29/05/2006

Eu não quero ter um milhão de amigos


Durante um bom tempo achei que o Orkut era coisa de gente idiota. Talvez seja mesmo, afinal, é pura perda de tempo ficar fuçando a vida alheia lendo perfis cuidadosamente elaborados para causar a impressão de que se é super interessante.

No mundo virtual todo mundo parece extremamente feliz, colorido, cheio de projetos originais e referências impronunciáveis (basta dar uma olhada nas comunidades selecionadas por cada um). Ou, ao contrário, há quem prefira fazer a linha “a vida não presta” e publicar fotos P&B com um jeitão desleixado e aquele olhar perdido no horizonte. Tudo muito fake, tudo proposta.

E isso sem falar da estranha contagem de amigos. Parece até uma competição de pessoas carentes, querendo somar um milhão de amigos a todo custo.

Acontece que a realidade é bem diferente. A rotina de 99% da humanidade (a Paris Hilton está fora dessa estatística) é feita de coisas prosaicas. Que graça tem acordar, tomar café com pão, seguir para o trabalho - ou a escola - enfrentar o trânsito, fazer uma prova, ouvir música, fritar um ovo? Mas, graças à internet, todos podem ter (ou pelo menos aparentar que têm) uma vida super divertida, emocionante mesmo. Caramba.

Um belo dia, durante as férias, resolvi entrar na tal rede de relacionamentos. Para minha surpresa, em menos de meia hora diante do computador, dei de cara com vários amigos que há anos vivem fora de Belém. Pessoas de quem eu havia perdido contato, endereço, e-mail. Aí foi uma festa, para não dizer um vício. Trocamos fotos, mensagens carinhosas, fizemos mil planos de reencontro. Segui diariamente procurando outros amigos, virei rato do Orkut.
E rapidinho minha rede chegou a mais de 150 pessoas. É claro que no meio de todo esse povo existem os amigos, os colegas, os conhecidos. Mas no Orkut fica tudo misturado assim mesmo.

As festas de fim de ano estão trazendo a Belém algumas dessas pessoas que eu não via há um tempão. Claro que elas viriam rever suas famílias, mas se não fosse o Orkut, provavelmente nossas chances de reencontro seriam quase zero. Dia desses, quando estava caminhando para o trabalho (existe algo mais trivial?), me toquei do quanto me sentia feliz pela oportunidade de vê-las de novo. E isso depois de anos e anos de silêncio e distância.

Muitos pesquisadores já tentaram explicar sentimentos como amizade, carinho, ternura. Mas eles ainda estão engatinhando. E ainda mais no Brasil, onde todo mundo tem a mania de chamar de amigo quem mal conhece - seja o garçom ou o flanelinha. Com essa história toda de Orkut, percebi que as amizades longas são as que contam. E que isso está além das explicações racionais.

Decifrar a química da amizade é algo complexo. Você não precisa ser idêntico ao amigo: é importante que haja o confronto, mas sem criar abismos intransponíveis. Amigo é quem pode falar aquilo que não gostamos de ouvir. E mesmo assim conseguimos superar a mágoa. Amigo pede grana emprestada, dá vexame quando toma um porre, liga no meio da madrugada quando está mal e pode até não te dar presente nenhum de aniversário. Ou seja: amigo dá um trabalhão. Mas aí 15 anos depois você ainda se diverte lembrando de alguma cena que ele involuntariamente protagonizou.

Na amizade verdadeira, o tempo é contingência. Não afasta, apenas vai adiando as coisas. Não, não quero ter um milhão de amigos. Quero apenas sentir que, de alguma forma muito especial, ainda é possível manter vínculos de verdade. E quanto aos milhões de quilômetros do mapa, o Orkut está aí pra isso mesmo.

(Publicado originalmente em 17 de dezembro de 2005)

2 comentários:

alano disse...

E mesmo sem orkut agora temos esse blog com as sábias palavras de nossa amiga de longas datas. Beijo.

Marcia Carvalho disse...

Alano então era você o tempo todo? O Baratão tá dizendo "Alano é o c...". É um legítimo guamaense! Beijos!