29/05/2006

Por um cinema árido e livre de máscaras


Conversar com o cineasta Cláudio Assis provoca o mesmo efeito que assistir “Amarelo Manga”, primeiro longa do diretor pernambucano que sacudiu o cinema brasileiro no ano passado com seu realismo urgente. Cláudio fala olhando no olho, vai direto ao assunto, sem rodeios. “Acham que Pernambuco é só tapioca, maracatu e ciranda, mas o Estado tem problemas contemporâneos iguais aos de todas as cidades do mundo”.

Com sua Parabólica Brasil, ONG sem fins lucrativos que funciona em Recife, numa casa emprestada por sua irmã, Cláudio Assis é um dos diretores do chamado “árido movie”: um cinema que mostra o mundo a partir de sua própria aldeia, sem cair nas armadilhas do regionalismo. Pense na música de Chico Science transposta ao fazer cinematográfico - é mais ou menos por aí.

Conhecido por ter esquentado a cerimônia do Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro, quando chamou Hector Babenco de imbecil - e fez outros xingamentos impublicáveis - Cláudio Assis seguiu afirmando que o Oscar é um “baile dos mascarados”. E para quem ficou chocado com “Amarelo Manga”, ele manda um recado: vai ainda mais fundo em seu próximo projeto para filmar “um pedaço do inferno”. “Vou mostrar nossa própria miséria enquanto seres humanos”.

Cláudio Assis esteve de passagem por Belém participando do projeto “O Cinema Brasileiro Contemporâneo”, promovido pelo Instituto de Artes do Pará (IAP). Exibiu seu “Amarelo Manga” e ainda vários curtas, seus e de outros diretores pernambucanos, quase todos filmados com uma câmera que tem mais de 30 anos. Sobre essa novíssima produção que enche os olhos e muitas vezes nos dá um soco no estômago, ele prefere não arriscar: “A gente só vai saber que cinema é esse daqui a um tempo”.

Depois de toda a repercussão de “Amarelo Manga”, como será seu próximo filme?
O próximo filme é uma coisa que vem da minha infância. Eu tinha uma amiga e o pai dela devia um dinheiro a uma outra pessoa, mas não tinha como pagar. Então pagou com a filha. Isso me chocou muito. Eu era criança, era amigo dela, e ela foi vendida. Eu quero filmar um pedaço do inferno, um pedaço desse latifúndio, dessa escrotidão, dessa miséria. Vamos começar no início de setembro e filmar até outubro.

O cinema pernambucano vive uma fase de efervescência. Até o final de 2005 serão sete novos longas, entre finalizados e rodados, além de cerca de 20 curtas. Isso para um Estado que não tem faculdade de cinema e apenas uma câmera de 35mm. Como você explica isso?
É porque lá nossas mães nos dão coentro, não tem salsinha. A gente trabalha com o barro. Então tem que dizer alguma coisa, tem que lutar, tem que fazer. Essa coisa é fruto dos curtas, do que você viu, da música, do cinema dos anos 30, do movimento do Super-8 nos anos 70. A gente não pode ficar parado, não pode ser dominado. Nem homem nem mulher pode dominar ninguém, a gente tem que amar as pessoas.

A política federal de distribuição de recursos para o cinema além do eixo Rio/SP está fazendo diferença?
O governo federal quer mudar esse negócio desse eixo, não sei se vai conseguir. Por exemplo: o governo deu dinheiro para o Cacá Diegues, para o Guel Arraes, que é da Rio Filme, das majors. Para o “Amarelo Manga” foram R$ 2.700 de três vezes. Mas hoje o governo já me chama pra conversar, sabe? Então essa coisa está mudando, o país está mudando, eu acredito nisso. Todo ano tem um concurso para dois curta-metragens em Recife, o Concurso Ari Severo. E aí toda vez inscrevem mais de 50 filmes, para apenas dois ganharem. Tem muita galera nova que está com tesão, está querendo fazer as coisas. Eu acho que esses curtas, os longas com essa visibilidade, com tudo isso a gente provoca essa vontade nas pessoas.

É muito forte a desigualdade entre os filmes das majors e os independentes. Como mudar isso?
Aprovando a Ancinav. É preciso colocar regras claras para todo mundo, e não privilégios. Abaixo o privilégio, entende? Todo mundo tem que concorrer pela sua obra, defender a sua obra, e não porque o pai é empresário ou banqueiro... Isso é o que está errado. A Ancinav vem fazer isso pra gente.


