29/05/2006

A batida perfeita tem sotaque paraense


A aparelhagem paraense está ganhando o mundo. Pelas mãos do DJ Dolores, pernambucano registrado Helder Aragão, o som das guitarradas já fez gringo dançar nos clubes descolados da Europa e dos Estados Unidos. Garimpador das manifestações de gueto ao redor do planeta, Dolores lança agora seu segundo disco, não por acaso batizado de “Aparelhagem”, que traz duas músicas inspiradas nas criações de Vieira, Aldo e Curica. “O nome do CD é totalmente uma citação daí”, explica o DJ, em entrevista exclusiva e muito bem humorada.

Para ele, aparelhagem não é nada mais do que o abrasileiramento do sound system que agrega artistas de todas as etnias musicais. Música do interior, da cidade, dos coletivos, das comunidades. Sem rótulos e amarras, DJ Dolores sente-se livre para criar e instigar os ouvidos com sua produção eletrônica que subverte os padrões, que foge das convenções.

O resultado chega no ritmo acelerado dos blips e tóins que movimentam os neurônios. Dolores tem sido premiado pelo público e pela crítica - recentemente abocanhou o BBC Awards 2004 na categoria Club Global - e agora vive com os pés fora do Brasil, em turnês que vão de Nova York à Eslovênia. Para dar conta de tudo isso, “Aparelhagem” tem lançamento mundial, através do selo belga Crammed Discs/Ziriguiboom. Conectado às mídias que disseminam sua criatividade, DJ Dolores agora tem a palavra:

"Aparelhagem" vem sendo apontado pela imprensa como porta-voz do que você chama de “eletrônica de pobre”. O que seria esse conceito?
(Risos). Falo do jeito que os territórios de periferia se apossam das novas tecnologias. Aí no Pará tem o tecnobrega, os caras fazendo música de bailes que reúnem milhares de pessoas, produzindo com quase nenhum recurso, tudo basicamente digital, com um programa, um PC. Paralelos a esse movimento tem o pessoal de Angola, os imigrantes indianos na Inglaterra, que fazem um estilo chamado banghra. O acid house e o hip hop também são eletrônica de pobre, música feita com tecnologia bem barata. É isso que me interessa, muito mais do que o medalhão de d&b. São os caras que se apropriam daquela máquina de um jeito diferente e deixam ali um pouco do seu rastro cultural.


Foram várias turnês na Europa nos últimos meses. Como essas viagens contribuíram para a sua sonoridade?
Quando se conhece pessoas de culturas diferentes, quando dá para ir a clubes diferentes, você acaba convivendo com outros pontos de vista sobre o modo de produzir música, não dá para sair impune de um encontro desse. Obviamente isso me afeta profundamente. Um parte significativa desse disco é resultado de uma viagem para Belém, quando conheci Aldo Sena e Mestre Vieira.

Como você conheceu o tecnobrega?
Conheci através do Hermano Vianna, que me apresentou algumas coisas. Adoro essa cultura do Pará há muito tempo. Desde pequeno ouço as guitarradas, ainda hoje toca na AM. Acho incrível como esse tipo de música ainda é associada à idéia de brega, de fuleiragem, porque é uma música muito fina, muito sofisticada. Já toquei guitarradas em Chicago, uma faixa de Aldo Sena, o “Melô do Tibúrcio”, acelerando o peach, para todo aquele público que já viu os melhores DJs do mundo. O Aldo Sena é um cara sofisticado, um guitarrista sensível. Acho incrível como o preconceito cega, mas essa é uma forma conflito de classe social, da alta cultura, que divide o que é som de pobre do que é som de rico.

Você tem discos de tecnobrega em casa?
Tenho essas compilações de camelô. Toda vez que um amigo viaja para Belém peço que ele compre pra mim. Estou produzindo um show com o Beto Metralha, vamos fazer um dia no Sesc Pompéia, será no dia 13 de maio, com tecnobrega e mais um DJ de Nova York descendente de indiano.

Em maio você estará no megafestival inglês Glastonbury. Como vê o potencial para a nova música brasileira na Europa?
Dizer que é a bola da vez é um estereótipo, mas é verdade que o europeu está receptivo a qualquer música bacana bem feita. A música brasileira tem uma coisa sofisticada, quase um selo de qualidade. Por um lado isso é ruim, quando se concentra somente no estereótipo do samba, da bossa nova e das mulheres gostosas, mas a princípio acaba sendo muito mais positivo.

Em entrevista à Folha de São Paulo, o diretor do selo belga Crammed, responsável pelo lançamento mundial do seu disco, disse que essa percepção começou com a turnê de Chico Science na Europa, há dez anos. Você concorda?
Sem dúvida nenhuma a grande turnê de Chico Science foi fundamental para criar uma nova referência da música feita no Brasil. Em 2003, fizemos uma turnê com a Santa Massa, foram 37 cidades de uma tacada só, tocando quase que diariamente. Gente como o Marcelo D2 também ajuda a quebrar um pouquinho esse estereótipo. Quando toco influenciado pela música de Belém do Pará, nego se espanta e pergunta: “Mas isso aí é no Brasil? Parece africano, caribenho”. E eu digo: “Não, isso não é guitarrinha africana; é guitarrinha paraense” (risos).

