06/09/2006

Guerrilheiro por um mundo livre


Fred 04 é um dos caras mais originais da cena pop brasileira. Espécie de cientista político, ativista revolucionário, guerrilheiro sem fronteiras, criou nos anos 90, ao lado de Chico Science e Nação Zumbi, o mangue bit, movimento cultural mais importante das duas últimas décadas no Brasil e que até hoje é referência fundamental, seja para músicos, produtores ou qualquer pessoa que pense em cultura pop nesse país.

Com suas parabólicas enfiadas na lama, o mangue bit mostrou que é possível fazer uma revolução digital às avessas, rompendo fronteiras da informação a partir dos guetos. Conectados às transformações geopolíticas ao redor do mundo, os caranguejos com cérebro iniciaram a marcha e abriram a porteira para uma pá de artistas fora do eixo Rio/São Paulo.

São cinco discos lançados - "Samba Esquema Noise" (1994), "Guentando a Ôia" (1996), "Carnaval na Obra" (1998), "Por Pouco" (2000), "Manuela do Rosário" (2005) e o EP "Bebadogroove" (2005), primeiro trabalho pelo selo da banda, Ôia Records. Misturando Jorge Benjor e Clash, mais samba, funk, dub, soul, maracatu, groove e tudo mais que couber nesse caldeirão, o mundo livre se mantém fiel à estética do mangue bit, com letras que dizem muito sobre o mundo em que vivemos.

Fred 04 esteve no último final de semana em Belém para fazer o melhor show do festival Se Rasgum no Rock, que reuniu várias bandas do cenário independente. No palco, a participação especial de Mestre Laurentino - de quem a banda gravou "Loirinha Americana" - aumentou ainda mais a voltagem do público, que pela primeira vez teve a oportunidade de ver os pernambucanos mandando ver. No dia seguinte, à beira da piscina natural do Parque Igarapés, o vocalista era só alegria - e um pouco de ressaca, vai. "Tem alguns momentos em que a gente demora um tempo para conseguir voltar ao planeta Terra, sabe?". Com a palavra, Fred 04:

Vocês acabaram de lançar o sexto disco. Como vai a carreira da banda?
A gente está curtindo, saboreando a grande farra que foi ontem, um momento muito legal. A gente não entendia muito porque nunca conseguia tocar no Norte do Brasil, sempre que encontrava a galera tinha a informação de que em Belém tinha muita gente que curtia, que conhecia, que gostava da banda, mas isso nunca se concretizava. É massa quando se tem uma expectativa muito grande e ela é plenamente satisfeita, tanto em termos de resposta do público como em relação ao clima que se criou depois, no encerramento, a interação com as outras bandas, com todo o pessoal do circuito musical do Pará. Tem alguns momentos em que a gente demora um tempo para conseguir voltar ao planeta Terra, sabe? Isso é muito parecido com o que aconteceu no ano passado, quando a gente estreou a Manguefônica em São Paulo, que foi um negócio quase mágico, foi muito massa. E aqui em Belém o legal é isso, mesmo quem aguardava essa primeira vinda da gente não esperava que fosse ter uma vibe tão legal.

