? Aí dizem que o povo não gosta de cinema. Não gosta porque não tem acesso. O que o governo tem que fazer é abrir salas no centro, na periferia, no interior, a um real. Abre, bota cinema. E cabe ao governo fazer isso.


(Publicado originalmente em 29 de março de 2005)

Maracatu explosivo



A Nação tem o poder. Dez anos depois daquele manifesto que anunciava a chegada dos caranguejos com cérebro no encarte de “Da Lama ao Caos”, a Nação Zumbi mostra que o mangue beat continua forte, ultrapassando as barreiras impostas pelo jabá e outros mecanismos viciados que teimam em ignorar o que há de melhor na música brasileira. Já são sete anos sem Chico Science, um dos mentores do mangue beat, mas a Nação segue firme e forte.

Quem tem olhos para ver que veja: “Propagando”, o primeiro DVD dos pernambucanos, chega por obra e arte da Trama, chutando o pau da barraca. Gravado ao vivo, sem cortes, numa única apresentação no Directv Hall, em São Paulo, o DVD traz músicas de todos os discos da Nação. E vale por uma pequena farra com seus melhores amigos.

No show a Nação Zumbi mostra porque as músicas recentes levantam a galera. “Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada” é talvez o melhor exemplo disso. Mas tem ainda “Quando a Maré Encher”, gravada por Cássia Eller no seu “Acústico”, “Remédios” e “Zumbi X Zulu”, entre outras. Jorge Du Peixe divide os vocais com Gilmar Bola Oito, enquanto Lúcio Maia e seus acordes lisérgicos entorpecem a massa.

Nos extras, um documentário da turnê que a banda fez recentemente pela Europa, as confusões no aeroporto, uma jam session no Arco do Triunfo - quando os músicos lembram de Peixinhos, comunidade no interior de Pernambuco que viu surgir o mangue beat - e até um inusitado encontro com Otto num festival em Marselha. O público lá fora é gringo, como explica o contrabaixista Dengue em entrevista exclusiva.

Representantes legítimos do mais importante movimento musical brasileiro surgido nos anos 90, os músicos da Nação Zumbi mostram dez anos depois que ainda têm muita lenha pra queimar. Saudades de Chico Science? Sim, claro. E vida longa à Nação Zumbi.

O DVD foi gravado de uma tacada só, ao vivo, sem cortes. Por que essa decisão?
Primeiro porque ficava muito caro fazer dois dias, seria inviável por causa de todo o aparato. O DVD não vai vender milhões, isso está fora de cogitação. Ao mesmo tempo a gente quis captar o clima do show da Nação, subir no palco e contar um, dois, três, quatro e ir até o final. A gente não quis maquiar as coisas, tipo “vamos repetir tal música”. Não tem disso, o show foi inteiro. Se as outras pessoas fazem isso, a Nação não faz. A gente precisa registrar exatamente cru. Tem erro? Tem, mas não vamos tirar. O show tem essa energia.

Desde o primeiro disco, “Da Lama ao Caos”, o que mudou na sonoridade da Nação Zumbi?
Está mais apurada a técnica, assim como a gente também está mais velho, entende mais o som da gente. Não que a gente não entendesse naquela época, mas hoje em dia transformamos nossas sensações em som de uma maneira melhor. Não digo que está mais pesado, isso é momentêneo. É que agora sabemos trabalhar os graves da banda de um modo tal que o disco fica pesado sem precisar de guitarra distorcida, sem apelar muito para a tecnologia.

O golpe da morte de Chico Science ainda pesa sobre a banda?
Hoje a gente sabe lidar melhor com isso. Na época foi muito forte e continuamos sentindo esse golpe, mas fazemos questão de deixar muito clara a força dele. A gente vai se acostumando a ficar sem ele, como se fosse uma ferida que a gente se acostuma com a dor, com o incômodo que ela dá. Chico ainda continua sendo fonte de inspiração, as atitudes dele, as coisas que a gente aprendeu com ele, o lado administrativo, empresarial. Pensamos: “Com certeza Chico faria isso desse jeito”. Estamos sempre tomando ele como referência musical e empresarial nas decisões com a gravadora e empresários. Ele sempre dizia coisas muito boas. Chico continua sendo um guia.

O que foi mais difícil nesse período sem Chico?
A gente nunca pensou em parar. No momento em que as coisas aconteceram a gente ficou mais unido, tivemos uma consciência de grupo muito maior do que antes. Passamos períodos muito difíceis, mas sempre muito conscientes do nosso trabalho. Por mais que algumas pessoas não acreditassem nisso, a gente continuou trabalhando. A parte mais difícil foi começar a compor de novo, a gente achar que as coisas estavam boas.