Você acabou de tocar no encerramento do Abril Pro Rock e também subiu no trio elétrico no Skol Beats. Como tem sido as apresentações ao vivo do novo repertório, já que você também está acompanhado por uma nova trupe?
O show foi basicamente esse disco, música eletrônica, sampler e voz, música do Pará, do México. Aparelhagem é o nome do projeto, demorei um ano para montar essa banda, para chegar a essa formação e levar o disco para o palco. Não tenho muita preocupação que soe igual, porque o disco, quanto mais sutileza tiver, talvez demore mais a vida útil dele. Já o show é mais objetivo, é mais porrada, para fazer as pessoas dançarem. Eu tenho algumas composições, mas não sou musicista, não toco nada, não canto e chamo as pessoas para executarem as idéias, dou um trato na sonoridade geral. Esse é um disco bastante autoral, tem mais de 20 músicos participando, enquanto na banda somos apenas seis pessoas.

Por que você deixou a Orquestra Santa Massa?
Como não sou músico, fazer um disco é que nem fazer um filme, é como um diretor que monta um elenco em função de um conceito. A Santa Massa foi uma banda inventada em função de um conceito. Os meninos são músicos maravilhosos, todos têm trabalhos individuais, fizeram contatos no exterior, estão viajando.

E a relação com Isaar França?
Isaar era do Comadre Florzinha e largou o grupo para vir trabalhar comigo. A gente tem uma empatia grande, uma relação muito forte, ela é minha principal parceira nesse disco. Estamos trabalhando realmente juntos, ela é a crooner, é a cara da banda.

Além da experiência como produtor, você disse que pela primeira vez teve grana para chamar os músicos que quisesse...
Juntei dinheiro da turnê de 2003 e consegui algum apoio por fora, mas foi basicamente tudo pago do meu bolso. Pela primeira vez pude trabalhar pagando estúdio legal, todos os músicos e técnicos foram pagos, nada foi na brodagem, então eu podia exigir muito dos caras porque estava pagando (risos). É um trabalho artístico, mas também uma empreitada, um trabalho empresarial, profissional. Essa é a minha profissão, tenho que me concentrar, saber se estou fazendo uma coisa que expressa uma cultura, uma identidade, mas não posso tirar o pé do chão. Sei que aquilo é só um produto, não me ofende quando a pessoa diz que não gosta.

Quais seriam os principais pontos de convergência entre o trabalho atual e “Contraditório”, o disco anterior?
Tem um monte de coisa consciente e um monte inconsciente. Quando você vê o resultado final descobre uma marca, uma identidade. O que mudou basicamente foi o foco, que era a Zona da Mata de Pernambuco, e nesse disco é muito mais amplo, tem uma forte influência da música da tua região.

Você já trabalhou com o Pio Lobato, guitarrista do Cravo Carbono...
Grande Pio Lobato, foi meu parceiro no disco anterior. É um dos guitarristas mais finos, mais sofisticados do País, fez um disco solo que apresento para as pessoas, copio e dou de presente. O La Pupunha virou uma das minhas bandas favoritas, tenho tocado bastante do meu set e quero colocar em compilações também.

Você é adepto do sistema Samplig Plus, planejou o lançamento do novo disco simultaneamente no Brasil, na América do Norte e na Europa. Você se considera um guerrilheiro da música independente?
(Risos). Guerrilheiro, não. Só quero viver num mundo melhorzinho, isso é puro egoísmo. Acho incrível como uma coisa tão bacana como compartilhar livros, documentos, fotos e filmes para o dia-a-dia da gente possa ser ilegal, ilegítimo. É um jeito de dividir informação com outras pessoas, é uma característica do mundo em que a gente está vivendo. Isso não vai parar só para agradar executivo engessado de grande coporação. Mesmo esses caras tops não se importam que um moleque copie MP3, pois ele não está ganhando dinheiro com isso. Gente como eu, B Negão e Mombojó depende dessas ferramentas para divulgar o trabalho.

Você recebeu recentemente o prêmio BBC Awards na categoria club global. O que ela representa?
Esse é mais um rótulo da música eletrônica não ortodoxa. A BBC é um dos maiores conglomerados de informação do mundo, então essa premiação representa reconhecimento dos profissionais para um trabalho bastante profissional. Passar 40 dias dentro de uma van tocando quase que diariamente é um trabalho muito duro, não é pra todo mundo, não.

Você sempre fala da admiração que tem pela música paraense. Afinal, quando virá a Belém?
Tenho convite para tocar como DJ e fazer um workshop e uma palestra. O problema é que desde fevereiro não consigo passar cinco dias na minha casa...


(Publicado originalmente em 24 de abril de 2005)

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