Vocês estão fazendo muitos shows pelo Brasil?
Ah, sim, lógico. A carreira internacional a gente está tentando retomar agora. A última turnê foi em 2003. A gente tocou na Suíça, na França, foi para Nova Iorque, mas estávamos sem disco, o "Manuela do Rosário" não estava pronto. Nesse período a gente mudou de produção, então estamos retomando agora a carreira internacional para fazer shows a partir de 2007. No Brasil estamos num momento de ascensão legal. No primeiro semestre deste ano fizemos 34 a 35 shows, fora algumas coisas que eu participei como convidado, sem a banda, tipo o projeto do Banco do Brasil, de música popular brasileira contemporânea, com o pessoal de Minas Gerais e da Colômbia, chamado Pernambucolômbia, eles cantam umas cinco música minhas. Isso rolou em São Paulo, Brasília e vai rolar agora no Rio. Quanto aos shows, a gente nunca tinha tido essa média, nem com clipe em primeiro lugar na MTV, que foi o caso do primeiro disco. Lançamos essa semana dois clipes com orçamento de R$ 70 mil e não tiramos nada do nosso bolso. Foi um cineasta de Pernambuco que se apaixonou por duas músicas do EP, mostrou um roteiro e conseguiu captar. Foi uma festa maravilhosa em Recife para o lançamento dos clipes em película e tal, fuderoso. Hoje é possível estar fora de um esquema grande de gravadora, de empresário superpoderoso. Para uma banda como o mundo livre é completamente viável. Quanto mais longe desse esquemão, mais autonomia você tem sobre sua carreira. E estamos sentindo isso agora com o nosso selo, porque temos a maior dificuldade de fazer qualquer coisa com a nossa obra anterior, porque os fonogramas não são nossos, a gente não pode lançar um DVD com música antiga. É um absurdo isso. Hoje a gente toca tanto em festivais superalternativos, no Tim e num monte de coisas do circuito universitário, que está se reorganizando. Fui do movimento estudantil na UFPE, fiz comunicação e era do diretório acadêmico e sei que naquela época era uma coisa bem decadente, era raro ver algum evento universitário legal.

Você fez comunicação? Chegou a se formar?
Sou jornalista, ninguém é perfeito (risos). Fui repórter de televisão durante dois anos e pouco.


Você fazia pauta na geral?
Fui da afiliada do SBT, fazia o telejornal, mandava matéria para o Boris Casoy, ia lá engravatado, repórter Fred Montenegro, do Recife (risos). Era uma desgraça, ainda mais numa cidade como Recife. Lá tinha que acordar de madrugada e fazer três, quatro matérias por dia. Na minha época nem comunicador tinha, era preciso ir atrás de ficha para ligar e se comunicar com a redação, era um inferno. E não tinha fim de semana, feriado. Você sabe bem como é isso.

Então você não tem a menor saudade... (risos)
Não tive o menor conflito e nem dilema existencial quando começou a pintar a música. Porque eu já tinha banda, mesmo na época da TV, da faculdade, já era compositor.

Mas a banda já era a mundo livre?
Na época da faculdade era. Mas um pouquinho antes e no início da faculdade peguei outra banda, Serviço Sujo. Mas quando o mundo livre surgiu, em 1984, eu já estava praticamente no final da faculdade. E quando fui trabalhar em jornalismo, tinha a banda, que fazia shows para os amigos, de forma totalmente amadora, mas quando o lance do mangue começou a pipocar nos eventos, eu não conseguia conciliar com os plantões da TV. Não tive o menor dilema em fazer essa troca. Agora mesmo fiz uma página inteira para o Correio Braziliense, sobre o aniversário de Brasília, uma pauta para a revista Simples, mas sempre algo bem específico de música, de comportamento. Não quero voltar para esse negócio, não (risos).

