
Uma lista com os cinco maiores fracassos sentimentais, aqueles que ficarão para sempre na história dos foras que um sujeito já levou na vida. É assim que começa a saga do ex-DJ Robert Flemming, dono da Championship Vynil, um loja especializada em vinis de punk, blues, soul, r&b, pop dos anos 60 e 'tudo para o colecionador de discos', como bem indica a frase na vitrine.
No último final de semana, Rob Flemming esteve entre nós. Trata-se na verdade o personagem de 'Alta Fidelidade', do escritor inglês Nick Hornby - livro que rendeu uma adaptação para o cinema com John Cusak no papel principal. Flemming e sua hilária fixação por listas - as cinco melhores faixas de abertura em lados A dos discos, as cinco melhores músicas para se tocar num enterro, e por aí vai – estiveram muito bem representados no espetáculo 'A Vida é Cheia de Som e Fúria', da Sutil Companhia de Teatro, levado ao Theatro da Paz, dentro do Circuito Cultural Banco do Brasil.
Sábado à noite, casa cheia. Patricinhas, punks de boutique, madames com aquele penteado estilo Beth dos Flinstones, empresários, DJs e jornalistas. Nada mal para um espetáculo recheado de referências da cultura pop e que, pelo menos aparentemente, só chamaria a atenção dos mais jovens. No palco, o ator Guilherme Weber, que atualmente está no elenco de 'Belíssima', mostrando versatilidade e fôlego numa convincente demonstração de talento.
Não há como não se identificar com a história, afinal, quem nunca gravou uma fita para conquistar alguém? Ou deixou de sentir as pernas ao ser abandonado pela garota dos sonhos? Com eterno espírito adolescente, Rob Flemming decide rever sua trajetória sentimental para, quem sabe assim, entender porque, aos 36 anos, acabou sendo abandonado pela doce Laura, que o trocou por Ian, o vizinho do andar de cima.
Uma das cenas mais hilárias - tanto no livro, no filme ou no espetáculo - é a que mostra os amigos de Rob, que trabalham com ele na Championship Vynil, massacrando os clientes desavisados que 'sem querer' acabaram pedindo um disco da Britney Spears ou coisa que o valha. O próprio Rob abandona uma pretê quando dá de cara com a moça vestindo uma camisa do (blargh!) Sting.
Sim, eles são radicais, intransigentes, punks de espírito. E pense bem: escolher um amigo pelo tipo de música que ele escuta não é tão péssimo assim. Afinal, como conviver com alguém que curte Alanis Morrissete? (Tá, vamos lá, a moça tem umas músicas legais). Mas namorar ao som de Bryan Adams? É um pouco forte, não?
Para além do sarcasmo, debochar de quem já nasceu vendido para a indústria cultural é uma virtude. O que dizer de bandas que já despontam com cara de refrigerante? Ou de artistas que se especializam anos a fio em copiar meticulosamente seus ídolos, só mudando um acorde aqui e outro ali? São os chamados genéricos - e olha que os originais nem são tão bons assim.
É por essas e muitas outras que o punk e seu autêntico marketing negativo fazem tanta falta. Arrebentar identidades, detonar os esquemas da indústria cultural, perfurar a cara do 'sistema' com grandes alfinetes foi a grande lição de Sex Pistols, dos Ramones, do Clash, aliado ao mandamento 'faça você mesmo', hoje onipresente no mundo transformado pelas tecnologias, em que qualquer garoto pode criar música dentro do seu próprio quarto, em qualquer muquifo do planeta.
Numa cidade com opções culturais tão restritas ao regionalismo, receber um espetáculo rico em citações da cultura pop foi mesmo um grande presente. Para completar a noite, só faltou mesmo avistar na platéia Jaime Catarro - um dos poucos roqueiros da cidade avesso a concessões - rindo das peripécias de Rob e sua turma.
(Publicado originalmente em 01 de maio de 2006)

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