
Muita calma nesse momento. Você está diante do novo CD de Tom Zé, “Estudando o Pagode - Segrega Mulher e Amor”, uma opereta que traz uma série infindável de referências, que vão de Beatles à tragédia grega. Tudo, desde o encarte-libreto cuidadosamente preparado, até a sonoridade criada com uma orquestra de folha de fícus, coloca os ouvidos diante de algo absolutamente criativo, inusitado. Talvez por isso Tom Zé tenha optado por enviar à maioria das redações um CD com uma entrevista de quase 50 minutos, em que muitas dessas referências, sugestões, inovações são explicadas de forma detalhada. Na coletiva que concedeu esta semana em São Paulo, ele e seus músicos apareceram vestidos de mendigos, trajando farrapos. Esse é o Tom Zé.
A figura do indigente, o homem na miséria que está mendigando o amor da mulher, é o ponto de partida do CD. Mas aí é que está. Você pode até simplificar e dizer que o disco é um manifesto feminista, mas Tom reage: “Isso não é um disco feminista, como vai parecer pra muita gente. É um disco masculinista. Eu mesmo, com minha experiência, vi o quanto estava difícil conquistar a verdadeira confiança da mulher, já que a situação dela se realizar sexualmente envolve abrir os véus, não só o véu da nudez, mas também o véu da alma, do coração, das suas aspirações, das suas vibrações mais íntimas. Acho que os homens precisam prestar atenção e começar a respeitar as mulheres, porque se isso se perder definitivamente, nós vamos ficar nesse diabo desse planeta com quem? Vamos voltar àquela infância do interior, que nego comia jegue, égua, matava galinha, o diabo?”, diz ele, divertido.
Foram quatro anos de estudo sobre o tema - a arcaica dominação masculina. Uma recente pesquisa da Universidade de São Paulo, que apontava que os jovens não estão satisfeitos sexualmente, foi outra referência importante. “Quase 60% dos rapazes ficam assustados, com medo de falta de ereção ou de orgasmo precoce, enquanto as meninas se queixam de dores, de que não conseguem se excitar porque não há intimidade e não conseguem desfrutar o gozo”, diz o sexólogo Tom Zé, cheio de propriedade. Então ele partiu desse princípio para armar um enredo, “como se fosse um pequeno teatro, em que cada canção vai respondendo a outra”. “A mulher começa sendo duramente agredida, depois ela pisa na cabeça do filho da mãe, depois os dois tentam se encontrar e o assunto fica em aberto quando o disco acaba, porque eu não sei tudo. Estou fazendo o CD justamente porque não tenho resposta”.
Todas as 16 faixas foram feitas para dueto, uma voz masculina e uma feminina. Para estimular essa conciliação entre os sexos, Tom Zé disponibilizou em seu site (www.tomze.com.br) todas as músicas com letras cifradas para que o interessado chame sua parceira e os dois possam “se distrair cantando junto”.
O título e a capa remetem diretamente a “Estudando o Samba”, gravado em 1976 - “o disco que me salvou e me botou nos Estados Unidos”, diz Tom Zé, referindo-se à “descoberta” de David Byrne feita num sebo. E não custa lembrar que esse álbum foi escolhido entre os dez discos da década pela revista Rolling Stone. Mas e o pagode? Por que estudá-lo? Acontece que a visão dos fundos do prédio de Tom Zé é a churrascaria do prédio vizinho - “um prédio rico”, como ele mesmo destaca. E de tanto ver as festinhas da classe alta regadas ao pagode que domina as FMs, Tom Zé se perguntou: “Mas será realmente que esse povo da alta buguersia só ouve pagode? Fiquei com essa coisa me rodeando, eu dormia toda noite com pagode na cabeça”.