A crítica social se mantém muito forte nas músicas do grupo. O mundo livre acredita num mundo novo?
Acreditar a gente vai sempre acreditar, como tem gente que vai sempre acreditar em Deus, em Jah, em Alá. A gente tem que se apegar em algumas coisas. Independente de qualquer convicção, no dia em que eu desistir de acreditar na luta política - que não encaro de uma forma partidária, mas acho que é uma coisa da cidadania mesmo - é como deixar de acreditar no ser humano ou no futuro do planeta. Confesso que estou num momento bem otimista, acho que poucas vezes no Brasil se teve uma oportunidade tão clara e tão rara, apesar de todos os PCCs, todos os escândalos. Acho que nunca se viu tanto escândalo porque nunca se teve a oportunidade de investigá-los, porque são escândalos que começaram há décadas e que deviam estar engavetados. Lá em Recife conheço um monte de gente que está super assustado com esses novos tempos, porque tem muito medo da polícia federal, todo mundo da classe média e classe média alta está dando depoimento à polícia federal. Mas independente disso, no Brasil, na Argentina, na Venezuela, na Bolívia, o momento histórico é especial porque sempre se teve uma espécie de dogma político que o povão estaria sempre sendo controlado docilmente, porque sempre acompanha o que a elite manda. Então até as campanhas de marketing dos partidos de elite não eram voltadas para o povão, eram voltadas para a classe média. O que tem se notabilizado na América Latina principalmente incomoda o Tio Sam - tem uma música da gente que fala nisso - "We don't know what it is" (cantarola) - inspirada numa frase do Bob Dylan, que fala que deve ser difícil para os falcões americanos entenderem o que está acontecendo em Caracas, Porto Alegre, La Paz. No Brasil um marco foi o ano 2000, quando se teve os 500 anos e toda aquela festa fracassada do Governo Federal com aquela caravela que nem andou. Uma coisa muito simbólica foram os relógios da Rede Globo sendo atacados por índios, estudantes, que tocaram fogo, e uma tal onda vermelha, onde um candidato que ninguém acreditava que jamais pudesse chegar ao segundo turno, como era João Paulo lá em Recife, de repente bater Roberto Magalhães. Foi uma onda, como se fosse uma guinada de identidade do povo brasileiro, não do conceito classe média, mas do povo historicamente excluído. O mito da origem do Evo Morales é muito parecido com o de Lula. Lembro de uma entrevista do Milton Santos, geógrafo saudoso, que morreu recentemente, baiano, negão, que tinha doutorado nas maiores universidades européias. A entrevista que ele deu ao Roda Viva em 1997 saiu recentemente em DVD pela Cultura. Como professor da USP, ele deu um pito nos entrevistadores do programa, quase todos eles tucanos, detonando toda essa mística da globalização, a privatização da Vale do Rio Doce, que não tinha o menor cabimento, e colocando que a salvação estava na pobreza e que a verdade não está na USP, nos acadêmicos, a verdade está na América Latina, onde existe o maior número do pobres e de migrantes. Isso foi em 97, cara. Você vê o Lula, depois de todos esses escândalos, o cara é migrante, nordestino, tem uma forma de se comunicar que nem os maiores marketeiros das elites vão conseguir tirar. Essa coisa do coração, de quem conhece mesmo, viveu a situação do migrante pobre. Aí vem esse discurso da "ética" que as elites ainda tentam mandar nos horários eleitorais. Um Alckmin querendo colocar chapéu de cangaceiro. É o contrário de antes, da campanha de Collor, quando o marqueteiro fez tudo para mostrar que ele era o bom porque era o rico. Hoje todos os candidatos têm que parecer pobres. Isso é uma guinada absurda em termos de auto-imagem de uma Nação. Só esse já é um dado bem promissor.

O que você achou da cidade e da cena musical?
A cena pude acompanhar melhor porque esse festival concentrou todo o potencial daqui. Pra mim um dos principais pólos no Brasil com certeza é Belém. Quando você vê o show de uma banda como Cravo Carbono, Madame Satã ou mesmo o Mestre Laurentino, vê que a galera não se rende à essa coisa modernosa da MTV. A galera faz questão de valorizar a diversidade local, isso é do caralho. E quanto à cidade eu até estou querendo ver se consigo dar uma chegada ainda hoje, quero ver o mercado do Ver-o-Peso, não deu tempo porque a gente estava curtindo aqui essa maravilha, essa piscina de igarapé, e trocando idéias mesmo, porque é a primeira vez com as bandas daqui, do Acre, de Macapá, e isso não é toda hora. Essa parte de conhecer a vida mesmo de Belém ainda ficou para a próxima.