Mas o debate sobre a Ancinav ainda está muito nebuloso...
Não, não. Quem está queimando a Ancinav são os poderes, a imprensa, a televisão, os empresários. Eles querem mandar na gente. Se tem uma coisa que possa dar uma contribuição cultural, um olhar de cada região, isso é maligno para eles, que querem se dar bem e ganhar dinheiro, só pensam nisso. Não querem cultura.

Quanto custou a produção de “Amarelo Manga”? E quanto faturou?
Custou R$ 800 mil reais, teve 150 mil espectadores e ganhou quase 40 prêmios no Brasil e no exterior.


Walter Carvalho disse que o filme foi “criminosamente tirado de cartaz” para dar lugar a um filme estrangeiro. O que aconteceu?
Aconteceu que o Festival de Cinema de Recife não quis passar o filme, porque se eu ganhasse algum prêmio lá ia parecer marmelada. Como assim? Gaúcho faz o Festival de Gramado e tem inclusive prêmio para filme gaúcho. Brasília faz festival e tem prêmio para o filme de lá. Quando Hollywood faz o Oscar, é para promover o filme dos americanos. Por que eu não posso ser premiado na minha cidade?

Segundo o crítico Inácio Araújo, “Amarelo Manga” foi “um vasto xingamento, um apelo a quebrar as regras da etiqueta e da camaradagem característica, inclusive de categorias profissionais”. Você concorda com isso?
Acho que o filme é verdadeiro. A gente fez o filme acreditando nas pessoas, no que a gente estava querendo fazer. Sem essa coisa de proteger alguém, valorizar. O filme é como tu tirar a roupa, sabe? Simples assim. Desnudar pra vida, desnudar para a realidade, para o amor. Foi isso.

Como você encarou a repercussão da entrega do prêmio TAM, quando você insultou Hector Babenco? Segundo alguns jornalistas que estavam lá, Babenco acabou virando o herói da festa, e você, a unanimidade negativa.
Eu não posso chegar na sua casa, comer a sua comida, beber sua bebida e depois sair falando mal de você. Ninguém pode, ninguém tem esse direito. Ele não é brasileiro, é argentino, falou mal da gente, disse que nós tínhamos elegido um presidente maravilhoso, catedrático, respeitado, que era o Fernando Henrique Cardoso, e hoje elegemos um bêbado, um vagabundo, um metalúrgico desqualificado. Ele faz filme aqui com o dinheiro do povo brasileiro, não pode esculhambar meu país, dizer que isso aqui é uma republiqueta de bananas e que nós somos uns otários. Isso eu falei para alguns jornalistas. Mas jornalista é uma coisa meio burra - desculpa aí - então ninguém quis levar em consideração. Então, na primeira oportunidade que eu tive, falei. Aqui na minha veia corre sangue vermelho e quente. O que eu quero dizer a você eu digo aqui. O que acontreceu é que a imprensa é burra e babaca e entrou no folclore, “ah, o cara é louco, xingou Babenco, não se pode xingar Babenco”. Eu falo o que eu quero. Eu sou senhor de mim mesmo. Na outra semana a Folha publicou essa entrevista dele e ele agrediu a jornalista, a Mônica Bergamo.


Para você, o cinema brasileiro é uma mesmice?
O cinema brasileiro é uma arte burguesa, uma arte dos poderosos. Esses caras têm muito dinheiro, muito poder, e ficam fazendo psicologismo, discutindo os problemas da cabeça deles com o cinema, brincando com o dinheiro do povo, entende? Ou então fazendo uma continuação da novela das oito, dizendo nada. Claro que existem as exceções. Mas estou falando de quem tem poder e está defendendo o seu bolso, o seu apartamento, e não a arte.

Atualmente o Brasil lança uma média de 80 longas por ano. Conquistar público é o maior desafio do cinema nacional?
O maior desafio é fazer com que o povo assista os filmes. Não só conquistar público, mas as pessoas terem acesso ao cinema. Quanto é um salário mínimo hoje?

260 reais.
Você trabalha e ganha esse dinheiro. Aí você tem um namorado, vai pagar um ingresso, é doze, quinze reais. Mais o ônibus, o táxi, a Coca-Cola, a pipoca... Vai para 50 reais, brincando. Você acha que o povo pode pagar isso? Aí dizem que o povo não gosta de cinema. Não gosta porque não tem acesso. O que o governo tem que fazer é abrir salas no centro, na periferia, no interior, a um real. Abre, bota cinema. E cabe ao governo fazer isso.


(Publicado originalmente em 29 de março de 2005)

1 comentários:

Anônimo disse...

por que você não faz um filme sem o Walter Carvalho a seu lado?
Responda,você não é macho.
A resposta é que é ele que faz seus filmes.
Agora,invente o que quizer.