Como foi a turnê da banda pela Europa?
Foram oito dias em três países diferentes. Quem era o público da Nação? A gente não toca pra brasileiro na gringa. Muita gente vai para o exterior tocar para guetos brasileiros, mas nosso caso é diferente. A gente toca para gringo mesmo, tem muito brasileiro que mora lá, mas se tem brasileiro no show, caiu de pára-quedas, achou que era axé e foi lá ver ou nem sabia que era banda brasileira. A reação é sempre a mesma: um pouco de estranhamento, porque nunca se viu aquilo, acham que brasileiro é bossa nova, samba, mulata de fio dental. Quem achava que era isso vai embora, mas quem se interessa e fica, mesmo sem saber o que é, vai vendo e começa a dar uns aplausos tímidos, depois a galera pira, pula mesmo.

Qual a força do mangue beat hoje em Recife?
Existem jovens bandas seguidoras dos mesmos ideais? O mangue beat não é um pagode da vida que sobe e daqui a um tempo ninguém lembra mais, não é um modismo amplamente explorado pela mídia, que vai morrer sem consistência, não nasceu desse jeito e nunca vai ser assim. Quanto mais tempo se passar, os ideais, a atitude do mangue beat só tendem a aumentar e a influenciar pessoas de outras partes do Brasil. É um movimento que ainda está se expandindo, mas não existem seguidores, apenas pessoas que se juntam e compartilham dos mesmo ideais. Existem no Recife bandas como Mombojó, em que os caras são bem novos, tinham cinco anos de idade quando lançamos o primeiro disco. É uma banda bem legal, bem consistente, tem influência da gente, mas já aponta para outro mundo. Tem o DJ Dolores, que fez a capa do “Da Lama ao Caos”, tem o China, ex-integrante do Sheik Tosado, que está em carreira solo e era meu vizinho de bairro em Olinda.

E agora uma pergunta inevitável: quando a Nação virá a Belém?
Planos a gente sempre tem, difícil é conseguir chegar no Norte, no Nordeste. A Nação não é bombada na mídia e uma turnê é mais fácil quando se vende 100 mil cópias. Temos uma dificuldade natural de locomoção, por causa do porte da banda. E o pequeno contratante sempre acha que não tem público, tem medo de levar prejuízo, enquanto que o grande empresário não quer nem saber da gente.

(Publicado originalmente em agosto de 2004)

O bardo inglês está de volta


Já se vão 16 anos desde que Morrissey lançou o seu primeiro disco solo, “Viva Hate”, que estourou em todo o mundo com as músicas “Suedehad” (aquela em que todo mundo cantava “I’m soooo sorry... Ahhhhh”) e a bela “Everyday Is Like Sunday”. Era o início de uma nova fase para o eterno ex-líder da eterna banda The Smiths, uma das mais importantes dos anos 80 e que no curto período de 1982 a 1987 lançou alguns dos mais belos discos da história do pop. Agora, oito discos-solo depois, Moz está de volta com “You Are The Quarry”. Não por acaso, o álbum tem sido apontado pela crítica especializada como o melhor da carreira-solo de Morrissey.

Há sete anos longe dos estúdios, ele retorna com boas doses de letras sarcásticas, arranjos bem elaborados e belas melodias, que surpreendem até mesmo os ouvidos mais desatentos - no caso, de quem não é fã do cara. Produzido por Jerry Finn, que já trabalhou com bandas punk como Green Day, Blink 182 e Bad Religion, “You Are The Quarry” traz letras diretas em que Morrissey expressa suas opiniões sobre política norte-americana, religião e os conflitos na Irlanda, além de imaginar-se membro de uma gangue de rua mexicana.

O disco estreou em 11º lugar no Top 100 da Billboard, com mais de 250 mil cópias vendidas. É a melhor performance da carreira de Morrissey nos Estados Unidos e o sucesso vem se espalhando pelo mundo: o disco está entre os dez melhores em países como Suécia, Reino Unido, Alemanha e Portugal. Em Manchester, um show realizado em maio, logo após o lançamento do disco, teve seus 15 mil ingressos esgotados em apenas 84 minutos. É que os fãs de Morrissey estão entre os mais fanáticos da história do rock inglês. Motivos para isso? Vamos lá:

1) Os Smiths estão entre as 15 bandas que mudaram o mundo, dentre as 50 da lista publicada pela revista inglesa Q. A justificativa da Q: Antes dos Smiths, a música pop era artificial e de plástico. E um milhão de jovens desolados se trancavam no quarto para chorar. Depois dos Smiths, veio a renascença da música de guitarras. E um milhão de jovens desolados se trancavam no quarto para chorar ouvindo Smiths.