Muita gente associa a atual cena paraense aos primórdios do mangue bit em Recife. Você vê alguma semelhança?
Rapaz, tem. Mas acho que não dá para repetir a experiência em outro lugar e outro momento. A indústria fonográfica passa por uma história completamente diferente, com a desconstrução total do modelo que imperava, das gravadoras, das rádios. Mas o final do show, com a galera subindo no palco, é muito a cara do que era Recife, as bandas tinham um espírito de cooperativa, foi o que possibilitou o fortalecimento da cena independente. Naquela época, 93, 94, o único caminho possível era tentar uma gravadora de São Paulo, pois não se tinha como gravar um CD em Recife, Chico assinou com a Sony, mundo livre com o Banguela, foi gravar com produtores do Sul. Hoje com certeza cada um vai buscar seu caminho, vão surgir selos legais aqui, como hoje existem em Recife. Mas tem coisas que realmente são muito parecidas, me sinto até rejuvenescido por ter passado por essa experiência.


Como está a atual cena musical em Recife? O mangue bit ainda é uma referência forte?
Vai existir sempre uma ânsia por parte da imprensa, dos críticos, uma tendência de se criar novos rótulos. Já se criaram vários rótulos engraçados, pós-mague, off-mangue, neo-mangue - outro dia o cara do Mombojó em São Paulo me disse: "Rapaz, tiveram coragem de chamar a gente de mangue-chalalá" (risos). Essa produtora nova de lá, a Coquetel Molotov, que fez um puta festival, que trouxe Tortoise, a galera tem rádio, tem selo, tem revista, festival. É uma galera super nova. Existe uma relação de muito reconhecimento, a galera prestigia pra caramba, você não vê hostilidade, mas uma relação massa, é quase como se fosse a mesma galera, como se não tivesse passado. A gente se sente meio tiozinho da galera.

O que achou da participação do Mestre Laurentino no show?
Eu conheci o mestre na passagem de som, foi super emocionante, não sabia que ele tinha todo aquele pique tanto físico, quanto de cabeça. O velho é o maior roqueiro...

Ele é o melhor dançarino que uma banda pode ter...
(Risos). Eu só não fiquei relax de ele ficar o show inteiro no palco por causa da condição dele, de saúde, idade, energia. Já tive uma experiência não muito agradável com o Tom Zé em Recife, em pleno Abril pro Rock, depois do show dele, no camarim, maior festa, e ele começou a ficar meio branco. Ele teve um infarto, cara, e foi atendido de emergência. Tem uma foto muito louca em que estou eu, Tom Zé e algumas pessoas, e ele branco, já estava passando mal. E olha que o Tom Zé tem 60 e poucos e o mestre tem 80 e poucos. Mas foi muito legal. A presença dele foi um aglutinador e uma propulsão daquela celebração que rolou no final. Ele foi a ponte.

Vocês participaram do filme "Amarelo Manga", de Cláudio Assis. Existem outros convites para atuar no cinema? A banda é envolvida com o movimento audiovisual do Recife?
Sim, desde "Baile Perfumado", que foi muito louco, porque a gente começou a gravar a trilha a partir do roteiro, os caras nem tinham começado a filmar ainda. Os caras mostraram o roteiro e chamaram a gente, queriam ouvir que ritmo a gente iria colocar na história, porque isso iria ajudar a conduzir o ritmo das imagens. O Cláudio já era do set de "Baile Perfumado" e a gente tem uma relação muito legal com ele desde essa época. Agora mesmo o Paulo Caldas está finalizando o filme "Deserto Feliz" e vai colocar uma música do mundo livre, uma versão drum'n'bass de "Meu esquema". Acho que isso é muito saudável, não ficar restrito à música, até porque cinema mexe com quase todo tipo de expressão.

2 comentários:

Dida Maia disse...

Aí, velho Zero!
Admiro a vigilância constante e a disposição de mandar ver nas entrevistas. Sou fã do mundolivre s/a desde os tempos que o banquinho da bateria era um engradado de cerveja arranjado prum show no CAC da UFPE. Ali ouvi Samantha Smith pela 1ª vez.
Parabéns à Zero e ao seu Blog Márcia

Roosewelt Lins disse...

perfeita entrevista, Fred 04 é o cara e um dos poucos mensageiros que denunciam nossas disparidades sociais e ao mesmo tempo amplifica a cultura tupiniquim através de sua música e versos distorcidos. Maravilha!