Foi quando ele se propôs um desafio: “Meu Deus, esse gênero tão humilhado, que é do povo, que vem da raiz mais digna da música brasileira, que é a do sambista das escolas, e que foi transformado naturalmente numa coisa de consumo, isso tem uma nobreza. E eu podia mostrar como esses rapazes que não têm escola, não tem acesso a uma música de mais cintura, como é a tradição da música brasileira, como eles comporiam diferente se passassem por uma escola. O negócio é simples: bota o Belo, o Netinho, esse pessoal, numa civilização que não fosse essa cultura de massa tão desastrosa, esse saco de gatos, e veja o tipo de música que eles fariam. Imediatamente seria completamente diferente”. Essa foi a tese pela qual o disco foi feito. E são 16 formas de pagode completamente diferentes uma da outra.
Chegamos ao encarte. Bom esse é outro capítulo. Cada canção traz uma imagem de um teatro onde estaria acontecendo a cena cantada. “Transformei em personagem da opereta todas aquelas cantoras que gravaram músicas minhas no ano passado e ano retrasado”, explica Tom Zé. Enão estão aqui Zélia Duncan, Mônica Salmaso e Jusarra Silveira, entre outras, mas todas com os nomes “ligeiramente deturpados”. E tem ainda os personagens que conduzem o enredo, Maneco Tatit, uma homenagem a Luiz Tatit, e Teresa, a menina segregada. Detalhe: Maneco é um pagodeiro.
O primeiro ato inteiro, “Mulheres de Apenas”, é inspirado na música de Chico Buarque. Depois vem “Latifundiários do Prazer”. Para Tom Zé, se a liberdade sexual dos anos 60 tivesse vingado, hoje seríamos latifundiários do prazer. A terceira parte é o amor estendido ao país, onde o artista trata do problema das estradas de ferro (!).
Então surge outra pergunta: como Tom Zé conseguiu costurar tudo isso - e ainda fazer um link com a moçada mais jovem? Sim, porque o projeto tem dois assessores juvenis, Pedro José, de 17 anos, e Fernanda Dell’Uomo, 15. “Estabeleci um arame farpado em volta de mim como se fosse um cárcere. Os dois são jovens que vi nascer e crescer, e tinham que me dizer se a música era cantável numa festa jovem e se era cantável por um violinista”. Tom Zé levou isso muito a sério. Se a música não agradava os assessores, ia direto para o lixo.
Neusa, companheira inseparável e fiel escudeira, também encabeçou o conselho consultor. “A Neusa entrava com o crivo da qualidade. A música ‘Quero Pensar’, fiz ela cinco vezes. A primeira vez ela disse: ‘Não está digno de você’. No dia seguinte, fiz outra complemente diferente. E ela disse: ‘Agora está muito complicado’. Fiz uma terceira e chamei os meninos, que disseram: ‘Está difícil’. Joguei fora a música, acabou. Fui fazer outra, mostrei para a Neusa e ela disse: ‘Não me meta mais nessa confusão’. A musa inspiradora se cansava de tanto ouvir música. E eu falei: ‘Será que estou ficando doido?’. À tarde fiz outra música e foi essa que ficou”.
Tanto cuidado tem sua razão de ser. Tom Zé revela que o seu sonho é que esse disco seja um “disco escola”. “Sou um grande cantador, canto no mundo todo, e sei que no mundo todo a canção brasileira é admirada, é amada. No Norte, no Sul, no Pará, em São Paulo...Esse lugar amarelo no Sul do mundo é onde bate o coração da inspiração. Eu também quis acrescentar uma referência, além de mostrar como o pagode ou qualquer outro gênero pode ser elevado à estratosfera da sofisticação e ainda ser popular. Isso eu tentei, Deus me perdoe se eu não consegui. Deus e vocês”.

1 comentários:
Essas matérias são todas antigas. Acho que você devia colocar algum selo ou retranca para avisar isso. Tipo, "arquivo" ou "do fundo do baú".
Também acho mais interessante permitir comentários anônimos, pois às vezes a pessoa não tem uma conta no Blogspot e não quer abrir apenas para comentar.
Você pode instalar o verificador (aquela caixinha com letras que aparece para digitar).
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