2) Um dos mais importantes veículos pop do planeta, o semanário britânico New Musical Express estampou Morrissey na capa na edição de maio comemorando, em letras maiúsculas: “SIM, ELE FINALMENTE RESPONDEU NOSSO CHAMADO!”. Sobre o novo disco, Morrissey disse ao semanário que é o melhor trabalho de sua vida. “Eu cheguei um dia à noite em casa e coloquei o disco para tocar. E me senti... fantástico”, afirmou o cantor.

3) De Oasis a Blur, de Libertines a Franz Ferdinand. Todos foram diretamente influenciados por Morrissey e Cia.

4) Lá fora estão sendo lançados dois DVDs cobrindo sua carreira e clipes. Não é pouco para um artista que sempre trafegou pelo underground e que hoje está como nada menos do que 45 anos.

5) Para o extinto jornal Melody Maker, “The Queen Is Dead”, dos Smiths, é o melhor disco de todos os tempos.

6) Há dois anos, sem gravadora e nem divulgação, Morrissey lotou o gigantesco Royal Albert Hall de Londres duas noites seguidas.

7) Os fãs não se envergonham da doce histeria e colecionam até mesmo fronhas de Morrissey. No Brasil, as fronhas do cantor foram vendidas nos shows do cara em Curitiba e São Paulo há exatos quatro anos.

8) Para divulgar o novo disco e comemorar o sucesso, Morrissey está em turnê pela Europa e foi escalado para os maiores festivais do continente, como o Glastonbury e o Reading Festival, na Inglaterra.

Voltando ao disquinho: a exemplo de seus trabalhos anteriores, “You Are The Quarry” traz letras bem amargas. Em “Irish Blood, English Heart”, ele diz: “Permanecer ao lado da bandeira, sem sentir-se envergonhado ou racista”, referindo-se ao episódio em que foi chamado de “racista” pelo semanário New Musical Express, em 1992. Durante um show em Londres, Morrissey vestiu-se com a Union Jack, a bandeira do Reino Unido, o que foi interpretado como nacionalismo. Depois disso, Morrissey deixou a Inglaterra, mudou-se para a Irlanda e depois para Los Angeles.

Outros bons exemplos: “I Have Forgiven Jesus” (Eu Perdoei Jesus), “All The Lazy Dykes” (Todas as Sapatonas Preguiçosas) e “America Is Not The World” (América não é o Mundo), em que chama o país de “grande porco gordo” e termina com um “mas eu te amo”. E para quem ainda sonha com uma possível volta dos Smiths, uma má notícia. Em “The World Is Full of Crashing Bores” (O Mundo Está Cheio de Tremendos Babacas), Moz cita o caso em que seus ex-companheiros Mike Joyce e Andy Rourke entraram na Justiça pedindo porcentagem maior nos direitos das músicas da banda - de 10% para 25%. Rourke fez um acordo, mas um juiz britânico deu ganho de causa a Joyce e, além de determinar uma multa de mais de um milhão de libras, classificou Morrissey como “traiçoeiro e desonesto”. “Se Joyce and Rourke e [Johnny] Marr [guitarrista e letrista] tivessem intercedido e dito algo em minha defesa... Mas eles deixaram o juiz falar coisas odiosas sobre mim que eles sabiam que não eram verdade”, disse Morrissey ao Guardian.

Ah, o disco fecha com a bela “You Know I Couldn’t Last”, vista como um recado a Johnny Marr. Trechos como “CDs, promoções, camisetas/você sabia que eu não agüentaria” e “não deixe os velhos e bons tempos de discos de ouro enganarem você” reforçam essa teoria.

E veja só: embora os álbuns solo de Morrissey tivessem registrado boas vendas e ele lotasse facilmente estádios, foi despedido de sua gravadora em 1997. Moz, quem diria, passou anos procurando por um novo contrato, lutando contra as opiniões preconceituosas de que ele era colérico e que o seu público havia envelhecido demais para manter renovado o interesse pelas suas idéias. “You Are The Quarry” é a prova de que ele estava certo.

(Publicado originalmente em 20 de julho de 2004)